Crônicas e Afins: Entre Anjos & Demônios


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Vodka misturada com Jägermeister é o preferido do meu demônio. Meu arcanjo se contenta com um cálice de Porto. Ruby, nunca Tawny. Após tirados os anjos da submissão do quintal, acendemos uma luz baixa. Nos servimos e conversamos.

Não sei se acredito mais em uma alma. Em idealidades cósmicas ou transcendências. Sensação de proteção e continuidade. Como uma história de ninar. Um acalanto.

Cada vez mais sinto que o que existe é matéria. Matéria influenciando matéria. Matéria que elaborada pelos meus sentidos cria minha consciência, meus desejos e medos. Consciência fruto da matéria. Que ascende cada vez mais. Abandona as muletas.

Olho as asas e as patas do meu eu. Olho as aspirações e as tentações. Mergulho. De cabeça. O tempo da timidez acabou há tantos anos.

Eu vejo símbolos. Eu me relaciono com Arcaísmos. Que me conectam. Que explicam minha trajetória. Mas que não me puxam para uma conexão com o imaterial. Antes, fiam minha interação com a matéria. Um nó que traz o gozo e a angústia. Mas vividos na matéria.

Matéria que é aquilo que só ela pode ser. Que não pode ser outra coisa. Que não me julgará. Que não me condenará. Que não me recompensará. Apenas é. E neste mundo, não em outro.  

Entre meu arcanjo e meu diabo, acendemos um charuto. Vejo que a matéria me protege. Que me excita, impulsiona, entristece e afaga. Que escolho. Mas que as escolhas também são ilusões passageiras de rápidas luzes de consciência em um oceano mais fundo e mais vasto dos meus sentimentos. Sentimentos gerados pelas interações da matéria. Ondas das quais nem sempre percebo a proximidade. Mas que habitam em mim. Algo que pensa em mim. Que fala comigo. Do qual participo, mas que não domino.

tumblr_l7euixybgB1qcik7yo1_400Deus disse “Faça-se a Luz”. E seu anjo preferido era o portador dessa Luz. O Primeiro nas fileiras a ter consciência de sua autonomia. Aquele que abandonou a transcendência pelo reino da matéria.  

Matéria que nos escapa. Da qual só percebemos alguns espectros de luz, determinadas faixas de sons, algumas poucas dimensões físicas. Que nos mantém sem uma apreensão total. Que não é, em verdade, como nós a percebemos. Roda da Ilusão. Maya.

E assim, como um lúcifer que posteriormente percebe que na sua rebeldia criou apenas outro reino vassalo para o qual eram enviadas as almas de Deus; eu vejo que na matéria restrita que percebo existe apenas outra ficção. Mera interpretação parcial. Uma nova quimera. Só mais um indício.

Preso em uma nova idealidade, entre meu arcanjo e meu demônio, percebo que a resposta voltou a ser fugidia.  

Decidimos abrir outra garrafa. E acender novos charutos. E amar as mulheres. O gozo no encontro dos corpos. E que a matéria sacie a matéria.

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Manuel Sanchez, “ Entre Anjos & Demônios”

 

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