Crônicas e Afins: Minha amada em silêncio (que um dia você leia essa carta)


NjAiLCJmIjoianBnIn0;Ela sempre foi uma especialista em silêncios. Mesmo nos anos quando a proximidade era do toque da pele de um roçando na pele do outro, ela sempre se mantinha em longos silêncios para que eu a decifrasse. Agora, que a distância entre nós é a mesma das almas separadas em vida, com mais razão.

Não há hipótese de uma mensagem dela aparecer no meu celular ou em caixa postal. Eu sei. Já coloquei chumbo no coração para aguentar a verdade e as consequências dos meus atos.  Especialista em silêncios. E não foi por falta de avisos. Ela deixou claro que me mataria em vida quando necessário. E acredito que morto estou nos sentimentos dela desde então.

Todos os  dias eu penso em escrever. Todos os dias. E todas as noites eu penso em ligar. Todas as noites. Ou em tocar aquela campainha e mandar que ela prepare as malas. É duro fingir que não desejo vê-la. É irreal essa indiferença. Tudo falso. Lembrei sim do aniversário (comprei inclusive um presente). O meu silêncio é apenas respeito para não sangrá-la mais, não aumentar sua vergonha na frente de sua família. Eu sei que ela me quer longe. Que me acha tóxico. E eu sou mesmo. Fui um atraso em sua vida, como ela bem disse.

Tantas vezes ela me perguntou por que eu continuava lá. Por que insistia naquele relacionamento. Ela pediu para que eu fosse embora inúmeras vezes. Disse com todas as letras que ela não tinha forças para fazê-lo. E me perguntava: por que?

Por fim, entreguei o que ela pedia. No meio de mais uma briga. De mais choros. De novas cobranças. Fiz o que ela pedia. Retirei-me. Da última mensagem que ela me enviou constava apenas uma palavra: “obrigada”. Nem assinatura.

Não existe um único dia em que não quero notícias, que não pense em ligar. Todos os dias eu sinto falta do calor do seu corpo.  Mas sempre volto ao “obrigada”, sem assinatura.  

Sinto falta de sua voz. De sua gargalhada. Da sua companhia nas bebidinhas. Do corte de cabelo que a deixou ainda mais bonita (se isso é possível). Da amizade. Do amor que transbordava. Do desejo flamejante. Dos beijos. Dos abraços. Do seu corpo nu. Das conversas que se emendavam. Até do choro e das cobranças. Sinto falta das saídas de pizza e cinema com as crianças.

Sinto falta de tudo.

Não há porque fingir que não espero que essas palavras um dia cheguem a quem de direito: – Sinto falta de tudo em você.

Sei o mal que te fiz. E que você deve estar melhor hoje (talvez com alguém mais correto). Sua última mensagem foi um agradecimento pela minha retirada.  Sem assinatura; acredito que você quis que eu nem lesse mais o seu nome.  

Acabaram-se as brigas. Mas eu sinto tua falta, inclusive nisso. Se no fim era tudo o que eu tinha.

Hoje só temos silêncios.

Esse monstro cego que porta apenas o mais irreconciliável de todos os conflitos.

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Crônica “Minha amada em silêncio”, Manuel Sanchez  

Be-Around

E se você quiser ler outras crônicas e cartas desse que vos escreve, clique neste link e não deixe de enviar seus comentários.

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

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