Destaque

Minha “Página do Autor” na Amazon

Todos os livros podem ser encontrados na minha “Página do Autor” nos sites da Amazon Americana e Brasileira.

Os ebooks ganharam novo trabalho gráfico para suas capas e no site americano também é possível adquirir a versão física (paperback) das obras.

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– Manuel Sanchez

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Filosofia nos Quadrinhos: A Verdade Sobre SuperMan

“Clark Kent é como o Super-Homem nos vê. E quais são as características de Clark Kent?

Ele é fraco, inseguro e covarde.

Clark Kent é uma crítica do Super-Homem à raça humana.”

Bill, em Kill Bill volume 2

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Bruce Wayne nasceu Bruce Wayne. Ele veste a persona do Batman para se sobrepor aos seus temores. Peter Parker nasceu Peter Parker. Ele se torna o Homem-Aranha após um acidente e descobre em si uma grande responsabilidade. Eles usam seus disfarces para atingir coisas incríveis. Mas fazem isso valorizando seu lado humano. O que está ali nas páginas dos quadrinhos é a inteligência de Batman e o senso de responsabilidade do Homem-Aranha.

Isso vale para quase todos os grandes heróis do universo de quadrinhos. Eles são humanos que após alguma tragédia pessoal ou acidente cósmico/radioativo, descobrem dentro de si algo maior que seus medos e decidem trilhar o caminho da justiça e da luta pelo bem. Seus disfarces valorizam seu lado humano.

Isso não é verdade para o Super-Homem.

Ele não nasceu Clark Kent. Ele nasceu Kal-El, um alienígena. Ele não precisa de Clark Kent. Ele é um deus no meio de humanos e poderia facilmente destruir, escravizar e reinar se o desejasse. E muitas vezes disse isso textualmente nos quadrinhos.Mas ele preferiu se esconder como Clark Kent.

Levando em conta que Kal-El  tem força, velocidade, inteligência e acesso a tecnologias além de qualquer limite humano, seu alter ego Clark Kent poderia continuar escondido e ser um grande esportista, um fenomenal cientista ou qualquer elemento de destaque que trouxesse maior desenvolvimento tecnológico ou médico para a humanidade. E ainda ser o Super-Homem.

Mas Kal-El acredita que o melhor disfarce entre humanos é o de um bobo, atrapalhado, confuso e indeciso repórter. Ele deve acreditar que somos quase todos assim nesse planeta e é esse o melhor disfarce possível para sumir na multidão. Superman acredita que somos patéticos.

Superman não tem lado humano algum. O que ele acredita que é um ser humano médio é alguém fraco e covarde. Isso é o que emula, o que ele transmite a cada página vestido de Clark Kent. Clark kent é sua piada contra a humanidade. É sua visão de desprezo.  

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Uma outra visão sobre  o herói aparece na obra de Umberto Eco que escreveu um excelente artigo sobre o mito do Super-Homem (“O SuperMan como modelo de HeteroDireção”).

Nesse artigo, Umberto Eco destaca que o Superman é produzido para o homem heterodirigido, ou seja,  o indivíduo “que vive numa comunidade de alto nível tecnológico e particular estrutura social e econômica, e a quem constantemente se sugere o que deve desejar e como obtê-lo segundo certos canais pré-fabricados que o isentam de projetar perigosamente e responsavelmente.”

Em resumo, Eco afirma que o Superman tem como principal motivação manter o status quo da sociedade que ele defende.

A produção das histórias do Superman juntamente com a propaganda, marketing e outros veículos de cultura em massa ajudam (ou persuadem) o indivíduo a valorizar e reafirmar para si mesmo o modelo atual da sociedade.

Apesar de ser quase onipotente (sua única fraqueza é a Kriptonita) o Superman não acaba com a fome na África, não elimina o terrorismo internacional e nem acaba com as ditaduras.

O Superman luta contra inimigos locais que vem roubar um banco, destruir uma cidade ou sequestrar sua namorada. Ele é provinciano. Defende a propriedade privada e luta para MANTER a lei e a ordem. Sim, ele luta contra alienígenas sanguinários que querem destruir nosso planeta. E quando os derrota, Superman mantém a Terra a salvo, exatamente como está, sem alterar o status quo. 

