Crônicas e Afins: Nos seus braços


Ze e Dª Maria (2)

Não havia muito mais o que fazer e minha mãe e minhas tias decidiram que seria mais digno se a passagem de minha avó fosse feita em casa. Meus tios não tinham voz, interesse e nem capacidade para decidir nada.

Ela permanecia no seu quarto no primeiro andar, conversando ou ouvindo o inseparável radinho de pilha. Minha mãe e minhas tias se revezavam nos cuidados daquela senhorinha cada vez mais frágil e distante. Os netos entravam e saiam, conversavam um pouco e se despediam um pouquinho a cada dia.

Estranho e perturbador, era a primeira vez que alguém realmente próximo a mim estava, simplesmente, morrendo. Minha avó era uma senhora forte, de poucas letras, hábitos simples e caráter irretocável que eu visitava todas as férias. Alguém que criara sozinha, na força e com honra, com muito trabalho e no arado suado da roça, todos os seis filhos após o abandono do marido. Minha família sempre produziu mulheres fortes. Dona Maria da Conceição de Jesus foi a matriarca.

Não me aproximava muito daquele quarto. Não sabia discernir direito o que eu sentia. Era um misto de medo. Um misto de saudade. Uma novidade que eu preferia ignorar. Mas era impossível.

Não demorou muito. Lembro que foi em uma madrugada. Acordei com o burburinho vindo do andar de baixo. Na sala, uma das minhas tias rezava um terço e pedia paz e tranquilidade. A outra passava por mim com um fraldão sujo e pedindo para uma das minhas primas correr e pegar um lençol limpo. As mulheres trabalhavam e se revezavam nas tarefas e cuidados. Não lembro de nenhuma figura masculina naquele momento.

Parei na porta do quarto de minha avó e ali fiquei. Como de hábito, o passo seguinte era muito difícil.

Minha mãe estava na cama. Ela estava calma e serena, mas as lágrimas rolavam pelo seu rosto. Minha avó parecia um graveto de tão frágil e, deitada, usava o colo de minha mãe como travesseiro. Seu rosto parecia vislumbrar outra cena, outro lugar. Ela estava se despedindo desse mundo e aos meus olhos nem parecia mais estar ali.

Eu quis entrar e abraçar minha mãe. Acredito que ela gostaria desse carinho, mas ao mesmo tempo a idéia me pareceu uma afronta e uma invasão.

Então foi tudo muito rápido. Minha avó balbuciou alguma coisa e gemeu, logo depois girando o corpo para abraçar minha mãe, disse: – Celeste…

E morreu.

Morreu nos braços de minha mãe.

Não lembro de como as coisas aconteceram exatamente depois. Quem avisou quem e nem do desenrolar da burocracia. Lembro apenas das lágrimas. Do sentimento de paz pelo seu descanso. Das palavras de saudade. De muita oração e dos abraços de força e apoio.

Hoje, para minha vergonha, confesso que não fui ao enterro.

Meses se passaram.

A vida volta ao normal. Tarefas, trabalhos, filhos, trânsito, mercado. Mas minha mãe engolia seco e marejava os olhos quando falavam de minha avó. Eu tentava puxar alguma história alegre, mas ela mudava o assunto.

avó1

Em uma noite dessas, bem comum, eu tive a segunda dessas experiências. Para o mundo foi um sonho. Se eu contar para qualquer um, vão falar que foi um sonho: o inconsciente processando as experiências. Mas eu raramente sonho. E quando sonho sei bem separar o processo. Na primeira vez que isso me ocorreu, me assustou. Mas na segunda, a sensação era conhecida. 

Minha avó apareceu feliz e faladeira. Havia tanta luz e cor no local que era difícil discernir o ambiente. Mas era claro e limpo. Tinha muita gente ali mas eu não reconheci ninguém. No meio da cena, minha avó saudável e risonha me deu um abraço. Ela – que eu sempre vi com os cabelos pintados – estava com uma cabeleira branca. Roupas brancas emolduravam um riso solto.

Ela perguntou de mim. Logo de mim, que pouco entrei naquele quarto onde ela passou seus últimos dias. De mim, que resisti a me despedir, que não fui ao enterro. Que não era o neto mais velho. Que não era o neto que morava com ela. Uma vergonha muito muito grande me invadiu. Mas ela me pegou nos seus braços e me abraçou com um carinho imenso e disse: – Avise que estou muito bem. Todos meus amigos estão aqui. Está tudo ótimo.

E acordei.

Você vai falar que foi um sonho. Tudo bem. Não será o primeiro.

Naquele mesmo dia, já sabendo qual ia ser sua reação,  eu disse para minha mãe o que eu havia sonhado. Falei da luz, de muito brilho, de pessoas por todos os lados e de como minha avó estava feliz, risonha, de cabelos brancos sem pintura e que ela havia pedido para avisar que estava bem, que estava ótima. Cercada de amigos.

Minha mãe disse alguma coisa ríspida e se afastou. Deixei aquietar. Logo depois ela voltou e pediu para eu repetir como havia sido o sonho. Contei. Ela saiu novamente, mas dessa vez em silencio.

Nós tínhamos uma dinâmica tão única que eu sabia quando e como ela ia voltar. Dito e feito. Ela veio e se sentou ao meu lado. Disse que eu não devia ficar imaginando coisas e que eu devia saber que era apenas um sonho. Os olhos dela ficaram cheios de lágrimas de novo, mas elas não caíram.

Eu dei um abraço naquela mulher e ela disse sorrindo: – mas conta o sonho de novo.

Eu contei.

O sonho nunca se repetiu. Ao longo das semanas seguintes, minha mãe pediu para contar a mesma história mais três ou quatro vezes. E depois o assunto nunca mais voltou. Ela voltou a falar da minha avó com alegria e sempre contando algum fato ou história passada.

Talvez tenha sido um sonho.

Afinal, todos nós precisamos de um.

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“Nos seus braços”, Manuel Sanchez

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