Crônicas e Afins: Pétalas de uma Paixão Cálida


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Então eu chego em casa e as luzes estão apagadas. Prefiro manter assim. O pouco de luz que vem do exterior é suficiente para me movimentar entre os móveis como se fosse um gato velho andando por seu terreno. Lembro que detesto gatos.

Hoje é dia do plantão de minha mulher: tenho longas horas de espera só para mim. É bom.

Mesmo no breu completo faço o caminho até o bar. Pelo tato encontro minha garrafa e levo para a varanda. Garrafa. Minha. Alguma coisa estala quando eu sento na cadeira. Estico as pernas e fico vendo os faróis que passam rentes ao muro. O primeiro gole que tomo ao chegar em casa é o melhor. O resto da garrafa nunca é tão bom. Mas eu insisto.

Busco os cigarros no bolso do terno. A chama me ilumina e morre.

No silêncio da casa eu olho no meu entorno. Minha casa. Decidi ficar. Afrouxo a gravata. Solto o primeiro botão do colarinho.

Tomo um gole, trago uma baforada. Lá no fundo eu tento identificar o sentimento que me invadia desde cedo. Saudade? Acho que sim. Mas não do tipo que liga ou que procura. Desta vez não. Apenas a certeza que acabou. A decisão que era tão cobrada. Decidi ficar.

Tomo um shot. Tomo dois. Será que tem cerveja de trigo na geladeira? Acendo outro cigarro.

Esses vales e precipícios do amor machucam. Uma carga psíquica que pode destruir um homem. Tantos cantaram seus brilhos em versos. Eu só penso no soco na boca. No sangue cuspido depois de tantas brigas. Decidi ficar.

www.ick4u.tumblr.com - Dreams in Black and White

Lembro quando a vi pela primeira vez. Uma menina. Olhos de índia. Corpo talhado para o sexo. Mente ágil. Sedutora. Mas era casada. Não me intimidei. Nunca me importei com isso. Devorei seu corpo tantas vezes até destruir seu casamento.

Mas mantive o meu.

Mantive as duas.

Criei uma rede de mentiras tão larga e imbricada que depois de alguns meses eu não sabia mais se as promessas de largar casa e esposa para ficar apenas com ela eram de fato sinceras ou apenas a forma que eu achava para navegar pelo corpo das duas. Sem pena. Sem culpa. Calculei.

Tudo tem um limite.

Um dia ela me avisou que ia embora. Sofria em ver que eu não terminava meu casamento. Sempre esperou. Até o dia que avisou que me largava. Disse dia, local e com quem.

As vezes penso se ela queria uma cena de filme. Ir até o local, tirá-la de lá, assumi-la totalmente. Não fiz. Nunca aceitei essa imposição. Sempre li como traição. E ela gritando que  havia largado tudo por mim. Que estava à espera. Que só seria traição se eu tivesse assumido tudo, plenamente, a luz do dia. Nunca aceitei essa traição.

Queria as duas. Insisti que as duas eram minhas. Impensável aceitar que ela tivesse um segundo. Um outro.

Os cigarros vão se sucedendo enquanto meus pensamentos recuam no tempo. O álcool queima minha garganta tentando sufocar as lembranças. No escuro da noite eu deixo a mente vagar.

7cdafec9-c7aa-4899-b74f-5e759b2ae009Ela tentou refazer a vida. Outro. Tentou se afastar. Outro. Que fosse. Não a vi por tanto tempo. Ela se entregou para outro.

Pego uma cerveja de trigo na geladeira. A luz machuca meus olhos. Prefiro continuar no escuro.

Reencontrei minha índia na sua formatura. E nos meses que se seguiram destruí seu casamento novamente. Devorei seu corpo tantas vezes que a submeti quase totalmente. Quase. Ela ainda não aceitava que eu mantivesse duas casas. Brigas. Cobranças. Choros. Ameaças.

Mas eu queria as duas. Insisti que as duas eram minhas. E ela perguntando sempre se eu ia ou se ficava. Que da maneira que estava ela não aceitava.

Tomo um gole e depois outro. E outro. Olho a garrafa e lembro da nossa conversa. E de uma nova briga. Ela insistia que eu fosse. Que eu largasse minha casa, casamento e família. Tinha medo que eu decidisse ficar.  

Acendo um cigarro no outro. O box está acabando. Gosto dos meus venenos andando juntos.

E um novo término. E minha índia colocou um novo sujeito em sua vida. Ela pediu que eu me afastasse. Não sai. Insisti até destruir mais esse relacionamento. Devorei seu corpo até ela terminar com mais esse invasor.

Mas ela continuava brigando para que eu não tivesse as duas. E chorava. Eu insistia na minha decisão. Ela começou a ceder. Mas a cada término e a cada homem em sua vida, eu a via com outros olhos. Não era mais a minha menina. A cada vez ela deixava de ser minha.

Cerveja. Cigarro. Lembranças.

Decidi ficar.

Nori May 27 2012

Não sei se era amor. Paixão com relâmpagos. Se era posse. Território. Marca. Propriedade.

Destruí cada relacionamento que ela tentou. Tentava submetê-la e ela me agredia com outro homem.

Por fim ela aceitou. Chorou. Sofreu. E abriu o coração de uma forma que mulher nenhuma jamais havia feito para mim. Aceitou minhas duas casas. Aceitou a divisão. Aceitou o silêncio. Entregou o coração. Sangrando. Meus termos.

Acabaram meus cigarros. O último gole da garrafa.

E nesse dia, terminei tudo.

Encerrei a briga.

Terminaram os beijos. Os corpos não se encontravam mais. Não havia mais nada ali que eu quisesse devorar.

Decidi ficar. Apenas com uma. E não era com ela.

Ponto final.

O plantão já devia estar acabando. Em breve minha mulher estaria de volta a nossa casa. As horas passaram enquanto eu ouvia o som da noite na minha varanda. E conversava com a miragem de antigas lembranças.

A paixão é uma tragédia que se abate sobre nossas vidas. Uma armadilha que destrói almas inocentes em busca de afeto e cumplicidade. Uma miragem que fere o coração com um punhal afiado. 

Saio da varanda e jogo o cigarro longe. Entro em casa novamente.

Pego mais uma cerveja de trigo na geladeira antes de ir para o quarto.

E me movo na escuridão como um velho gato.

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Crônica “Pétalas de uma paixão cálida”, de Manuel Sanchez

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

2 comentários em “Crônicas e Afins: Pétalas de uma Paixão Cálida”

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