Esses valores, colocados como ideais, incentivam o indivíduo a lutar pelas mesmas coisas. Apesar do incrível poder que tem, o Superman não fará reforma social ou deporá o governo ilegitimamente constituído ou o ditador violento. Ele não usará de sua força para acabar com as armas nucleares, nem ajudará a desenvolver novas tecnologias e vacinas apesar de ter acesso a tecnologias impensáveis para os terráqueos em sua ultra tecnológica Fortaleza da Solidão. O indivíduo heterodirigido é persuadido a seguir na mesma direção.

Superman faz parte do sistema. Age dentro dele, seguindo suas normas, para mantê-lo.

Por isso, eu sempre torci para o Batman   🙂

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Filosofia nos Quadrinhos: Rawls e a Teoria da Justiça aplicada ao Batman

O Inferno de Dante

O Inferno descrito por Dante em sua obra máxima, A Divina Comédia, está em forma de um funil, que segue em direção ao centro da terra, onde Lucífer está à espera.

Lucifer, outrora o anjo preferido do Criador, portador da Luz celestial, ousou desafiar Deus em busca do livre arbítrio.

Derrotado pelas tropas de Miguel Arcanjo, Lucifer foi condenado aos vãos da Criação com os anjos rebeldes que o seguiram.

Apesar de não estar descrita na Torah, a rebelião de Lucifer é narrada em lendas judaicas e anotações rabinicas da Cabala, sendo incorporadas no cânon religioso.

Dante descreve em seu poema sua viagem acompanhado do espírito do poeta latino Virgílio, saindo do Inferno passando pelo Purgatório até o Paraíso, para encontrar o espírito de sua amada.

De fato, o primeiro terço da obra é o mais famoso. O Inferno é divido em circulos.

Em cada círculo são punidos pecados distintos, de acordo com seu grau de “gravidade” Os pecados menos graves são punidos nos primeiros círculos e os mais graves nos últimos.

Primeiro círculo – o Limbo

É destinado aos pagãos virtuosos e aos não batizados, àqueles que morreram antes da vinda de Jesus Cristo, suas almas vagam pela mais completa escuridão, o que representa a não iluminação das mentes que não conheceram o Evangelho e seus ensinamentos.

Segundo círculo – Vale dos Ventos

Encontra-se a sala do julgamento, é lá que o juiz do inferno, chamado Minos, ouve a confissão dos mortos e os destina a um dos nove círculos, faz isso enrolando sua enorme cauda envolta do corpo, cada volta representa um círculo abaixo.

Nesse mesmo círculo, estão aqueles que cometeram o pecado da luxúria, que são atormentados por furacões e ventanias representando os vícios da carne, que assim como o vento, os levavam de encontro ao pecado.

Terceiro círculo – Lago da Lama

Encontram-se os gulosos, atolados numa lama suja, são punidos ao ficarem prostrados debaixo de uma forte chuva de granizo, água e neve, sendo arranhados, esfolados e dilacerados por um enorme cão de três cabeças chamado Cérbero, que retrata o apetite sem fim.

Quarto círculo – Colinas de Rocha

É o destino dos pródigos e avarentos, que possuem como punição, rolar com os próprios peitos grandes pesos, que representam as suas riquezas e estão fadados a trocarem injúrias entre si.

Quinto círculo – Rio Estige

Abriga os acusados de ira, estes ficam amontoados em um lago formado de água e sangue borbulhante, batendo-se e torturando-se. No fundo do Estige, estão os rancorosos que não demonstraram sua ira e permanecem proibidos de subir à superfície.

Sexto círculo – Cemitério de Fogo

lugar dos que em vida foram hereges, os que não acreditaram na existência de Deus e de Jesus como seu Filho. A punição que eles recebem é o sepultamento em túmulos abertos, de onde sai fogo (o que nos lembra a sentença dada aos condenados por heresia pela Igreja, que eram queimados em fogueiras)

Sétimo círculo – Vale do Flegetonte

É o destino dos que praticam violência. Esse círculo é dividido em três vales:

No primeiro vale (Vale do Rio Flegetonte), estão às almas dos que foram violentos contra o próximo, aqui eles permanecem mergulhados em um rio feito com o sangue dos que eles oprimiram. Na margem do rio ficam o Minotauro de Creta e centauros, que atiram setas nas almas que se erguem do sangue;

No segundo vale (Vale da Floresta dos Suicídas) estão os que praticaram violência contra si mesmo, esses se transformam em árvores sombrias e retorcidas;

No terceiro vale (Vale do deserto Abominável), estão os que praticam violência contra Deus, contra a natureza e contra a arte, e são condenados a permanecer em um deserto de areia quente, onde chovem chamas de fogo, um lugar estéril e sem vida, contrário ao mundo criado por Deus.

