Crônicas e Afins: Liberdade


5.0.2

Liberdade era tudo o que ele não tinha durante os primeiros anos.

Familia. Igreja. Estudos. Deveres. Tabelas com horários para atividades que ele não havia escolhido. Dependência econômica que subtraia a capacidade de decisão. Valores dos pais que seguia por respeito. E tinha devaneios com o dia em que teria seu próprio espaço. Porque liberdade tinha que significar ter seu próprio espaço.

Então finalmente era um homem feito.

Desses com emprego, salário e título. E alugou seu espaço. Depois comprou o seu espaço. Mas a liberdade que tanto esperava não desceu dos céus trazendo uma taça de hidromel. Porque havia o emprego. E longas viagens. E processos. Centenas deles todos os meses. E o tempo era dedicado para resolver problemas de terceiros que muitas vezes não mereciam. Mas era o trabalho. E tinha o salário. Seria a liberdade comprada com o salário quando este aumentasse. Então veio o aumento. Mas com ele só chegaram mais obrigações e responsabilidades. Dessas que você só tem uma vaga noção até o momento que elas chegam. E a sensação de liberdade escapou novamente. Porque ela não estava nem no próprio espaço e nem no salário.

E escolheu com quem viver. E no amor talvez estivesse a liberdade. Mas o encontro dos afetos com seus altos e baixos não se mostrou muito livre na convivência do dia a dia. Era uma senóide matemática presa a contratos, papéis, leis e às inconstâncias do desejo. Fatores externos que penetravam com garras tão profundas na carne do relacionamento que mudavam sua direção. Apagaram os fogaréus. Instalaram a rotina. Fatores externos dos quais não tinha o completo controle. Amor que não parecia uma linha constante. E controle parecia fundamental para a liberdade.

E escolheu outra pessoa com quem dividir o desejo, mergulhar nos prazeres da libido. Parecia excitante. Ela era tão mais jovem e vigorosa. E explodir em gozos deveria trazer liberdade. Porque prazer intenso sem laços parece ter um cheiro doce de liberdade.

557844_398281060209585_1621028322_nMas todo gozo almeja em andar na luz do sol. De mãos dadas. Toda excitação quer ser casta. De apresentar para a família. Porque é da essência daquilo que é parte lutar pelo todo. O prazer sem fim delira com o sonho da rotina. E com as novas cobranças, não encontrou liberdade.

Foi procurar em religiões. Mas dogmas prendiam e não agradavam. Olhou os gurus. Mas fórmulas prontas ou vagas pareciam igualmente algemas. Caiu em um hedonismo louco porque afinal a curtição sem compromissos daria esse bafejar de brisa do mar em mês de férias. Sexo com meninas das quais nem sabia o nome, bebidas diferentes, pós misturados. Apenas criaram outras obrigações a cada noite. Obrigações cada vez mais vazias.

Concluiu que talvez fosse apenas um fantasma. Um mito. Essa tal liberdade. Uma promessa com a qual nos enganam dia após dia. Talvez fosse só isso aí mesmo.

Desistiu.

Então em um dia qualquer, em um processo qualquer, sentiu outro tipo de prazer. Que não veio dos apetites. Que se apresentou quando pela primeira vez decidiu sair do mundo de suas próprias preocupações. Olhou para fora. Algo acenou quando ajudou alguém. E era alguém que nem conhecia. Objeto de trabalho. Mas percebeu que no trabalho existia serviço. E no serviço um sentido. E dedicar o tempo de seus esforços para algo que pela primeira vez ganhava sentido era um aspecto de liberdade que até então lhe havia escapado.

Com as engrenagens do entendimento começando a se mexer, elas também lancetaram os afetos. E o coração foi invadido pela saudade. E pensou nos compromissos traídos. E sem saber o que aconteceria, estendeu as mãos. Porque valia a pena tentar. Na verdade, quando buscou dentro de si com sinceridade, essa era a única coisa que valia a pena tentar.

liberdadeNão sabia se ela iria querê-lo novamente. Ou mesmo se ela o escutaria. Porque o estrago foi feio.

Foi um ato de fé. Um ato de súplica. Não era uma questão de perdão. Mas de entendimento. E ela abriu as portas de seu coração machucado.

Quando voltou para sua casa, para o espaço que havia abandonado sem olhar para trás, reencontrou afetos, rotinas e hábitos.  Vidros partidos e cacos. Mas também compromisso e companheirismo. E os dois se juntaram porque desejavam. Porque sonhavam. Porque eram livres para ir ou para ficar. E esse compromisso de vida era maior do que os prazeres dos apetites. Era amizade. Era apoio. Era cultivo. E nessa paciência havia carinho. Uma escolha que implicava renúncia. E na renúncia também reconheceu um aspecto de liberdade.

E naquela noite, os dois estavam na cama. Televisão ligada. Ela mexendo no laptop e ele perdido em uma de suas leituras. Ele lia muito. Tenha sempre cuidado com quem lê muito. Gente perigosa que está sempre insatisfeita. O copo de whiskey repousava no criado mudo. O cachorro chorou um pouco, se balançou jogando pelo para todo lado, pulou na cama também e depois se aboletou no meio do casal. Dava para ouvir as crianças no quarto ao lado. O som da rotina. E seu coração serenou.  

Ele olhou para ela longamente. Os cabelos amarrados. Os primeiros fios brancos aparecendo. A boca bonita. Ela insistia em reclamar do nariz, mas ele achava que combinava. O seu corpo de gazela que ele conhecia nos detalhes. Ela sentiu o olhar fixo e desviou os olhos da tela e mandou um beijo rápido, voltando para o trabalho.

Pegou o copo de whiskey.

Melhor. Peguei o copo de whiskey que estava na mesinha ao lado da cama. Um copo de base redonda. Queria ter um copo de whiskey de base quadrada. Acho mais estiloso, tem um quê de vintage. Sou um sujeito retrô. Tomei um gole. O diabo desce bem.

As crianças invadiram o quarto aos gritos e se jogaram na cama. O cachorro latia e pulava. Meu jornal da Tv foi sequestrado por desenhos animados.  Ninguém mais trabalhava ou lia. Era muita gente e bicho em uma cama só.  Todo mundo jogado na cama disputando espaço. Preciso comprar uma cama maior.

Abracei o que era importante. Renunciei ao resto. Descobri a liberdade nos compromissos dos afetos. Na disciplina do serviço. Sentido no cuidado. O resto é só divagação e poeira.

Mas realmente tenho que comprar uma cama maior. E um copo de whiskey de base quadrada. Acho muito estiloso.

liberdadeCavalosBrancos

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Crônica “Liberdade”, de Manuel Sanchez

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