O Julgamento e a Morte de Sócrates


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Sócrates foi um homem fundamental para a evolução do pensamento ocidental que, não por acaso, divide-se  entre filosofia pré e pós-socrática.

Sócrates não deixou qualquer texto escrito. O que sabemos chegou a nós  através de textos sobre sua vida e doutrina escritos pelos seguidores Xenofonte e Platão, décadas após sua morte.

O relato de Xenofonte traz um Sócrates mais casuísta, de enfoque quase utilitarista e que não trouxe maiores aprofundamentos filosóficos. A fama que atravessou os séculos veio através da imagem de Sócrates que nos foi deixada por Platão.

A paixão e morte de Sócrates foi relatada por seu discípulo Platão em 04 textos básicos: Eutifron, Apologia, Criton e Fédon, como veremos a seguir em maiores detalhes.

Sócrates nasceu em Atenas em 469 a.C e morreu na mesma cidade em 399 a.C, tendo atuado no chamado periodo clássico ateniense.  Sua morte foi determinada em julgamento pelos cidadãos de Atenas. Através de Platão – ou na sua versão dos fatos – os motivos que levaram o filosofo a julgamento e a sua condenação foram três: não acreditar nos costumes e deuses gregos, introduzir novas divindades e , sobretudo, corromper os jovens com suas ideias.

Ao longo de toda a tradição filosófica ocidental, o julgamento e a morte de Sócrates foi citada e cantada como um dos atos mais injustos e incompreensíveis da democracia ateniense. Sócrates foi reverenciado como o primeiro dos grandes filósofos, praticamente o homem que criou as discussões sobre ética e virtude, tratando-as como matérias independentes per si. Tratou também da posição do cidadão no Estado, as razões de ser do Estado, as características do Estado ideal e as maneiras de alcançá-lo entre outros assuntos que o colocaram como o grande pensador do mundo ocidental – para o bem e para o mal.

Meme de Sócrates- Sábio é aquele que...A acreditar nas razões elencadas por Platão, os motivos parecem muito pobres e não justificariam tamanha gravidade da sentença.

Afinal, outros filósofos também ensinavam em Atenas no mesmo periodo e tomar jovens para tutelá-los ou ensiná-los era uma atividade bem remunerada e exercida por diversos sábios atenienses.

Sócrates, ao contrário, não cobrava por seus ensinamentos e conversas e seus ataques ao ensino remunerado está na raiz da ideologia que vê o professor ou mestre como um santo abnegado em missão de vida, ao contrário de um profissional que deve ser bem remunerado para o exercício de suas funções.

Mas afinal, quais seriam esses ensinamentos que tanto corrompiam os jovens? Por que as palavras de Sócrates eram tão temidas a ponto de justificarem um julgamento dessa magnitute? Qual era o contexto histórico da época? O que havia no mundo político de Atenas naqueles anos poderia ter alguma relevância para o julgamento? Entre os seguidores de Sócrates, havia alguém com poder político ou econômico capaz de exercer uma real influencia negativa na cidade?

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No que tange especificamente a Sócrates, os historiadores e pensadores tem se dedicado no ultimo século a entender justamente este ambiente político e suas conexões com a vida de Sócrates e seus discípulos.

Não se pode entender o contexto da morte de Sócrates sem se enxergar a Guerra do Peloponeso. Esta foi uma verdadeira “Guerra Mundial do Mundo Helênico”, que se estendeu por cerca de 30 anos e dividiu o mundo grego em dois grandes grupos: o primeiro liderado por Atenas e o segundo por Esparta. O próprio Sócrates lutou na guerra do Peloponeso (defendendo Atenas) e alguns de seus seguidores tiveram forte presença em decisões que foram desastrosas para Atenas.