Oitavo círculo – Malebolge

É dividido em dez fossos, onde são punidos diversos pecados:

No primeiro fosso estão os rufiões e sedutores, açoitados continuamente pelos demônios, que os obrigam assim a cumprir os seus desejos;

No segundo estão os aduladores e lisonjeiros, estes estão imersos em fezes e esterco, que representa a sujeira que deixaram no mundo, resultado do proveito que tiravam dos medos e desejos dos outros e das falsas palavras proferidas;

O terceiro é destino dos simoníacos, enterrados de cabeça para baixo e com as pernas sendo queimadas por chamas;

No quarto encontram-se os adivinhos, que como punição têm suas cabeças voltadas para as costas, os impossibilitando de olhar pra frente;

No quinto fosso estão os corruptos, submergidos em um lago de piche fervente;

No sexto são punidos os hipócritas, estes estão vestidos em pesadas capas de chumbo dourado;

No sétimo estão os ladrões, que são picados por serpentes que os atravessam e os desintegram;

No oitavo são castigados os maus conselheiros, aqui eles são envolvidos por infinitas chamas, e padecem ardendo;

O nono fosso abriga os que semearam a discórdia, e são então esfaqueados e mutilados por demônios que lhes arrancam o que representa a discórdia semeada;

No décimo fosso, os falsários são punidos com úlceras fétidas e diversas enfermidades.

Nono e último círculo – Lago Cócite

Cujo pavimento é formado por gelo, é onde estão presos os traidores. Este círculo é dividido em quatro esferas:

A primeira esfera é a de Caína, onde são punidos os que traem seus parentes, estes ficam apenas com o tórax e a cabeça fora do gelo. O nome Caína faz referência a Caim que matou seu irmão Abel.

Na segunda esfera, a esfera de Antenora, estão os que traíram sua pátria, aqui apenas as cabeças ficam fora do gelo;

A terceira esfera, chamada esfera da Ptoloméia ou Toloméia, é onde os traidores de seus convidados são punidos, ficando apenas com o rosto exposto e quando choram, suas lágrimas congelam e cobrem os seus olhos;

A última esfera do nono círculo do inferno, é chamada de esfera Judeca, seu nome claro, faz referência ao traidor mais conhecido da história, Judas Iscariotes e é o destino dos que traíram seus senhores e benfeitores, permanecendo completamente submersos no lago de gelo, conscientes. No meio da esfera está Lucífer, que com suas três cabeças prende de um lado Judas, e do outro Brutus e Cássio, responsáveis pela morte de Júlio César.

Malakoi. Ave.

Filosofia nos Quadrinhos: Lúcifer, Estrela da Manhã

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 Lúcifer, estrela da manhã é um personagem de quadrinhos do selo Vertigo e para mim a melhor versão já retratada em qualquer mídia. Inicialmente, ele surge idealizado por Neil Gaiman como um personagem secundário nas páginas da aclamada série de quadrinhos Sandman; e depois é detalhado e expandido por Mike Carey em título próprio, utilizando-se de todos os mitos judaicos e cristãos sobre os anjos e suas batalhas, não deixando de mencionar as histórias de cunho místico que não se vinculam a nenhuma das religiões principais.

Sim, Lúcifer é a história atual do personagem mencionado no Gênesis bíblico.

Mas pouco tem a ver com a imagem de uma criatura suja, feia, maldosa, mentirosa, envolvida com a perversidade e desejosa de criar pequenas maldades ao ser humano.

O personagem dos quadrinhos tem mais semelhanças com o Lúcifer do clássico inglês  “Paraíso Perdido” de John Milton: uma figura bela, que exala liderança, apaixonada, soberba, ciente de sua força e de sua inteligência. Uma alma nobre, atormentada, de natureza aristocrática e dotado de um código de honra que segue à risca. O Lúcifer de John Milton e dos quadrinhos do selo Vertigo tem esse ar de desprezo pela fraqueza, de pouco caso com os que aceitam a obediência. Desprezo pela moral dos fracos, dos que ficam à espera de um mundo melhor no por vir.

