Crônicas e Afins: Lâmina de Navalha


navalhete-parker-barbearia-inox-5-laminas-astra-navalha-715801-MLB20417232742_092015-FEle veio em silêncio e se colocou na porta.

Não sei se veio atraído pela música do Eric Clapton acompanhado de um violão acústico que vinha do meu telefone, ou pelo barulho da água quente que saía da torneira.

Meu rosto estava branco da espuma e a lâmina da navalha descia devagar. Aquele pedaço de gente de um metro e meio se colocou ao meu lado e ficou olhando cada movimento.

Éramos figuras estranhas um para o outro. Dividindo a mesma casa naquele feriado prolongado pela primeira vez. Dividindo a atenção da mesma mulher há alguns meses. Tentando fazer um encaixe inédito na vida dos dois. Ele não falava muito. Não comigo pelo menos. Tentei falar de videogames, futebol, desenhos… nada funcionava.

Olhei em volta para buscar algum tipo de auxílio. Mas estava sozinho nessa.

– Tudo bem? – ensaiei perguntar  – Onde está sua mãe?

O menino me encarava. Em silêncio. Os olhinhos e a boca ficaram ainda mais apertados. E eu pensava se ele estava vendo um soldado inimigo ou um ladrão no meio da madrugada.

Criado sozinho com a mãe. Sem tios. Sem primos. Certamente eu era um invasor sob aquele teto.

– Sua mãe já te deu café? Eu posso fazer um café para nós dois – e a navalha limpou mais uma parte do meu rosto.

– Por que você está aqui? – ele disparou sem aviso.

O corte da lâmina fez um pequeno talho no meu rosto. Molhei os dedos e limpei o sangue que começou a brotar.  

– Bom, eu acabei de acordar e aqui me pareceu um bom local para iniciar o dia. E eu acho que vou ficar aqui até sua mãe aparecer naquela porta e nos salvar. O que você acha?

– Ela saiu. O que é isso não sua mão? – ele perguntou novamente. De repente, sem o intermédio da mãe, o garoto desandou a falar.

– Uma navalha.

– E esse sabão?

– Espuma de barbear.

– Para que serve?

pincel-com-creme-de-barbear-na-barbearia-9-de-julho-onde-ha-o-servico-de-fazer-a-barba-a-moda-antiga-1303141013783_615x300Era definitivo. Ele não ia parar.

– Nunca viu uma navalha?

– Só na televisão.

– Hmm… bem, um homem precisa disso para fazer a barba. Você não faz a sua?

– Claro que não! Eu sou criança! – disse ele rindo. E foi a primeira vez que o garoto riu perto de mim.

– Mas eu já estou vendo um fiozinho aqui do lado…..

– Sério? Sério? – ele perguntou se olhando no espelho.

– Claro que sim. Vem cá.

Puxei um banquinho que estava ao lado e fiz sinal para ele subir.

–  Aqui. Está vendo? Bem na bochecha.

– Não. Não estou vendo nada. Você está vendo? Por que eu não estou vendo? – ele perguntava ansioso.

– Claro que estou. Eu sou mais velho que você, meus olhos são melhores. Quando você crescer, você vai ver, você começa a ver essas coisas. Está bem aqui. É que olho de criança ainda está em formação.

Ele passava a mão no rosto e me olhava desconfiado.

– Minha mãe me perguntou de você – ele disse mexendo na espuma de barbear

– É mesmo? Vem cá, vamos fazer essa barba. – peguei a espuma e passei no rosto do garoto  – E o que você respondeu?

– Não decidi ainda – disse sério.

– Hmmm… então ainda temos uma chance. Preparado para a navalha? – disse colocando a navalha bem em frente ao seu rosto.

– De verdade?

– De verdade.

paiefilho-mg-20100806Ele ficou postado igual um pedaço de pau em cima do banquinho. Eu aproximei a navalha do rosto dele e fui lentamente descendo pela bochecha.

– Pode respirar ao mesmo tempo. Não precisa ficar com medo.

– Não estou com medo. Eu não tenho medo.

Limpei um pouco da espuma do rosto dele.

– Que música é essa? Quem está cantando?

– Eric Clapton.

– Nunca ouvi. Minha mãe conhece?

– Talvez a gente tenha que descobrir músicas diferentes daquelas que sua mãe gosta.

– Você não tem uma máquina que faz isso? Eu já vi na televisão. Eles usam uma máquina no rosto.

Comecei a passar a lâmina do outro lado do rosto do menino. Ele estava tenso mas pareceu animado.

– É… existem máquinas para tudo hoje em dia. Mas sabe, algumas coisas continuam boas do jeito antigo. Tem coisas em que um homem não deveria depender das máquinas.

– Mas então por que inventaram a máquina?

– Você prefere fazer a sua barba com uma navalha ou com uma máquina? O que parece mais charmoso para você?

– hmm…. – ele pensou alguns segundos – a navalha!

– Exato. Já temos tantas coisas nesse mundo que tiram os pequenos prazeres de um homem… não é legal estarmos aqui conversando, sem o barulho de uma maquininha no ouvido?

– Eu vou contar no colégio que fiz minha barba com navalha.

– Agora senta. Vamos passar um pouco de espuma no seu pescoço.

Minha namorada entrou na suíte no exato momento em que eu passava a navalha pelo pescoço do garoto. Ela parou na porta prendendo a respiração por um segundo, recuperando-se do susto. Só não sei se era susto da navalha ou da conversa. De repente o garoto não parou de perguntar sobre futebol. E ficamos discutindo a regra do impedimento. A mulher parada na porta, sem saber como reagir.

Enxaguei o seu rosto e secamos com a toalha. – Pronto! Barba perfeita. Está sentindo a diferença?

– Nossa! Muito!

– Filho… mas você nem gosta de futebol – minha namorada disse quebrando nossa conversa pela primeira vez.

– Claro que eu gosto, mãe. É que você não entende nada. Não dá para conversar com você sobre isso.

Ele pulou do banquinho, deu um abraço na mãe e disse baixinho: – Ele é legal.

E saiu correndo.

Ela me olhou meio desconfiada enquanto eu a puxava para roubar um beijo.

– Nãaaao! Você ainda está sujo de espuma! – ela disse de forma manhosa e me beijando.

Foi um beijo longo e molhado, do jeito que eu gosto. Abraçados, fui levando-a até a cama e ela caiu rindo e dizendo: – não, não, não….

O barulho do vídeo game vinha alto da sala.

Tranquei a porta do quarto e olhei para minha menina ansiosa em cima da cama. Os olhos dela brilhavam.

Já temos tantas coisas nesse mundo que tiram os pequenos prazeres de um homem…

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Manuel Sanchez, “ Lâmina de Navalha”

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