Depois dos manuais: Filosofia, Psicologia e Sociologia para curiosos e iniciantes – parte 1


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Desde que o Blog Opinião Central postou a matéria  “Iniciação em Filosofia” com dicas de manuais para o leitor curioso e iniciante,  venho recebendo emails e comentários requerendo sugestões de outros livros para seguir com a leitura, após o esgotamento da fase dos manuais e resumos indicados.

De fato, por melhor que seja o autor do manual de iniciação em sua explicação pedagógica, nada substitui a leitura per si das obras estudadas.

Às vezes, essa leitura torna-se de difícil compreensão. Mas nesta primeira parte das indicações de livros, coloquei obras de leitura fácil ou média, passando longe daqueles calhamaços de vocábulos nebulosos. Não sou profissional da área e nem tenho paciência para divagações técnicas.  Deixemos isso para quem é do ramo. Aqui, vale o aprofundamento do pensamento mas dentro das nossas limitações de leigo curioso.

Toda lista revela muito dos gostos particulares de quem a produz, expondo mais em suas omissões do que em suas escolhas. Essa não é diferente. Coloco aqui os MEUS autores e livros preferidos, em grande medida porque foram as obras que me abriram a mente para novos assuntos ou porque foram os livros que finalmente fizeram com que eu entendesse determinado conceito. Tenho certeza que o amigo leitor que tenha chegado até aqui com sua lista pessoal na cabeça encontrará pontos para criticar ou acrescentar. Aliás, sinta-se livre para indicar novos livros nos comentários.

Acredito que as obras de filosofia, psicologia e sociologia devem ter um significado para a compreensão dos nossos dilemas e aspirações mundanas, do dia a dia. Sabedoria prática. Um mergulho na busca da melhor forma de levar a vida. Não sou fã de perplexidades metafísicas e de pouco apelo prático. Essa lista traz esse viés impregnado em suas escolhas. 

Boas leituras!

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Friedrich Nietzsche

obras indicadas: Crepúsculo dos Idolos, Gaia Ciência, Humano Demasiado Humano, Para Além do Bem e do Mal, O Anticristo, Assim Falava Zaratrusta

Essas são as minhas preferências nos livros de Nietzsche que, por sua vez, é o filósofo que trovejou inaugurando o mundo contemporâneo.

Em suas obras, ele aborda sempre de forma muito crítica e sem rodeios a decadência da moral vigente, os costumes carcomidos, a postura servil da humanidade e imagina o potencial que um homem verdadeiramente dono de si poderia atingir não estivesse preso por seus próprios medos e pelos grilhões do peso da cultura e dos hábitos da sociedade.

Profundamente radical em suas opiniões, sem fazer nenhuma questão de composição com os pensamentos contrários, Nietzsche não apresenta qualquer respeito pelos mais fracos, pobres, simples ou tímidos. Sua linha é anticlerical, oligárquica, pairando acima dos gostos populares e das massas. 

Seu conceito da morte de Deus é a antesala do pensamento contemporâneo que estruturou o mundo baseado  no desenvolvimento tecnológico esmagador, nas guerras de alcance planetário, no sistema de produção e consumo em massa onde a reflexão perdeu a primazia e os valores do passado não nos servem mais. 

O filósofo já foi abordado no site em documentários e diversos posts sobre seus aforismos e idéias.  

 

 

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Sigmund Freud:

obras: O futuro de uma ilusão, O mal estar da civilização, Psicologia das massas e análise do eu, Compêndio da Psicanálise.

A linha de pensamento freudiana pode ter sido superada por outras formas de compreensão e abordagem psicoanalítica (junguiana, lacaniana etc) e muitos de seus postulados foram colocados em xeque ou de fato abandonados (ex: a inveja feminina do pênis, a repressão sexual como fonte das neuroses etc), mas ler a obra de Freud continua fundamental como ponto de partida para muitos conceitos.

freud_by_kab3on-d38elrmFreud era um homem que não tinha receio de defender idéias novas e nem um pouco convencionais e seus insights foram a semente para a criação de uma ciência completamente nova na análise do inconsciente.

O “Futuro de uma Ilusão” continua sendo o melhor livro sobre a necessidade religiosa do ser humano, remontando sua origem no medo do vazio, na sobreposição e imitação da sociedade patriarcal.