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Preferido do Criador, o Portador da Luz é um ser amargurado por se sentir traído por Deus ao descobrir que uma eternidade de serviços prestados será ignorada em prol de uma nova raça criada pelo Senhor: os homens. Claramente inferiores aos Anjos, sem sua beleza, inteligência e força, mas que receberão o maior presente de Deus – negado aos Anjos – o livre arbítrio.

Em sua fúria ao ter todo seu amor e serviço não valorizados e em ter negado o direito ao livre arbítrio, Lúcifer articula uma rebelião nos Céus, sendo por fim derrotado por Miguel Arcanjo.

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Derrotado, jogado ao Inferno com sua hoste de seguidores, Lúcifer por fim transforma a derrota em conquista, declarando aos seus seguidores o direito de tomar suas próprias decisões, seguirem seus desejos, reinando a seu modo.

“É melhor reinar no Inferno do que servir no Paraíso”; ou seja, é melhor criar a sua própria identidade e traçar o próprio destino – mesmo que difícil e espinhoso – do que seguir ordens, aceitar um papel estabelecido pela sociedade (mesmo que divina) e negar a própria individualidade.

Esta frase de Lúcifer ao ser remetido ao Inferno é a afirmação da individualidade; a confirmação da modernidade. A assunção do “Eu posso”.

É deste personagem Miltoniano – e não do bíblico – que Neil Gaiman bebe para contar a história de Lúcifer, quando o mesmo percebe que NÃO, ele ainda não tem seu livre arbítrio. Que seu reinado individual no Inferno é falso.

lucifer16Afinal, as almas humanas condenadas são todas destinadas ao Inferno por ordem de Deus, sem qualquer interferência de Lúcifer que continua sem poder decidir quem fica ou não em seus domínios.

Finalmente percebe que o Inferno é apenas mais um dos reinos de Deus, sendo ele – Lúcifer – apenas um gerente em nome do Criador para cuidar de um canto destinado aos sofrimentos impostos pela Ordem Divina.

É Deus quem decide as regras de salvação ou condenação da alma e quem envia ao Inferno ou perdoa os atos. O julgamento das ações humanas é sempre de Deus, nunca de Lúcifer. Este apenas recebe as almas mandadas por uma Ordem Superior.

A identidade que Lúcifer orgulhosamente acreditava ter criado para si mesmo era falsa, imposta de fora, determinada por Deus, uma vez que seu reino continuava submetido às decisões tomadas nos Céus.

Lúcifer percebeu que estava sendo enganado. Ele não reinava. Obedecia. Ele não era livre, mas mantinha seus vínculos de vassalagem com o Todo Poderoso.

Finalmente lhe ocorre que toda sua vida, seus serviços, a Rebelião, a administração do Inferno – TUDO – já havia sido predestinado por Deus em seu Reino, retratado sempre como uma sociedade hierarquizada, de papéis definidos, onde não é permitida a decisão livre e espontânea.

lucifer01Na obra de Neil Gaiman “Sandman, Estação das Brumas”, parte da vasta coleção do personagem Sandman, temos o primeiro contato com o  personagem Lucifer.  Nesse livro, o autor  leva a busca pelo livre arbítrio de Lúcifer ao extremo, quando ele abandona as chaves do Inferno, corta suas asas e ruma para a Terra, abrindo um piano bar e vivendo entre os humanos.

Simplesmente uma mudança de paradigma total que inicia uma saga contando as histórias de Lucifer vivendo entre os humanos e as criaturas sobrenaturais que andam pela Terra.

É esse personagem livre e sem vínculos, aristocrático, gentil e vaidoso, vivendo entre os humanos e dono de um piano bar chamado “Lux” – em Los Angeles (óbvio!) – frequentado por místicos, bruxos e demônios que o escritor Mike Carey conduzirá em uma série própria que durou 75 números.

A série de quadrinhos é filosófica. Discute a questão do livre-arbítrio e da predestinação, a criação da identidade, a ansiedade da responsabilidade pelas próprias decisões e pela criação do próprio destino em um mundo que está sempre em mudança; onde a noção de hierarquia está deteriorada e não existem mais papéis fixos.

Ao contrário da noção bíblica, Lúcifer nunca mente. Ele deseja, articula, persegue… mas nunca mente. Esta é a base da moralidade do personagem, que persegue o mote de nunca mentir como um verdadeiro imperativo categórico Kantiano.

Lucifer_Liege_Luc_ViatourAr aristocrático, mente nobre, gosto refinado, ele expõe claramente o que deseja deixando aos terceiros que o encontram a decisão de se unirem ou não a ele – e enfrentarem as consequências de suas PRÓPRIAS decisões, falsidades e mentiras.

