Crônicas e Afins: Navalha na frente do espelho


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A navalha vai descendo pelo topo da cabeça levando mais um trecho de cabelo. Quando livres, cada vez mais os fios brancos vão despontando e dominando. Entre uma e outra limpeza com água morna, eu penso que quando enjoar da careca lustrosa, não estranharia uma juba parcialmente branca. Acho que daria um ar de distinção. Nada mal para um quarentão. Gosto mais da minha aparência agora do que nos meus vinte anos. Ou estarei virando um daqueles tios sem noção de autoimagem?

Brinco com uma faixa Moicana na frente do espelho. Lamento não poder aparecer no trabalho com o cabelo espetado. Rio sozinho me imaginando entrando em um Júri com a aparência do motorista doido de Taxi Driver. Adoro esse filme. Faço uma anotação mental que tenho que revê-lo: – Você está falando comigo?

Vendo os fios brancos caírem, penso no que as pessoas tem contra o envelhecimento? Gosto mais de mim a cada ano que passa. Quem inventou esse discurso da necessidade onipresente da aparência jovem? Quando eu era mais jovem era apenas mais inseguro, improdutivo e sem experiências. Sempre acho um tormento estar cercado de gente muito mais nova do que eu. Só consigo pensar: – Por favor, envelheçam. Rápido.

Cabeça brilhando, é hora de aparar a barba. Ela cresce toda errada. Frustação. Os anos não vão consertar isso? Continuo com ar de soldado no front. Retira o charme. Queria uma barba de Hemingway….

Gosto de raspar a cabeça com meu scotch do lado. Escuto o estalar do gelo e tomo um gole. Qualquer desculpa serve para ter meu scotch ao lado. Dizem que eu bebo demais. Talvez seja verdade. Penso no meu tio alcoólatra e tenho certeza de no meu caso, eu sei quem manda em quem. Falta música. Pego o smartphone que me conecta com o planeta e coloco Vivaldi. Não. Muito afrescalhado para aparar a barba e tomar um destilado. Mudo para Bach. Impossível não pensar que o mesmo Sol que bate no meu rosto também jogou seus raios sobre Bach. O sol deve sentir saudades de tempos mais ilustres. Por que tudo hoje é tão medíocre?

Lavo a lâmina e penso o que eu não daria para poder conversar com esse tipo de ser humano: Bach, Mozart, Shakespeare, Goethe, Blake, Hemingway…. a imaginação vai dançando e trocando diálogos enquanto os pelos vão caindo na pia. Eles eram humanos? Imagino que estamos emburrecendo a cada geração. Provavelmente eles teriam tanto enfado de mim quanto eu tenho dos adolescentes.

2448-320x426Preciso ler mais. Às vezes acho que estou emburrecendo a olhos vistos. Lembro da pilha de livros separada em um canto. Fico com um pouco de raiva do trabalho que me tira o tempo de leitura, mas depois penso que – graças a Deus – é esse trabalho que banca meus vícios e deleites.

Os anos me deram coragem. Experimentei mais, viajei mais, conheci mulheres, lugares, comidas, bebidas, ervas, fumos. Passei a ter mais paciência comigo. Mais compreensão também. Me perdoei de muitas coisas. E descobri que não preciso compreender e nem gostar dos outros: apenas deixá-los ser quem são, felizes. Cada qual em seu caminho. Ninguém tem certeza de coisa alguma e me vacinei contra os ilusionistas quiméricos que dizem o contrário com sangue na boca. Gosto dos meus amigos. Às vezes acho engraçado como eles me enxergam ainda como o garoto de 15 ou 20 anos. Será que ainda passo essa imagem? Estive em pirâmides, museus, templos religiosos de 5 mil anos de idade, puteiros, imensas feiras de venda de ilícitos, corrida de cavalos, corrida de carros, mesquitas, estive no meio da floresta, no meio do deserto, no alto de um vulcão, tentei arremessar uma flecha no meio de uma tribo indígena – foi um fracasso – mas tão divertido. Às vezes, a vida é uma mulher sedutora; uma dama, uma mulher mais experiente que ensina um garoto a virar um homem.

Tomo mais um gole. A bebida está quente.

Por um minuto, imagino que seria bom ter um moleque para ensinar a fazer a barba e trocar idéias sobre outras culturas, outros pontos de vista. Penso nas perguntas que ele poderia me fazer. Imagino os lugares que levaria o menino. Tantas experiências. Um nó seco surge repentinamente na garganta. Quando eu morrer tudo o que eu vi e pensei morre comigo? Será que temos filhos para poder passar para o futuro nossas impressões do mundo? Acho que seria um bom pai, do tipo que ensinaria a nadar jogando o garoto no mar. Mas a vida me tirou a oportunidade. Às vezes, a vida é uma puta.

Me desfaço da lâmina. Seco o rosto e a careca lustrosa. Tomo o último gole do copo.

Saio de casa e encaro o Sol que me esquenta a pele.

O mesmo sol que iluminou Bach. Imagine.

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Manuel Sanchez, “Navalha na frente do espelho”

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

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