Crônica: Reflexões até esse ponto da Estrada.


Marc Chagall - Noivos no céu de Paris
Marc Chagall – Noivos no céu de Paris

 Se existe uma característica que posso afirmar logo de pronto a meu respeito: não me incomodo em envelhecer.

Na verdade, quando eu olho essa obsessão da sociedade com a juventude, busca por novidades constantes, insatisfação eterna com o sossego, desvalorização do passado… eu nunca entendi essa arritmia doentia da sociedade, pulsando desesperada pela novidade seguinte que brilhará alguns segundos e logo depois vai ser deixada de lado.

Eu gosto do sentido para onde minha vida está seguindo. Gosto dos anos que estão se somando. Acho que estou mais tranquilo, menos ansioso, mais dono de mim. Gosto dos meus hábitos. Adoro conhecer lugares novos, mas sem me desesperar quando estou  no calor do meu entorno. Tenho mais foco  nos meus objetivos, mas aprendi a deixar de lado esforços e autocobranças inúteis.

Aprendi a selecionar: atividades e companhias. Não me levo mais por pessoas ou situações que em nada me acrescentam, ou pior, apenas me desgastam.

Não vejo nenhuma dignidade ou glorificação nesse estilo de vida que enche a boca para falar que está ocupado, correndo o tempo inteiro e sem tempo para nada. Hoje as pessoas tem orgulho disso! Claro que todos nós temos que ralar para ganhar dinheiro e viver; mas passou-se a ver a falta de tempo como distintivo de uma vida plena, sinal de orgulho.

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Valorizo meu ócio. Passei a lutar para criar meu tempo. Brigo pelo meu tempo livre, para meus estudos e meus passeios.

Valorizo amizades. Mas o tempo me fez ver que amizades existem poucas. O resto é puro coleguismo ou companhia pelo hábito… não me importo em deixar que estes se afastem. Sou lento em saudar novos conhecidos como amigo: há que se ter quilometragem e bagagem.

Descobri que sou ótima companhia para mim mesmo. Na falta de companhia interessante, gosto da minha solidão, dos meus livros, filmes, charutos, bebidas e viagens: é mais prazeroso. O silêncio não me incomoda.

Ao longo dos anos, passei a ter mais coragem para experimentar. Não por achar que o antigo é chato ou ultrapassado; mas para conhecer o máximo de experiências e estilos humanos. Viajo. Nada me dá mais prazer.

E arte, arte, arte, arte em todos os lugares! Teatro, sinfonias, shows de dança flamenca, fados, museus, galerias, novos pratos, novas bebidas… viajo para conhecer, ver, tocar… e todas as experiencias foram me transformando.   

Aprendi também a expressar de forma mais livre meu amor. E isto foi uma libertação: sem amarras, sem ter vergonhas ou ficar me podando pelo fato do que os outros irão pensar. O julgamento alheio me tolhia muito na juventude… e isto é algo que larguei ao longo da caminhada. Infelizmente, não sei se consegui expressar a tempo meu amor pela pessoa que mais me importou na vida e me moldou para o que sou hoje. Espero apenas que ela esteja orgulhosa do homem que me tornei.

Frustrações acumulei várias… e confesso que volta e meia elas dão aquela pontada no coração. Mas vou tentando aprender com elas e descobrir o que vale a pena lutar para realizar e o que era meio delirante e juvenil.  Não me revolto. Mas falhei em vários planos e sei que tenho que rever alguns passos.

Eu olho para trás e penso no homem que eu era com 20 anos de idade. Praticamente metade da idade de hoje. Sinceramente, não sei se hoje eu gostaria de ser amigo do sujeito que eu era. Nem entendo como consegui convencer algumas meninas a me darem uma chance naquela época.   Meninas, desculpem-me pela falta de experiência e obrigado pela paciência e ensinamentos…

Eu era imaturo, chegava a ser arrogante por me acreditar senhor de verdades que o tempo transformou em pó, inseguro pela falta de experiências, sem nenhuma quilometragem de vida, rápido em julgar os outros, ansioso por me juntar em grupos ou tribos, não sabia o que fazer quando estava sozinho, não conhecia nada mas tinha opinião sobre qualquer coisa… enfim, exatamente o tipo de pessoa que hoje eu evito com afinco e grande felicidade.

Não me importo com os anos que vão se somando. Gosto deles. Acredito que tenho-os utilizado bem. Pelo menos essa é minha esperança.

Espero que não seja auto-engano.

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Um comentário em “Crônica: Reflexões até esse ponto da Estrada.

  1. Trazendo para mim a tua fala, quero crer que não viverá o “auto-engano”. Coloquei-me em seu lugar por algumas de suas passagens, e entendo seus questionamentos. Acredito que seja natural, quando atingimos certo grau de maturidade psicológica e espiritual. Um flashback sempre nos cai bem, quando o propósito É o maior entendimento de nós mesmos. Abraços.

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