Lúcifer se vê como uma criatura que refuta as noções de bem e mal pré-estabelecidas seja por Deus, pelos demais anjos ou pelos homens. A idéia de que sua identidade foi forjada na polifonia dos simbolos e signos do mundo exterior destrói sua alma. Ele quer forjar seu caminho.

Compaixão não está em seu vocabulário. O personagem é praticamente um seguidor não declarado da filosofia de Friedrich Nietzsche. Existem seres destinados para a grandeza e outros destinados a servir; sempre existirão ovelhas que preferem seguir um pastor a tomar suas próprias decisões. E usar de suas mentes fracas para alcançar objetivos superiores não é um problema.

Ou seja, além do deleite dos quadrinhos, o argumento e diálogos são perfeitos para discussões filosóficas e comparações entre autores variados.

As aventuras de Lúcifer o colocam rumo ao seu grande desejo: a criação de um Universo próprio, em paralelo e mesmo em oposição ao universo de Yahweh, o Deus judaico cristão, seu pai. A concepção psicanalitica freudiana da oposição entre pai e filho permeia toda a obra. 

Tais manobras o colocam em rumo de colisão com diversas entidades místicas, deuses mortos de sociedades antigas e claro, com as hostes de anjos que enfrentou no passado da Rebelião original. Ao longo de 75 números, Lúcifer visita seus antigos domínios, passa pelas representações dos Infernos da mitologia oriental, até chegar à sua antiga moradia na Cidade dos Anjos e ter sua conversa definitiva com Deus.

Uma obra de fôlego impressionante que vai sendo contada em um crescendo. Mike Carey domina a arte do clímax literário.

Sandman - Estação das brumasNão é um quadrinho para ler fora de ordem.É uma novela mesmo. E das boas.

A quem interessar, tem que começar com a obra do Sandman “Estação das Brumas” (que se situa ali pelo meio da série de Sandman) e depois partir para o título solo de “Lúcifer”, com os 75 números na ordem. Tudo tem ligação na saga e referências entre diálogos dos primeiro números com acontecimentos da parte final são abundantes.

Um personagem atormentado de dúvidas, mas que não permite que elas o travem. Ao contrário, estas o impelem sempre a agir, atuar e criar. Nietzsche em estado bruto. Não tenho como esconder minha preferência. É a melhor série de quadrinhos já produzida.

A série foi posteriormente adaptada para a televisão em um seriado fraco, sem substância e que em nada lembra os quadrinhos.

Livro das Anotações Órficas: o fluxo.

Mais um ano de vida no livro das anotações órficas. E este foi especialmente intenso. Capítulo com tantas experiências iluminadas. Páginas escritas com lágrimas e sangue. Tantas coisas destruídas. Outras tantas reforjadas. Sonhos voltaram a ser planejados. Certos caminhos foram encerrados. Novas trilhas construídas. A esfinge me encarou e eu respondi.

O fluxo foi muito forte. As emoções me dominaram. Brutais e sem perdão. Paixão, raiva, reencontro, conversas abertas que ficaram anos caladas. Amor. Ódio. Cobranças. Retomadas. Promessas. Traições. Juras. Lealdade. Fidelidade. Desdém. Sinceridade. Artimanhas. Mentiras. Descobertas.

Este ano me encontrei em uma encruzilhada. Vagando mas sem estar perdido. Encruzilhadas são bem vindas. Mas não são planejadas. Não estava no meu mapa. Cogitei seriamente mudar o rumo. O vento que varreu o caminho foi um furacão. Fluxo forte que traz a tempestade ou que limpa o céu.

Somos mais facilmente enganados face a presença daquilo que mais desejamos. E quando me deparei com o desafio frente à esfinge, errei. Caí das alturas, feito Estrela da Manhã. Vaguei , qual um Cain.

O fluxo foi muito forte. Me deixei levar. Permiti que as ondas me envolvessem. Não controlei. Abri portas que não foram valorizadas. Fechei selos que nunca deveriam ter sido alterados. Abracei espumas. Surfei bem longe do leito do mar. Ignorei todos os sinais. Menosprezei os fundamentos.

Não fui sábio neste capítulo. Não fui prudente neste trecho. Fui alvejado por me colocar na linha de tiro sem escudo. Apaguei marcas de auxílio no caminho. Rompi cordas. Tudo poderia ter sido facilmente desintegrado no fluxo.