“O Mal Estar da Civilização” trata das forças da morte, da vida e do sexo pulsando no ser humano e levando-nos aos atos mais sublimes das Artes e aos mais abjetos da violência. Em “Psicologia das massas e análise do eu”, Freud aborda a identidade individual sendo moldada pela sociedade, o poder da propaganda no inconsciente das massas  e o poder da multidão no comportamento do indivíduo. Por fim, Compendio da Psicanálise, obra incompleta de Freud, traz um resumo de todo o seu pensamento e conceitos chaves.

O blog aborda Freud repetidamente e muitos posts podem ser encontrados aqui sobre sua vida e suas idéias.

 

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Nicolau Maquiavel:

obra: O Principe

Considerado o primeiro livro do ocidente escrito sobre a política real e seus artífices, sem sublimações de um mundo utópico ou de um dever-ser tão em voga na República de Platão ou na Utopia de Thomas Morus.

O livro aborda o mundo politico e o poder sem qualquer sentimento de moral religiosa. Sua preocupação única é explicar os jogos da força política e como atingir e manter o poder. Trata-se do livro inaugural da ciência política moderna. Também é uma fonte de estudo da moral consequencialista pragmática

Já abordamos Maquiavel e sua real politik neste documentário  e também neste post com seus aforismos.

 

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Marco Aurélio:

obra: Meditações

O Imperador romano Marco Aurélio também era um homem de livros e escreveu um tratado com um resumo sobre as principais idéias e pensamentos da escola estóica (abordado em detalhes neste post  em sua ligação com outro estóico, Sêneca).

Seus pensamentos retratam um panorama de reflexões sobre a  moral, o senso de dever, a busca pelo autoconhecimento e a necessidade de retidão de caráter. 

São máximas e aforismos para a aplicação prática, no dia a dia dos indivíduos.

 

 

senecaSêneca:

obras: Da tranquilidade da alma, Sobre a brevidade da vida, A Vida retirada

Suas epístolas são reflexões sobre a vida, o papel do homem na construção de sua própria felicidade ou de suas amarguras, a necessidade de autocontrole e da criação de resiliência para ultrapassar as dificuldades que a vida nos impõe de inopino.

Sêneca foi um representante da escola estóica e sua preocupação era com viver do homem digno, reto e cumpridor dos seus deveres com a familia e com a sociedade. Tratava da busca individual da felicidade mas inserida em uma vida pautada pela honra.

O pensamento e a vida de Sêneca já foi tratado pelo blog neste documentário e as linhas do pensamento estóico elaboradas neste post.

 

 

 

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Sócrates e Platão

obras: A República, Apologia de Sócrates, Fredo, Fédon, O Banquete

Sócrates foi condenado pelo Tribunal de Atenas e não deixou nada escrito. Todos os seus ensinamentos e reflexões nos chegaram pela pena de Platão, seu mais famoso discípulo.

Assim, quando lemos as obras platônicas temos contato com o pensamento socrático após o filtro da análise de Platão, feito ao longo de décadas de aulas e reflexões. Assim, é um tanto tormentoso saber o que é o pensamento original socrático e o que já vem das reflexões de Platão, que escreveu até a velhice.

Platão escreveu suas obras basicamente no formato de longos diálogos. São obras seminais sobre a estruturação do estado, da discussão sobre justiça, sobre ética e moral e mesmo sobre os destinos da alma.

Normalmente os diálogos apresentam o filósofo Sócrates em debate discutindo conceitos e desconstruindo as idéias preconcebidas de seus interlocutores. Em sua maioria, os diálogos terminam sem uma conclusão sobre o tema. O estilo pouco usual para os dias modernos exige paciência e treino para avançar pelos diálogos e aceitar que o final da conversa é normalmente  chegar-se à conclusão de que a dúvida é efetivamente a única postura válida e que todos os conceitos anteriores são falsos ou incompletos. 

SOCRATES FRASE

É de leitura mandatória, independentemente de como o leitor se posiciona sobre as reflexões socráticas que direcionam o estado para o controle da cultura, da censura e do totalitarismo; ou sobre o método socrático de destruição de certezas sem estruturar qualquer novo raciocínio em seu lugar ou ainda sobre suas divagações entre a oposição entre o mundo das idéias e o mundo dos fatos. 

