Crônicas e Afins: Armadilhas da Beleza


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Gosto do barulho da máquina de café quando a água fervendo vai caindo na xícara. Tsssssssss. Pego o café quentinho e ligo o rádio, deixando a televisão sem som, enquanto vou ouvindo Bowie cantando Starman. É a minha preferida do marciano.

Vou cantarolando junto com Ziggy e de relance acompanho as imagens na tela da Tv. A toalha forrada no tampo da mesa impede qualquer arranhão enquanto desmonto e monto a pistola.

Tomo mais um gole do café.

Tiro o carregador e conto as balas: quinze munições no pente e uma na agulha. Travo o ferrolho e tiro o pino, liberando parte do conjunto. O ferro frio se desmonta em dois nas minhas mãos. Uma coisa tão simples e que causa tanto estrago. Depende de quem usa. Existem aqueles que protegem a si e a terceiros, os que caem por força da bala dos maus e aqueles que voluntariamente tornam-se os vilões da história e se jogam como loucos iniciando tiroteios.

Na Tv leio a chamada da prisão da rotulada “gangue das modelos” e o cinegrafista mostra uma, duas, três belas mulheres. Eles adoram o rótulo. E adoram mais ainda mostrar a beleza das presas.

Ainda com a pistola nas mãos aciono o gatilho para liberar o conjunto completamente. Puxo a mola e retiro o cano da arma. No momento em que o ferrolho é liberado e todas as peças estão sobre o tampo da mesa, aparece na tela a imagem da quarta e última das presas da gangue das modelos.

Eu conheço aquela menina. Agora, uma mulher. Conheci raras tão bonitas.

Linda. Alva. Os seios desafiando a gravidade enfeitando uma cintura fina que se equilibrava em pernas bem torneadas. Os olhos dela não se abaixavam. Parecia uma leoa.

Calo Ziggy Stardust por um minuto para ouvir qual era o novo capítulo daquela história.

Minha mente é jogada no tempo sete anos para trás.

Estou em São Francisco de Itabapoana, em plena sessão do Júri de Andrea. Filha de uma família de classe média, criada sem luxos mas sem qualquer tipo de privações, Andrea poderia ter seguido a carreira da mãe e se tornado médica. Ela poderia ter seguido a carreira que quisesse.

Mas preferiu virar puta. Por escolha; não por destino e nem por miséria. Era bonita. Seu corpo chamava por olhos gulosos, mesmo agora: gasta e rota após alguns anos de uso intenso dos homens e de oito meses de cadeia aguardando a data de seu julgamento.

Andrea matou o namorado com um tiro.

Ele era o último de uma lista de homens aos quais Andrea entregava o dinheiro recebido abrindo-se para outros homens. Apesar de suportar uma ou outra surra de seus companheiros, o limite de Andrea foi atingido quando o namorado estuprou sua filha: uma menina de 12 anos de idade, alva, loira e de olhos firmes. Vamos chamá-la de Joana. Andrea voltava da atividade da noite quando ouviu os gritos de socorro de Joana vindos de seu quarto. Gritos e tapas. Muitos gritos. Muitos tapas. Pegou a pequena arma que carregava na bolsa e invadiu aos gritos o quarto da filha dando tiros no homem que montava em sua filha.

Matou o namorado com um tiro na cabeça.

Quando o corpo caiu no chão, Andrea deu outros três tiros no peito do homem. Sua filha perdeu a virgindade no estupro.

Quando o Júri terminou estávamos perto da meia-noite. O promotor havia pedido condenação por homicídio duplamente qualificado. Mas no alto da noite, o julgamento decidiu: Andrea era uma mulher livre. Legítima defesa da filha.

Livre, mas sem sua menina.

A jovem Joana estava em um abrigo há meses e passava por um processo para ingressar em uma família substituta. A Justiça também buscava informações da avó da jovem, a médica que para sua desilusão viu a filha entrar desejosamente no caminho da prostituição. Mas até o momento, nada.

A Justiça negava-se a entregar Joana para sua mãe até o dia em que a menina foi abusada pelo guarda municipal que fazia a segurança do abrigo. Em sua defesa, ele culpou a menina, dizendo-se seduzido pelos encantos da jovem.

Estava eu novamente com Andrea na minha sala, pleiteando que cuidasse do caso de sua menina. Ela queria retomar sua família, mudar de vida, procurar sua mãe e dar um novo caminho nos anos que viriam.

Depois do ocorrido, devolveram a menina para Andrea e o Conselho Tutelar iniciou o acompanhamento das duas mulheres. Meses depois, alguém disse que ela voltou a se prostituir e que a menina era usada como moeda para ganhar clientes que desejassem possuir mãe e filha juntas. Ao que parecia, uma fila de homens prontificou-se a atender o chamado.

Emitiu-se uma nova ordem judicial para retirar a adolescente da mãe.

Ambas sumiram. Desapareceram da cidade.

Na semana seguinte uma médica de meia idade surge na minha sala querendo notícias da neta. Era uma mulher fina, elegante, dona de uma sensualidade aristocrática. Disse-me que a filha era um caso perdido com o qual ela já estava resignada, mas queria a neta. A menina era sua chance de redimir-se. Mas não havia boas notícias para dar.

Faço agora o caminho inverso e remonto a pistola: coloco o ferrolho, cano e mola. Coloco o pino. Travo o ferrolho. Conto a munição: quinze balas no pente. Uma na agulha.

Continuo com os olhos na Tv.

ania_2_by_junkarlo-d3anxapTrês anos depois estou em Macaé: Vara da Infância e Juventude. Entre os muitos meninos e meninas envolvidos com furtos e com tráfico, eis que surge entre os apreendidos uma Joana de 15 anos de idade.

Mais linda do que a mãe jamais foi. Corpo de mulher. Exalando juventude e fogo com cada movimento. Não baixava a cabeça. Cabelos loiros emoldurando olhos brilhantes.

A menina passou os últimos anos usada e abusada pela mãe, entregue a qualquer um que pagasse o combinado. Fugiu após sufocar até a morte um dos clientes. Em troca de abrigo, entregou-se para um dos traficantes da região. Melhor pertencer a um do que a vários.

Por fim, foi apreendida após o estouro de um cativeiro.

O sequestro já durava vinte dias. Quando os policiais chegaram para soltar o refém, encontraram dois adultos que morreram na troca de tiros e a amante da dupla: a jovem Joana.

Ela tentou comprar sua liberdade oferecendo sexo.

Em sua oitiva, ela diz que cumpriu com o combinado. Mas mesmo depois de servir os policiais, foi levada e apreendida. Em seu testemunho, os policiais negaram tudo. Joana foi sentenciada a ser internada. Soube que fugiu.

Quatro anos depois estou tomando café.

A notícia na Tv avisa da prisão de quatro lindas mulheres que usavam de seus dotes e do sexo para limpar turistas e qualquer outro homem que cedesse aos seus encantos. E eram muitos. Vejo aquela jovem pela Tv. Dezenove anos de idade. Uma beleza de força solar. Raras vezes vi uma assim.

Penso na beleza e no sexo. Nas opções e na violência. Imagino se ainda existiria interesse da médica em aproximar-se da neta. Até onde resistem os laços de familia?

Desligo a Tv. Coloco mais um pouco de Ziggy nos ouvidos. Guardo a pistola na caixa.

E pego outro café.

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Manuel Sanchez, “Armadilhas da Beleza”

 

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

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