No mar revolto de emoções olhei para o Farol. Sereno. Altivo. Aguardando. Luz acessa e acolhedora na terra firme e forte. Foi minha guia. Foi meu rochedo. Abrigado e protegido. Recordando meus votos, meus sonhos, reenergizando um corpo cambaleante após nadar sem Rumo no mar aberto.

E ao fim de mais um ano, ao iniciar mais um capítulo no livro das anotações órficas de minha vida, sou ensinado do segredo revelado pela esfinge: tudo que é fluxo passa; só o fundamento permanece.

Crônica no livro “No Coração da Vida e Sob o Hálito da Morte” – Manuel Sanchez – twitter: @M1977sanchez

Grandes Frases, Grandes Livros: A Fraternidade Secreta…

Livros Amarelos - Van Gogh
Livros Amarelos – Van Gogh

“E mais uma coisa: havia um livro aberto sobre a mesa. Nesse café ninguém jamais abrira um livro sobre a mesa. Para Tereza, o livro era o sinal de reconhecimento de uma fraternidade secreta. Contra o mundo de grosseria que a cercava, não tinha efetivamente senão uma arma: os livros que pedia emprestados na biblioteca municipal; sobretudo os romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann.

Eles não só lhe ofereciam a possibilidade de uma evasão imaginária, arrancando-a de uma vida que não lhe trazia nenhuma satisfação, mas tinham também para ela um significado como objetos: gostava de passear na rua com um livro debaixo do braço.

Eram para ela aquilo que uma elegante bengala era para um dândi do século passado.

Eles a distinguiam dos outros.”

(A insustentável leveza do ser – Milan Kundera) 

Herman Hesse, o Mestre e a Mente.

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Herman Hesse tinha o poder de escrever inúmeras estórias sobre a busca pelo autoconhecimento : Sidarta, Damien, O Lobo da Estepe entre outros. Está no panteão dos meus favoritos.

Em comum, seus livros tem como pano de fundo o desenvolvimento pessoal e a criação da personalidade, que não são elementos dados, mas criações individuais e constantes.

Sua obra é influenciada pela psicologia Junguiana e por símbolos religiosos, sendo altamente psicanalítica e permeada por uma certa melancolia, acredito que inerente à sua postura reflexiva.

Em Sidarta, temos o personagem principal inicialmente em um mundo que muitos considerariam perfeito : riqueza, luxo e proteção. Até o momento em que os excessos exteriores deixam de ter sentido e ele se joga em uma peregrinação pelo mundo após romper com seu pai.

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A saga de Sidarta por entender seu lugar no mundo e seu papel como homem, o levará a seguir mestres, a repetir doutrinas, depois a romper com as tradições, negar os antigos mestres, descobrir os prazeres das mulheres, o ardor do trabalho, voltará para a luxo do dinheiro, abandonará novamente as conveniências da vida, romperá com a família, se entrevistará com o próprio Buda e verá seu próprio filho repetir seu exemplo de insubordinação contra as ordens paternas.

Tudo para trilhar o próprio caminho e descobrir-se um homem inteiro. Ou melhor: para criar-se como um homem inteiro.

Em Damien, o personagem juvenil Sinclair trava uma viagem de autoconhecimento e choque existencial quando percebe que o mundo real nada tem a ver com as ilusões piedosas e protetoras ditas por seus pais.

O livro trata da amizade de Sinclair com o jovem Damien, personagem envolvente e precocemente maduro que possui uma personalidade firme e que influenciará a forma de Sinclair ver o mundo e posicionar-se como adulto, quebrando a casca da juventude. 

Em O Lobo da Estepe encontramos Harry Haller, um outsider, um misantropo de cinqüenta anos, alcoólatra e intelectualizado, angustiado e que não vê saída para sua tormentosa condição existencial, até conhecer um novo círculo de pessoas e iniciar uma viagem reflexiva sobre o mundo, a humanidade e sua própria pessoa.

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Guia rápido do Blog: Explicando os Conceitos

Para facilitar a vida dos leitores, segue a  lista da série “Explicando os Conceitos”, onde tento destrinchar conceitos chave no entendimento da obra de alguns autores. 

