Crônicas e Afins: O Retorno do Viajante


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Logo após o seu retorno do passado, o viajante do tempo foi obrigado a fazer alguns reparos no casulo prateado. A demanda de energia havia danificado o capacitor da nave. Conectado ao seu computador, o casulo flutuava alguns centímetros sobre o solo. Apagado. Momento de verificação. Avaliações. Casulo apagado. Tal qual o viajante.

Enquanto esperava, o viajante restava sentado em sua cadeira. O paletó do terno descansava em um canto e a gravata estava frouxa no pescoço.  Sobre a mesa, uma garrafa de vinho do porto. Ruby. Tinha o gosto mais intenso. Não gostava do Tawny. Acariciava a barba salpicada pelos primeiros feixes brancos.

Ele pensou no seu último encontro. Não sabia se havia feito a coisa certa. Essa angústia no peito o levava a fazer coisas das quais se arrependia depois. Agora pensava que não deveria ter despejado suas angústias sobre o futuro na mente de seu eu do passado.

Entornou outro cálice. Porto Ruby, como um Porto deve ser.

Um zumbido leve passou por seus ouvidos e dois flashes de luz deram lugar a um casulo negro. Um fio rubro passava pela  lateral da nave flutuante. O design era levemente diferente do seu casulo prateado. Mais moderno. O bico do casulo escuro desacoplou e deu saída a um homem. O visitante.

O visitante recém chegado tinha a mesma altura do viajante. Afinal, isso era algo difícil de mudar. Era um pouco mais roliço, mas estava forte e rijo. A barba era cheia e bastante tomada de branco. Tinha um sorriso no rosto e um semblante leve. Vestia roupas de passeio e um óculos de sol a tiracolo. Parecia um homem tranquilo. Em paz.

Por um momento o viajante com seu casulo prateado se assustou. Mas no fundo, sabia que era apenas uma questão de tempo. O mesmo  tempo que tanto o incomodava. . As normas eram claras a respeito da proibição de tais encontros. Mas afinal, se o viajante acabara de desobedecer a norma e havia voltado de seu encontro com o passado, era apenas esperado que em breve ele também viesse a ter o seu encontro com o futuro.

internet-of-things-2O visitante afastou-se do casulo negro e aproximou-se do homem mais novo. Sentou-se à mesa. Sem ser convidado. Havia um leve ar divertido em seus olhos. Como se tivesse acabado de fazer uma brincadeira. Ou quebrado uma regra. De novo.

O viajante pegou mais uma taça e serviu. Sem perguntar.

– Obrigado – disse o visitante.

– Eu tinha esperança que você aparecesse. Mas imaginei que haveria consequências. De que seria difícil. Continua proibido?

– Sim, continua – respondeu o visitante –  toda aquela história de danificarmos o tecido do tempo, teoria das cordas ressonantes, energia escura e ondulações gravitacionais… Nunca entendi a matemática. Mas você sabe…. fizemos assim mesmo.

– E a Barreira? Continua?

– Continua. Mesmo após todos esses anos. Só conseguimos ir para o passado. O ricochete nos coloca sempre de volta ao nosso tempo. A Barreira continua vedando avanços para o futuro. Um mistério.

Os dois homens se olharam. O primeiro, mais jovem, ansioso, tentava não passar recibo. Esperava o outro falar. Tinha como praxe nunca abrir o primeiro espaço.

O homem mais velho aproveitou o primeiro gole e recostou-se na cadeira. Não tinha pressa em falar. Nunca teve. Poderia ficar horas em silêncio no seu mundo particular. Sempre havia sido boa companhia para si mesmo. Isso nunca mudou.

Depois de duas taças em silêncio, o viajante, incomodado, por fim falou:

AAEAAQAAAAAAAAYhAAAAJGQ3MDY2OTRhLTA4ZjctNDdmYS1iZDdiLWRmMjZjOTczZDI0YQ– Sempre gostei de me imaginar como uma rocha. Sempre achei que me bastasse. Que sabia meu lugar no mundo. Que nada podia me tirar do caminho que havia traçado.

O visitante mais velho balançou a cabeça. Ele lembrava muito bem da sensação. Na verdade, havia um sentimento de conforto em imaginar-se no local certo. Em estar conectado com o que o cosmos exigia de nós. Uma abstração reconfortante.

– E agora essa sensação acabou. – cravou o visitante.

O outro o olhou com olhos de quem esperava um alento.

– Nunca mais. Você agora entendeu que ninguém tem um lugar no mundo. Nada é certo. Tudo é eternamente modificável. Em transformação. Mesmo um homem que se acha uma rocha.

– E dá para viver assim? Sem um norte? Pulando de um lado para o outro? Nessa pressa sem linha de chegada. Sem saber a razão.  – perguntou o viajante mais jovem – Isso tem… isso tem doído no peito. Eu vou tocando as coisas. Mas…

As taças estavam vazias.

O visitante olhou para si. Em uma fase com o coração tão estreito. Desgastado. Desesperançoso. Com uma constante nostalgia do passado. Apreensão pelo futuro. Olhando tantos caminhos que abandonou e os possíveis finais que eles teriam. Arrependido.  

