Crônicas e Afins : Estamos onde tudo acaba


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Interlúdio de casal. Momento de pausa que altera o compasso do relacionamento. Cada um vivendo no ritmo de sua rotina, certo de que a nota fatídica  nunca virá. Acostumados.

O maestro eleva sua batuta e expira o ar preso nos pulmões. O início do fim é sempre o mais difícil. A orquestra aguarda.

Voz elevada, lágrimas. Mantenho o mesmo tom. Não é uma questão de tristeza ou melancolia. Na verdade eu estranhava a sensação de paz na superfície do lago. Dia sem vento. Apenas aquela sensação de término. Um tanto escorregadia no peito, um tanto esfumaçada na boca do estômago . Mas mantendo o sentido. Avante. Sem esmorecimento. Escuto soluços.

Ela insiste em parecer surpresa. Mas não está. Conheço os sinais de longa data. Ela também. Estamos assustados. As mãos tremem acompanhando a voz engasgada. Já passamos antes  por esse caminho. Apenas evitamos entrar. Não há mais motivos para contorná-lo.

Percebo que já havia acabado antes do fim ser anunciado. Uma estória repetida com tantos outros. Acredito que em nossa intimidade não estamos vivendo nenhuma novidade. Incrivelmente ordinários em nossas pequenas dores.

O  sofrimento dos meses anteriores transformou-se  na serenidade com que vejo essa tempestade cair agora.

Escuto a agressividade que solta como uma cascata. Existem trovões. Pedidos de explicação. Raios. Ameaças.

Existe culpa. Por ter quebrado uma promessa, lançado ao mar um sonho. Não foi falsidade. O sonho também foi meu um dia. Pergunto-me se isso é dor ou racionalização? Enquanto ela fala eu sei que vou sentir falta das nossas conversas.

Ela mostra todas as vezes em que foi paciente, amiga. Lista todos os meus erros e deixa claro sua fidelidade. Profetiza que nunca encontrarei outra alma que me compreenda tanto. E é verdade. Mas não vejo motivos para alterar a direção dos eventos.  Ela se assusta com minha frieza. Me chama de monstro. Canalha. Canalha. Canalha.

Foram os melhores anos. Foram as melhores conversas. Os beijos mais carinhosos. A Amizade mais sincera. O Apoio mais doce.

Do grito surge o choro e deste os tapas. E no ímpeto de sua revolta ela se joga em meus braços querendo amor e aconchego.

Mas não haverá volta. Cada um sairá desse tablado exatamente como entrou. Sozinho. E sem saber como será de agora em diante.

Estamos no palco onde tudo acaba. O teatro está vazio. E os dois atores se olham como estranhos pela primeira vez.

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Manuel Sanchez, “Estamos onde tudo acaba”

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