Atenas era uma democracia, onde o poder político era exercido pelos cidadãos da cidade-estado, escolhidos por sorteio. Os assuntos da cidade eram discutidos em praça pública. Famosos eram seus oradores e inúmeros são os relatos louvando ou criticando a mudança de humores da massa de ouvintes após debates públicos entre políticos com posições contrárias. Era uma cidade onde se veneravam as artes, o discurso, o esporte e as competições atléticas. Atenas era um centro comercial, sendo o centro empresarial do mundo grego.

soldados-espartanosEsparta era uma oligarquia. Uma cidade-estado dominada por aristocratas, únicos a terem o título de cidadãos. Ao restante do povo, nenhum direito. O debate público era inexistente. O ensino das artes era considerado mais do que inútil, deletério. As atividades atléticas serviam para a luta, nunca ao esporte. O comercio não era valorizado, sendo a cidade mantida por tributos pagos pelas cidades vizinhas submetidas ao seu domínio. O Estado Espartano era dirigido por poucos, para poucos, devendo a massa apenas seguir.

Apesar de ter nascido e ter ensinado em Atenas por toda a sua vida, Sócrates estava longe de ser um democrata e suas ideias encontravam mais eco no estilo de vida espartano.

A acreditar nos relatos de Platão, sobretudo em obras como ”A República”, Sócrates defendia um estado dividido em classes, orientado por uma classe política especializada cujo objetivo era criar o Estado ideal, tutelando as massas através de formas indiretas ou mesmo pela força, quando necessário.

O Estado ideal do Sócrates platônico considerava o cidadão como um objeto a ser disposto pelo Estado, sendo que este decidia a idade de procriação das pessoas, confiscava seus filhos, exterminava as crianças física e mentalmente inaptas, censurava as obras artísticas consideradas inadequadas, controlava o trabalho de artistas, censurava previamente os discursos, criava centros de “reeducação” para cidadãos que não baixassem a cabeça para as determinações da elite mandante e chegava mesmo a defender o exílio para aqueles que insistissem em agir fora das determinações do Estado.

Esparta x Atenas - BRESCOLA Sócrates era um elitista.

Era um homem que tinha total descrença na democracia e que defendia o governo do povo por uma classe privilegiada. Alguns de seus seguidores incluíam membros das famílias mais ricas e aristocráticas de Atenas: Platão (seu discípulo mais famoso) era descendente de uma das famílias mais ricas e nobres da cidade, Alcebíades (outro discípulo) foi um dos generais da esquadra ateniense durante a guerra do Peloponeso e Critias (outro discípulo) era tio de Platão e um nobre de berço.

Através de relatos históricos – totalmente higienizados nos relatos de  Platão – sabemos que Alcebíades foi além de um dos generais Atenienses durante a guerra e, também, discípulo de Sócrates,  um desertor que passou para o lado espartano traindo seus compatriotas. Voltou para Atenas e novamente traiu a cidade para Esparta.

A guerra do Peloponeso teve inúmeras fases. Em uma delas, a aristocracia ateniense conseguiu tomar o controle da cidade de Atenas e se uniu a Esparta fazendo um expurgo das lideranças democráticas atenienses. Foi um periodo que entrou para a História como “Ditadura dos 30 tiranos” , sendo um periodo de prisões, julgamentos sumários e condenações a mortes. Um dos chamados 30 tiranos que quase mataram a democracia ateniense foi Crítias, tio de Platão e igualmente discípulo de Sócrates.

Sócrates pessoalmente parece nunca ter se envolvido em assuntos políticos práticos e nem exercido cargo politico, mas alguns de seus discípulos sim. E fizeram isso durante a guerra e tomando o lado de Esparta e exercendo grande poder.

O fim da guerra trouxe o declínio das duas grandes cidades.

Em Atenas, foi aprovada uma lei de anistia. Em uma tentativa de trazer de volta a cidade cidadãos exilados ou fugidos para outras localidades e recuperar a paz social, ficou proibido o exercício de qualquer ação judicial com base em atos praticados durante a guerra. Traidores e soldados, todos foram perdoados em nome da pacificação política da própria Atenas.

Leis de anistia resolvem a situação jurídica e apagam fatos no plano do direito positivado; mas não apagam as mágoas, o ódio e o rancor semeados entre a população ao longo de 30 anos de conflito.

Sócrates não deixou de ensinar suas ideias.

Idéias estas que como vimos era contrárias ao estilo de vida e ao próprio Estado Ateniense. Apesar de Platão jamais dizer isso diretamente, surge um painel bastante claro de um pós-guerra sanguinolento onde no meio de Atenas continua havendo um Sócrates pregando um estado forte, oligárquico e avesso à democracia.