Encheu os cálices. Um bom copo de Ruby encorpado como só as cavas portuguesas sabem produzir. Terras portuguesas que lhe traziam calor à alma. Saudades. 

Existem algumas coisas que eu aprendi até aqui. E é sobre isso que eu queria te contar. Foi por isso que eu vim. Por trás de toda a ficção, da estorieta de imaginação, dos casulos de viagem de tempo… preste atenção no que realmente importa.  

São as sincronicidades da vida. Se você chegou até aqui é porque talvez essas linhas te ajudem. São sincronicidades. Esteja aberto para elas. Em uma música, em um texto, nas palavras de um filme. O mundo se comunica o tempo todo para os que estão preparados para ouvir.

De fato, essa angústia que te alucina é verdadeira. Não existe lugar cósmico. Nunca existiu. Nunca existirá. Ninguém nasceu para coisa alguma. Por motivo algum. Você não está preso a nada. E não existe nenhum norte. Nenhum valor é pré-existente. Você não será recompensado por fazer o certo. E não haverá fogo algum se sentir prazer em seus pecados.

A sensação de que vale qualquer coisa… Você ficaria mais tranquilo esperando que alguém ou alguma força já tivesse traçado o caminho para você? Entregado o gabarito certo da vida? Pouparia tanto tempo…

Pois é.    

133976_Papel-de-Parede-Fuga-do-tempo_1366x768A cada segundo, a todo momento, o único senhor de sua vida é você. Não há outra verdade além desta. Não há qualquer essência anterior à sua existência. Apenas você pode decidir qual é o gabarito pelo qual irá traçar a sua vida. Existem aqueles que vivem em função de lutas sociais. Outros destinam sua energia para a família, alguns para o trabalho. Existem os que se dedicam apenas à própria satisfação. Alguns vivem na busca de seus mundos ideais e outros devoram mundos sensoriais.  Quem está certo?  O gabarito é seu. A essência é sua para a própria construção do porvir.

Mergulhe em você. A melhor viagem que você poderá fazer em sua vida. Conheça-te. Aproveite-se. Descubra quem você é. Abandone esses fascínoras totalitários que urgem em tentar reprimir o seu gozo e impor seus meios uniformes de felicidade.

O mundo irá expandir suas forças para dissuadi-lo. Não recue. Sob nenhum pretexto. Não recue. Se quiser descansar, descanse. Se quiser fugir, que fuja. Se quiser lutar, que lute. Descubra quem você é. E não recue.     

A cada caminho abre-se uma porta. E saiba que se fechará outra. O mundo é assim. Entenda que existem escolhas. E sigamos. Nem sempre haverá festas e banquetes. Um pouco de docilidade para aceitar as frustrações prepara o espírito. Nem sempre as chances se mostrarão novamente. Afie as garras para o momento oportuno.  Ataque quando necessário.

Não se afobe pelo desespero de chegar ao futuro. Não se entristeça por abandonar o passado. A cada dia seu gozo. E que cada dor fique na sua página. Abrace os afetos. Os de prazer e os que doem. Afetos são o que são. O mundo é o que apenas pode ser.

Deixe vir os pensamentos. Deixe-os vir. Sua consciência é a parte mais pobre de seus pensamentos. E no caos dos seus sonhos e devaneios saiba que é você tentando conversar com você mesmo. Uma conversa rica.  Escreva, pinte, fale, beba, festeje, corra, transe, goze, lute, largue, ame, crie, destrua, refaça. E a todo momento, deixe vir os pensamentos. Desconexos. Sua consciência é apenas um estreito facho de luz, um pequeno farol iluminando um mar imenso e revolto em uma noite escura. Mergulhe mesmo sem luz.         

Sim, existem dúvidas. Muitos medos. Não se paralise. Vá com medo mesmo. Abandone as certezas. Existe beleza nas perguntas.

Sim, existem mágoas. Muitas ingratidões. Não se feche. Vá de peito aberto para os afetos. Deixe de lado as fantasias. Existe alegria nos afetos reais.

Sim, existem arrependimentos. Muitos erros. Não deixe de arriscar. Vá vivendo dia a dia, gozo a gozo, soco a soco. O nariz sangra. Existe prazer na vida.

Pare de amar apenas o que te falta. Um monstro que te consome. Reconcilie-se com o mundo. Ame o que tem. Ame o que há. Ame o que é. O mundo é.

(…)

E depois de conversarem sobre todas as coisas, os dois homens tomaram os últimos cálices. O visitante mais velho deu um forte abraço no viajante mais jovem e entrou em seu casulo negro.

Um zumbido cortou o ar e dois flashes de luz romperam o limiar quando o casulo negro desapareceu no tecido do tempo. Puxado pelo ricochete.

O casulo prata do viajante estava pronto e consertado. Pronto para outra viagem.  Ele pensou no passado do jovem que um dia foi. E no futuro do velho que um dia seria.

E no mundo que é, na realidade dos afetos que são, o viajante tomou a primeira decisão de acordo com o gabarito que era unicamente seu.

Desligou o casulo de prata.

Não haveria mais viagens ao passado e nem angústias pelo futuro.

Reconciliado com o mundo.

Com os pés no presente.  

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Crônica “O Retorno do Viajante”, Manuel Sanchez

A primeira aparição do viajante você encontra aqui.

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