O Existencialismo e as Limitações da Liberdade


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 I – O Existencialismo e a Liberdade

Para Sartre, a existência precede a essência humana; ou seja, não haveria uma essência humana a priori, seja ela determinada por uma alma transcendente ou pela razão. Com isso, ele rompe com uma tradição filosófica que colocava a existência humana como uma criação especial, definida por critérios superiores e transcendentes, seja por uma interpretação religiosa ou puramente racional.

O que chamamos de humanidade seria uma criação passo a passo, fruto das nossas deliberações e  que moldariam a cultura; e nela, os conceitos e valores que prezamos e/ou perseguimos. O indivíduo tem uma função histórica. E a sociedade é também fruto dessa sucessão de escolhas e deliberações.

Afastam-se os conceitos religiosos e místicos de que haveria uma essência humana anterior à existência, ou algum tipo de natureza humana básica e imutável acessível pela razão.

Somos o que criamos de nós mesmos, tanto no plano individual como no corpo social.

No cerne da questão, Sartre coloca então a liberdade. Somos livres para decidir o rumo de nossas vidas e criarmos o ser humano que desejamos nos tornar. Ou até mesmo somos livres para sermos omissos e covardes, engolindo nossos desejos e cedendo às expectativas da família e da sociedade. 

Sartre lida com a liberdade como a liberdade do sujeito, consciente e autônomo para escolher. Ou seja, seu conceito de liberdade é intencional, voltado para uma finalidade.

O filósofo assim se expressa em o “Existencialismo é um Humanismo”:

(…)   Como ponto de partida não pode existir outra verdade senão esta: penso, logo existo; é a verdade absoluta da consciência que apreende a si mesma. Qualquer teoria que considere o homem fora desse momento em que ele se apreende a si mesmo é, de partida, uma teoria que suprime a verdade pois, fora do cogito cartesiano, todos os objetos são apenas prováveis e uma doutrina de probabilidades que não esteja ancorada numa verdade desmorona no nada; para definir o provável temos de possuir o verdadeiro (…) 

 Ou seja, para o filósofo, o ser humano só se torna humano quando livre. O homem faz-se exercendo sua liberdade, pois é na ação livre que o homem escolhe seus atos e toma suas decisões.

existencialismo-140203213046-phpapp02-thumbnail-4É famosa a passagem do livro em que um jovem pergunta a Sartre se deveria ir para as forças de resistência francesa durante a guerra ou permanecer em casa e ajudar nos cuidados de sua mãe doente. Lembremos que Sartre escreve no contexto da segunda guerra mundial e nos anos do pós-guerra.

Afinal, qual seria a conduta mais valorosa para esse jovem? Recebeu como resposta de que não haveria uma solução certa, uma regra, um parâmetro e nenhuma iluminação exterior que o pudesse guiar em suas escolhas. O jovem era livre para erigir seus próprios valores e com base neles tomar a melhor decisão que fosse conveniente para sua vida.  Não existiriam valores éticos universais que servissem para decodificar a vida, mas somente a construção real e diária de valores pessoais de acordo com situações históricas concretas.

  

II – As Limitações da Liberdade

 O exercício da liberdade possui contudo suas limitações.

A primeira limitação e reiteradamente trabalhada por Sartre é o Outro. Minha liberdade encontra como primeiro limite a liberdade do Outro.

LV270064_NNenhuma ação torna-se inteiramente livre pois a realização dos meus desejos encontra como barreira a existência do Outro na tentativa de realização de seus próprios desejos, no uso de sua própria liberdade. Temos então a questão da alteridade colocada em Sartre.

Minha paz de espirito também pode ser diuturnamente desafiada pelas atitudes do Outro no exercício de sua liberdade. Afinal, o inferno são os outros.

A segunda limitação para a liberdade é o medo.

Sendo incondicionalmente livre, o homem é livre para agir à vontade e criar seu estilo de vida de acordo com seus valores pessoais. Para Sartre, podemos abdicar dessa liberdade pelo medo da reação estatal, familiar ou social. Mas mesmo nestes casos a liberdade estaria presente e se deixarmos o medo de lado poderíamos agir como quiséssemos.

Obviamente, Sartre considera em seu pensamento que o nascimento é um evento aleatório. Nascemos em uma sociedade, em um tempo e em condições sociais que não escolhemos. Mas a partir daí, somos obrigados a viver com tais contingências e e circunstâncias. Tais elementos são denominados por Sartre como “situação”. Vivemos em situação, ou seja, condicionados por símbolos, regras, leis, normas costumeiras que determinam e limitam o escopo e a profundidade de muitas de nossas escolhas. Somos livres para escolher, mas nossas escolhas são contingenciadas pela situação em que vivemos. Tais limitações, contudo, não ignoram a existência de pessoas que encontram forças para romper tais circunstâncias. Normalmente apenas para si, mas às vezes para romper barreiras para grupos ou sociedades inteiras.

A liberdade de escolha, portanto, é sempre um elemento presente e é isto que nos faz humanos. As escolhas, contudo, não são absolutas já que o elemento “situação” – elemento este que é histórico e socialmente diferente para cada um de nós – traz uma carga de limitações que nas possibilidades. Mas sempre existirão escolhas. E nelas, a liberdade de agir, lutar, mentir, contribuir para a manutenção do status quo ou omitir-se.   

Em nenhum momento, Sartre deixa escapar o conceito da construção histórica do ser humano, sem dúvida sua principal lição e o significado do seu célebre slogan existencialista: a existência precede a essência. 

 

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Veja mais em Sartre e o sentido da vida e o nosso post sobre Sartre a noção de desumanidade.

 

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