Espero que ajude,

Manuel Sanchez

(Twitter:  @m1977sanchez / Instagram: @manuelsanchez.rj)

  1. Amor Fati em Nietzsche
  2. Ética da Virtude v. Ética do Dever (Aristóteles v. Kant)
  3. Hobbes: O Homem é Lobo do próprio Homem
  4. Nietzsche e a Religião v. Super-Homem
  5.  O Eterno Retorno em Nietzsche
  6. Sartre: A Existência Precede a Essência
  7. Kant e o Imperativo Categórico
  8. O Estado de Natureza em Hobbes e em Rosseau
  9. Descartes: Penso, Logo Existo
  10. Nietzsche: Deus está Morto
  11. O Totalitarismo em Platão
  12. O Homem como Ser Político e o Estado Aristotélico
  13. David Hume: paixão determinística vs livre-arbítrio
  14. Epicuro e o Paradoxo do Mal na existência humana
  15. Maquiavelismo Político
  16. Sartre e os limites da liberdade de escolha: conceito de situação
  17. A percepção em Berkley
  18. A Linguagem em Wittgenstein
  19. Bakthin e os Limites do Eu e da Linguagem
  20. Pitágoras e Juvenal: Mente Sã em Corpo São
  21. Por que Sócrates foi julgado?
  22. Explicando o Niilismo em Nietzsche
  23. O mundo das Idéias Platônico
  24. A alegoria da Caverna Platônica
  25. A dinâmica inconsciente dos afetos em Espinosa
  26. Camus e o Mito de Sísifo
  27. O existencialismo de Sartre e o Sentido da Vida

Meus Livros Favoritos – parte I

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Listas. Listas. Listas.

Elas nunca são justas e há quem diga que apenas geram discórdia. Mas como não amá-las por propiciarem o início de longos debates e conversas?

Seja pelo carinho anexado à sua memória, pelo prazer da releitura ou pela abertura para novos entendimentos e áreas de interesses, estes são aqueles que eu levaria comigo para qualquer lugar.

Qual é a sua lista? Comente nas mensagens.

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Cosmos – Carl Sagan

É o meu livro favorito em qualquer gênero. Trata-se do melhor livro de divulgação científica já escrito. Mas tratá-lo apenas nesse gênero seria não compreendê-lo.

Discorre sobre a história da ciência, o papel do conhecimento na formação do homem, nossas responsabilidades com a Humanidade e o papel da tecnologia e da exploração espacial em nosso futuro.

Foi um livro fundamental na minha formação como leitor e me fisgou para o gênero científico para sempre.

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História da Riqueza do Homem – Leo Huberman

Foi o livro que me ensinou a ler livros de História e a gostar de estudar, analisando os processos econômicos e políticos subjacentes às transformações do mundo.

Por causa desse livro e para entendê-lo corretamente comecei a ler outro, depois outro e outro e outro, até hoje com o objetivo final de completar aquela leitura inicial feita no colégio.

Tem um lugar especial na minha formação, sendo o inicio de toda uma área de estudos.

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O Senhor dos Anéis – Tolkien

É uma trilogia, mas vale analisá-lo como um livro só. Mais do que uma obra de ficção, é um mundo!

Tolkien criou uma geografia própria, idiomas, mitos, historiografia…uma aventura extensa, repleta de viagens, reviravoltas e personagens bem estruturados que se espalham em eras, que se tornam lendas e que geraram mitos.

Provavelmente o melhor livro de aventuras já escrito.

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Otelo – Shakespeare

Eu considero a melhor peça do bardo. E o bardo é um dos melhores escritores do mundo. Então, faça as contas.

Shakespeare é sensacional nas suas tragédias. São histórias sobre as aspirações, desejos e falhas de todo homem. Seja com príncipes querendo vingar o fantasma do pai ou nobres que buscam o augúrio de bruxas para atingir o reinado, os personagens shakespearianos são repletos de paixões, ódio e desejos.

Otelo é alguém com quem todos podemos nos identificar: torturado pelo ciúme, pela dúvida da traição sentimental e pelo ego ferido. Uma obra sensacional que mostra o monstro que habita em todos nós.

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O Evangelho segundo São João

De todos os livros da Bíblia, esse sempre me cativou. A melhor versão da vida de Jesus no Novo Testamento, tão diferente em estilo dos demais evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas).

Um livro de meditação para os que crêem e de poesia para aqueles que não comungam de fé, mas têm a sensibilidade para admirar um belo livro.

Considero o texto mais místico do Novo Testamento, sendo um desses livros de sabedoria para toda a humanidade independente da religião professada por quem quer que seja.