Juntando a lembrança da guerra recém terminada, a mágoa pela morte de parentes, o sofrimento acarretado e a conexão com generais traidores e políticos tiranos usurpadores do poder  democrático; chega-se a conclusão que Sócrates não devia ser uma pessoa das mais queridas em Atenas e esta seria a verdadeira razão do ódio atraído contra sua pessoa e do julgamento arquitetado contra si, pouco importando aqui se ele acreditava ou não nos deuses da cidade.

Ótimos livros tratam bem de todas estas questões políticas do periodo e sua conexão com os ensinamentos Socráticos.

Os que recomendo e são bastante acessíveis são os seguintes (todos são ótimos):

1)      O Julgamento de Sócrates – autor: I.F. Stone, editora Companhia de Bolso

2)      A Morte de Sócrates – autora:Emily Wilson, editora Record

3)      História da Filosofia Ocidental – autor: Bertrand Russel,

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Em todas essas obras, encontra-se uma extensa bibliografia que pode remeter o interessado a outras leituras mais profundas.

As ideias de Sócrates e seus ensinamentos são descritos por Platão em dezenas de diálogos. Em todos, o filósofo trata da virtude e da ética através da desconstrução dos conceitos, demonstrando a insuficiência de conhecimento que possuímos sobre os mesmos.

O julgamento e a morte de Socrates são descritas em 04 textos: Eutifron, Apologia, Criton e Fédon (nesta ordem).

O primeiro é Eutifron e traz Socrates em um debate com o sábio Eutifron sobre o significado da piedade. Neste texto ficamos sabendo que Sócrates está a caminho do fórum, onde enfrentará um julgamento. No mais, é um texto sem outra conexão com o tema.

ArquivoExibir (1)Na Apologia de Sócrates, temos efetivamente o julgamento. Um texto belíssimo, trazendo as acusações dos detratores do filósofo (negar os deuses da cidade e exercer má influência sobre os jovens) , a defesa de Sócrates em frente a multidão e a votação, com a consequente condenação à morte após o filósofo recusar-se a modificar sua postura e suas ideias; o que se mostra no texto platônico é o ideal de todo pensador que se recusa contemporizar com suas convicções mesmo em face da morte.

Pouco importa o Sócrates totalitário visto em ‘A República”… é impossível não torcer por Sócrates neste texto belíssimo e escrito com maestria literária por Platão.

Criton

O terceiro texto é Críton, quando um amigo e discípulo de Sócrates o visita na cadeia e oferece a chance de fuga. Mas o filósofo nega-se a fugir e decide ficar, aceitando a decisão que o condenou à morte com um longo discurso sobre o respeito devido à cidade e suas leis, mesmo quando elas se voltam contra nossos interesses pessoais. Trata-se de um discurso sobre o dever e a responsabilidade.

O quarto e último texto do tema é o Fédon, que traz as últimas horas de Sócrates no cárcere, a visita de seus discípulos e seus últimos ensinamentos. Um texto de forte cunho religioso tratando de temas como a vida, morte, a alma e a reencarnação.

Platão estava de fato acima de seus pares na sua capacidade literária e este é um dos melhores textos, juntamente com a Apologia entre todos os diálogos.

Fedon

Filósofo, mestre, semeador das raízes do totalitarismo, idealista, religioso, primeiro debatedor da virtude e da ética… as palavras de Sócrates e os textos de Platão continuam sendo lidos e discutidos  quase 2.500 anos depois de sua morte.

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9 comentários em “O Julgamento e a Morte de Sócrates

  1. A grande curiosidade do julgamento de Sócrates é ele ter sido condenado a morte por conta de suas idéias em um estado dito democrático. É um paradoxo, e ao aceitar sua condenação mostrou que seus opositores exerciam de fato aquilo que ele pregava e eles condenavam.

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  2. O Filosofo Socrates, morreu pela logica da razao.mesmo rodeado de juizes que ofereciam oposicao na sua visao ele preferiu morrer defendendo a sua ideologia.
    Jesus Cristo .embuido de toda razao foi sacrificado na Cruz.Mas nao temeu a morte.Quem faria isso hoje?
    Quando uma coisa e certa porque temos medo?

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