Todas as discussões filosóficas, morais ou sobre a estruturação do estado, começam a se estruturar em sua forma moderna nas palavras de Sócrates.

Não à toa, sua vida divide a história da filosofia em pré e pós-socrática, sendo que milhares e milhares e milhares de páginas foram escritas após sua vida para difundir, ampliar, rebater, estigmatizar, refutar ou glorificar suas idéias. O filósofo Alfred North Whitehead, com um pouco de exagero e uma pitada de verdade, disse uma vez que “toda a história da filosofia ocidental, resume-se a uma série de notas de rodapé à obra de Platão”

Já tratamos anteriormente posts sobre o contexto político que envolveu a morte de Sócrates, as raízes do estado totalitário encontrado em Platão , explicações sobre o mito da caverna e o princípio da autoconfiança socrática.

 

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Zygmunt Bauman:

obras: Modernidade Liquida, Vida para Consumo, Identidade, O mal estar da pós-modernidade

Bauman é sinônimo da sociologia do fim do sec XX e inicio do sec XXI, com uma imensa quantidade de livros publicados que abordam quase todos os matizes das ansiedades e esperanças da vida moderna em sociedade.

Ele possui uma imensa quantidade de livros publicados e os indicados acima são um recorte pessoal.  Seus livros tratam desde a busca por identidade em meio a conflitos étnicos até o consumismo desenfreado, a sociedade de espetáculo que se estupidifica cada vez mais aceleradamente e o individualismo crônico que nos domina.

O autor também foi abordado em outras postagens do blog com entrevistas e resumo de suas obras.  

 

JungCarl Jung

obra: O Homem e seus Símbolos

Discípulo prodígio de Freud, Jung rompeu com o mestre e criou a primeira escola independente dos pensamentos freudianos.

Tornando-se o maior crítico da linha de análise freudiana, Jung  possuía um entendimento completamente distinto de Freud em relação ao inconsciente e sua força sobre a psiquê, o papel dos sonhos, dos traumas e dos desejos.

O livro indicado é um verdadeiro resumo escrito por Jung e seus discípulos sobre sua linha de interpretação. A originalidade do pensamento Junguiano e sua oposição à linha Freudiana já foram tratados em passagens anteriores do Blog aos quais remetemos o leitor. 

 

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obras: Pensamentos, Carta sobre a felicidade

Epicuro de Samos foi um filósofo do período helenístico que defendia os prazeres da vida.

Ao contrário do hedonismo irrefletido que hoje associamos ao vocábulo “prazer”, para Epicuro os prazeres a serem perseguidos eram os valores da amizade verdadeira, da vida simples e sem excessos de consumo, aversão à ostentação, necessidade de possuir uma vida consciente e refletida, realizando uma análise pessoal dos nossos atos e defeitos, visando sempre  o comedimento e o controle das paixões.  

Prazer, portanto, era a ausência de dor e a impertubabilidade da alma. Dessa forma, foram bastante injustos os ataques de hedonismo que a escola estóica fazia ao pensamento epicurista. 

Epicuro escreveu muito, mas poucos textos sobreviveram ao tempo existindo algumas coleções com seus adágios e trechos de cartas. São normas de conduta para a vida prática e para a paz de espírito.

Um documentário sobre seus pensamentos pode ser visto aqui.

 

 

Em breve posto a parte 2 com dicas de Kant, Marx e Sartre

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6 comentários em “Depois dos manuais: Filosofia, Psicologia e Sociologia para curiosos e iniciantes – parte 1

    1. Verdade. Estou devendo uma parte dois há muito tempo. Fico feliz pela lembrança.

      Fiz várias resenhas de livros de filosofia e sociologia pelo blog nos últimos anos. Se você procurar pela tag “resenha” terá acesso a todos.

      Abraço

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    1. Olá David,

      Acho que começar com a bibliografia de Platão já está maravilhoso! Outros autores e pensadores vão chegando com o tempo. Nem sempre tive boa recepção nas minhas primeiras leituras de alguns autores. Anos depois ao reler, eles entregaram seus mistérios. Tudo a seu tempo.

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