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O Nome da Rosa – Umberto Eco

O intelectual Umberto Eco é famoso pelos seus livros de ficção que são verdadeiras aulas de reconstituição histórica.

Neste, temos um homicida em série e uma aventura de detetive sherlockiano ambientada em uma abadia em plena Idade Média, no coração de um conclave de ordens eclesiásticas rivais.

O livro possui uma descrição vívida sobre a psicologia, as crenças e medos do homem da época e as ilações com os nossos medos e crenças modernas são inevitáveis.

Um dos melhores romances de todos os tempos.

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O Santo Graal e a Linhagem Sagrada – Baigent, Leigh e Lincoln

Adoro livros de conspiração. Escapismo bem escrito é diversão do início ao fim.

Este trata do que seria a conspiração máxima: a sobrevivência da descendência de Jesus Cristo e sua miscigenação com casas reais européias ao longo de séculos, com uma luta surda ao longo do rio da História entre aqueles que sabiam-se seus descendentes e a Igreja construída em Seu nome.

Não importa se você acredita na história. É bem escrito, divertido, um verdadeiro romance policial e histórico. Tem Templários, Igreja Medieval, mitos europeus, pesquisa histórica bíblica, concílios secretos, assassinatos…como não gostar desse livro?

Se os autores são loucos, eles são loucos que amam História e possuem uma imaginação maravilhosa.

Foi best-seller nos anos 80 e completamente plagiado por Dan Brown anos depois para escrever o fraquíssimo e pouco inspirado “Código da Vinci”.

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A Odisséia – Homero

É o pai dos livros de aventuras, o protótipo do herói e uma das fontes dos mitos da cultura ocidental.

Há quem diga que Homero nunca existiu. Quem chamamos de Homero seria um conjunto de poetas que criaram uma obra coesa ao longo de séculos de repetição oral de suas passagens.

A saga de Ulisses para voltar à sua Ítaca após a guerra de Tróia enfrentando deuses, monstros e feiticeiras; conseguindo armas mágicas, liderando homens em batalhas, amando belas mulheres e utilizando-se da sagacidade para sobreviver a desafios os mais inusitados.

Ulisses não é um deus aventureiro e nem um semi-deus heróico como Aquiles ou Hércules. Ele é um homem normal em um mundo inóspito, que enfrenta a ira de situações que não compreende inteiramente e que só tem sua inteligência e força de vontade como armas.

meditaçoes

Meditações – Marco Aurélio

Os pensamentos e anotações do filósofo estóico e Imperador Romano. Os historiadores colocam Marco Aurélio como um dos principais imperadores da Era Romana, o ápice do poder do Império.

Nas horas vagas, divagava sobre a vida, a morte, o poder, as relações humanas e o papel do homem na grande ordem do Universo. Seus adágios e pensamentos sobre os mais variados assuntos são uma aula de sabedoria e uma fonte para reflexão.

mau estar

O Mal-Estar na Civilização – Freud

Se existe um livro de Freud para ser lido para que se tenha uma visão de suas idéias, este seria minha escolha. E a partir dele, inicia-se uma jornada por inúmeros outros livros para aprofundar seu pensamento e os daqueles que o contestam.

Um opúsculo sobre as pulsões e desejos antagônicos de vida e morte que habitam nosso inconsciente, através dos quais lutamos para criar nossa cultura, religião e mantemos as relações sociais e afetivas.

Grandes frases grandes livros: Sidarta – o destino

Sidarta

O pássaro que antigamente cantava em meu peito não morreu ainda. Mas que jornada extraordinária!

Careci passar por tamanha insensatez, por tantos vícios e erros, por um sem-números de desgostos, desilusões, tristezas, só para voltar a ser criança e para começar de novo. E apesar de tudo isso, fiz bem agindo dessa forma.

Meu coração está de acordo e meus olhos enxergam aquilo com prazer. Coube-me em sorte o pior desespero. Foi necessário que me degradasse até o mais estúpido dos propósitos e pensasse no suicídio, para que me acontecesse a graça, para que eu ouvisse novamente o Om, para que me fosse dado dormir com calma e acordar refeito. Tive de pecar para que pudesse tornar a viver.

Aonde me levará agora o meu destino? meu caminho parece louco; faz curvas, talvez me conduza num círculo fechado.

Seja como for, vou segui-lo!

— Hermann Hesse, no livro Sidarta.