Berkeley: Ser é ser percebido.


George_Berkeley_by_John_SmibertGeorge Berkeley foi um ativo filósofo irlandês do séc. XVII conhecido por suas posições imaterialistas de fundamento religioso.

Segundo Berkeley, a matéria não existia em si mesma; apenas poderíamos afirmar a existência da matéria quando a sentíssemos pelos sentidos de alguma forma (toque, visão, olfato). Ou conforme sua declaração no livro “Ensaio para uma nova teoria da visão”: ser é ser percebido.

Colocado entre os pensadores idealistas, Berkeley acreditava que a mente era a função principal do cosmos e a matéria seria uma deturpação que só existiria quando nossos sentidos estivessem estimulados de alguma forma.

Tal afirmação o colocou em meio à inúmeros debates e foi alvo de deboches variados, uma vez que, como colocavam seus detratores, quando deixamos de ver uma árvore , então ela deixaria de existir? Quando alguém saísse do meu campo visual ou cognitivo, esta pessoa desapareceria do mundo?  

imagesBerkeley, que também era um devoto e pregador religioso, afirmava que tanto a árvore quanto às pessoas continuariam a existir mesmo que NÓS não as estivéssemos vendo (ou sentindo de alguma forma) porque a todo instante ALGUÉM os estaria percebendo, mesmo que esse alguém fosse a própria Divindade que, assim, seria a responsável última pela sustentação da matéria no Universo.

De certa forma, sua idéia de que a matéria seria uma ilusão da mente e que a realidade só existe verdadeiramente no campo das idéias (sendo a matéria uma corrupção) tangencia raciocínios encontrados no hinduísmo e no budismo, sobre a estrutura da mente e o aspecto ilusório da matéria (Maya, na concepção budista).

Matemático, Berkeley debruçou-se sobre a teoria Newtoniana e refutou as idéia de espaço absoluto e tempo absoluto que compunham o raciocínio dos “Principia” de Isaac Newton, cujo livro inaugurou a Física moderna explicando os conceitos gravitacionais e a mecânica celeste com o uso da nova ferramenta matemática do Cálculo Diferencial.

Rechaçado como inepto na sua interpretação da física moderna, apenas no sec. XX  as idéias de Berkeley foram relembradas quando os físicos debruçaram-se sobre os novos conceitos de espaço e tempo relativos trazidos pelas descobertas matemáticas de Einstein com a Teoria da Relatividade. As idéias de Berkeley sobre a existência da matéria apenas quando diretamente percebida foram igualmente utilizadas mais de uma vez em paralelos com o Principio  da Incerteza de Heinseberg,  enunciado da mecânica quântica, formulado inicialmente em 1927 por Werner Heisenberg, impondo restrições à precisão com que se podem efetuar medidas simultâneas de posição e velocidade em uma classe de pares observáveis em nível subatômico.

mentalismoNo campo da economia, Berkeley escreveu alguns artigos e ensaios cujos conceitos sobre trabalho e produção – que foram ignorados quando publicados –  ecoaram na obra de Adam Smith, o pai dos economistas modernos, que desenvolveu e enriqueceu algumas idéias seminais encontradas no filósofo irlandês.

Atualmente, a frase de Berkeley sobre “existir (ser) é ser percebido” é usada ad nauseam para descrever o mundo moderno com suas redes sociais onipresentes e a necessidade de atenção manifestada por seus usuários que buscam a todo instante o clique, o “like” da sua plateia, existindo inclusive estudos que relacionam a depressão à invisibilidade nas redes sociais.

Em um mundo onde o “mostrar-se” tornou-se mais importante que o “ser”, de consumismo desenfreado, de espetacularização da vida íntima e pessoal, o raciocínio de Berkeley ganhou novos ares e novas acepções: ser é ser percebido. Para o bem e para o mal.        

 

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