Crônicas e Afins: Armazéns do Porto


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Parado na zona do porto, ele olhou por um momento os imensos armazéns que teimavam em existir. Uma lembrança de outros tempos. Ele gostava de guardar fotos em preto e branco dos antigos bairros da cidade. Comparar o que mudou.  O que foi destruído. O que sobreviveu.

Devido ao feriado, as máquinas que abriam a nova avenida estavam desligadas.  Apenas placas, cones e ferros marcavam o lugar sem funcionários. Os tratores engoliriam os armazéns.

Tirou o smartphone do bolso e rodou por alguns segundos as velhas fotos. Suas mulheres. Queria as duas. Levou ao limite a situação na tentativa de equilibrar os dois sóis que brilhavam em seu coração. Ele era aquecido enquanto elas queimavam.

Como resultado, magoou uma até o limite da destruição do respeito próprio e destruiu a sanidade da segunda. Amava-as. Mas destruiu a felicidade de ambas. Sabia disso enquanto fitava o canteiro.

Olhou para os lados e com a certeza que ninguém o vigiava, subiu em um dos tratores que aguardavam. Mexeu nas alavancas vermelhas.

O velho armazém seria derrubado em breve. Seu desuso era notório. Apenas uma casca.

Ela havia colocado uma posição clara depois de tantos anos. Após tantas brigas e rompimentos. Ou uma ou a outra.  Era o fim de sua vida dupla. Era o término de seus amores multiplicados. Uma delas não aguentava mais os remédios. A outra não se conformava mais com as repreensões da família.

Ele sempre amou os bairros antigos da cidade. Mas mesmo essas áreas um dia passam por grandes obras. É o inevitável. Chamam isso de progresso. Saudosistas lamentarão as mudanças.

Olhou os grandes e vetustos armazéns do porto.  Uma nova avenida mordia e abria caminho no seio das antigas construções. Todas ao chão. Nenhuma sobraria em pé.

Ficavam apenas as fotos.
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Manuel Sanchez, Armazéns do Porto

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

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