Blade Runner: diferenças entre o livro e o filme


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Sou um grande fã do filme Blade Runner, de Ridley Scott, conforme já tive a oportunidade de expressar no post sobre os melhores filmes de sci-fi que pode ser consultado aqui (parte 1) e aqui (parte 2).

Ao contrário de outros filmes pelos quais possuo uma forte memória afetiva, mas tenho consciência que se tornaram datados, Blade Runner é um filme que se mantém íntegro e fascinante após mais de 30 anos (foi lançado em 1982). Estranhamente, foi um fracasso de bilheteria no seu lançamento. Com os anos, tornou-se cult e em 2017 ganhou uma continuação.

A história acompanha o Caçador de Androides Deckard (no filme, Harrison Ford) em sua missão para eliminar 6 andróides de última geração Nexus-6 (Replicantes) que entraram na Terra ilegalmente.

Um filme perfeito certamente deve se originar de um grande livro e finalmente me dediquei à leitura da obra original de Philip Dick: “Andróides sonham com ovelhas elétricas?”.

Nos últimos dias verifiquei que as diferenças são inúmeras entre o filme e o livro, havendo clara vitória da produção para o cinema.

Vou ser mais direto: não gostei do livro. Eis as razões.

A Ambientação:

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O livro se passa em uma Los Angeles pós-guerra mundial. A poeira radioativa, a extinção em massa de animais e a péssima qualidade de vida levaram a maioria da população humana sobrevivente a emigrar para as colônias marcianas. A Terra é habitada pela ralé, pelos que não possuem dinheiro ou por aqueles que estão marcados pela doença ou pelas consequências da poeira radioativa.

A extinção em massa dos animais leva a que os sobreviventes sejam considerados como peças fundamentais de felicidade nas famílias. Quem não consegue arcar com os custos de um animal verdadeiro, é obrigado a ter um animal artificial elétrico – uma suprema fonte de vergonha social. O Decker do livro cria uma ovelha elétrica – escondendo a verdade de sua artificialidade dos vizinhos – e seu sonho de consumo é comprar um animal verdadeiro.

O livro aborda a depressão generalizada que abate as pessoas. Todos possuem caixas de empatia, com as quais conseguem escolher a vibração psíquica com que passarão o dia: a felicidade está ao alcance de um botão.

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Uma nova religião se espalha pela Terra e pelas colônias: o mercerismo, uma tentativa definitiva de alcançar a empatia com os demais seres humanos através do uso da tecnologia que cria um ambiente virtual onde todos podem experimentar e comungar dos sentimentos alheios.

Parece uma ambientação incrível. Mas não funciona. O mercerismo é abordado de uma maneira chata, a constante fixação sobre a sacralidade dos animais é enfadonha.

No filme, quase todos esses elementos acessórios são abandonados. Não se menciona guerra. Tudo é fruto da degradação oriunda da poluição. O sonho de consumo é a emigração para fora da Terra. As questões envolvendo a religião e os animais verdadeiros vs animais elétricos são totalmente ignoradas.

E foi uma ótima decisão dos produtores e roteiristas do filme.

 

O Caçador de Andróides:

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O Deckard do livro é um sujeito meio chato, trivial e burocrático, casado como uma mulher depressiva e sempre resmungando sobre sua ovelha elétrica, buscando o catálogo para ver quanto custaria um animal verdadeiro. O caçador nunca preenche a cena. A parte boa da narrativa é que vemos a destruição de suas convicções página a página.

No filme, Deckard é Harrison Ford. Só isso já retira toda a chatice e trivialidade do personagem que já começa o enredo angustiado e em dúvidas sobre sua profissão de caçador de recompensas, de assassino de androides. As questões e brigas de casamento do livro foram – felizmente – abandonadas.

E a eterna questão se Deckard é um humano caçador de androides ou um androide que através de memórias implantadas acredita ser um humano que caça androides, também fica em aberto tanto no livro quanto no filme. Cada um tem sua teoria.

 

Os androides:

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Esta talvez seja a parte mais divergente entre o livro e o filme e que me fez ter uma imensa decepção com a obra literária.

Os androides Nexus-6 do filme são criaturas trágicas.

Sabem que são androides com um curto período de vida útil e querem viver. Também são criados para serem escravos, serem usados como objetos sexuais para a satisfação de soldados ou atuarem em áreas de riscos de vida para os humanos. São entes cujas vontades não importam para os seus criadores e donos.

O grupo de Replicantes foge das colônias espaciais e entra ilegalmente na Terra  com o objetivo de encontrar o Criador dos androides para conseguir respostas: – por que me construiu? – por que eu vivo tão pouco? – você pode me dar mais tempo de vida? – Eu quero viver.

Essas questões são a base de toda a filosofia. As indagações dos replicantes/andróides e sua busca por seus criadores são uma conexão direta com os maiores dilemas da humanidade. No filme, vemos andróides sendo mais apaixonados e profundos do que qualquer outra pessoa retratada no dia a dia burocrático de suas funções.

No filme temos Roy Batty, o líder dos androides interpretado por um impressionante Rutger Hauer que até no momento de sua morte é mais humano e mais vivo do que todos os personagens humanos da película.

Seu foco é encontrar o grande cientista que arquitetou sua mente e é dono das empresas Tyrell, a construtora dos replicantes. Nessa busca, Roy Batty irá mentir, torturar e matar… até entender o valor intrínseco da vida como é retratado no clássico monólogo da chuva (veja o nosso post aqui). 

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E no livro?

Os androides são uma sombra. Fogem para Terra para fugir de uma série de crimes cometidos em Marte.

Não existe a busca existencial do seu criador. Não existe a motivação mística de se conseguir mais vida, mais tempo. Apenas um dia atrás do outro.

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Uma questão interessante e que poderia ter sido melhor explorada no livro é que em Marte os androides tentavam replicar a busca da empatia humana através do uso de drogas.

As drogas ilicitamente desviadas são a origem dos assassinatos cometidos em Marte e o motivo da fuga para a Terra. Mas esse enredo é tratado de forma superficial e em uma rápida menção em um relatório que Deckard lê displicentemente. Nada disso existe no filme.

O incrível personagem interpretado por Rutger Hauer no filme – Roy Batty, o líder dos androides – é um sujeitinho sem graça no livro. No filme, é cruel mas digno. Replicantes não possuem vida tecnicamente, mas Hauer morre como a verdadeira alma da história. Ele é a força propulsora de toda a película. No livro, sua presença é descartável, sua morte é sem sentido e não acrescenta coisa alguma.

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No filme, a androide chamada Rachel se choca ao descobrir que não é humana (ela possuía memórias implantadas e se acreditava humana) e sua dor é um dos elementos que a unem romanticamente com Deckard – o caçador de androides.

A união amorosa improvável dos dois leva a uma mudança radical na vida de ambos e a um final de redenção. Existe esperança, afinal.

 

No livro, Rachel é tratada como uma puta de luxo usada pela Corporação Tyrell (a empresa criadora dos Replicantes) para se aproximar sexualmente de caçadores de recompensas e tirar deles a motivação de

abater novos androides. Péssimo.

 

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Conclusão:

“Blade Runner” é um grande filme. Um dos melhores que já vi.

Tenho certeza que irei revê-lo várias e várias vezes.

Já a obra original de Philip Dick – “Andróides sonham com ovelhas elétricas?” – é uma boa idéia. Valeu por ter entrado em contato com o contexto original do autor, mas o livro vai ficar encostado na prateleira de agora em diante.

 

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

2 comentários em “Blade Runner: diferenças entre o livro e o filme”

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