Crônicas e Afins: O último carnaval


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Recebo a notícia voltando para casa, preso no trânsito, respirando o ar condicionado que me distância do cheiro dos escapamentos. Mais um parente morreu. A mensagem é curta. Um dos nossos. O sepultamento será a mais de 500 km de distância. Na mesma cidade em que enterrei minha mãe. Nunca mais pisei naquele local.

O avançar lento dos carros na rodovia me prende em memórias e alguns remorsos. Essa teia. Essa rede. Esse poço.

No dia seguinte à morte de minha mãe, coloquei toda a família no meu carro e segui centenas de quilômetros para o sepultamento, que seria feito na cidade de origem da família. Local de criação e descanso de tantos. Sempre gostei daquela cidade. Lembrava férias de infância. Lembrava minha avó. Minhas primas. A praça, a igreja e corridas de bicicleta. Curtos momentos em que eu via todos reunidos. Mas agora os corpos iam se acumulando. Seguindo para o enterro de minha mãe, somava mais um. Um dos nossos. Mas esse “mais um” era o único que me importava. Sensação de sufocamento. Essa teia. Essa rede. Esse poço.

Eu sentia carinho por todos. Mas “Família” para mim era ela. Eu tinha minha família dentro do carro indo por uma estrada esburacada. Mas eu sentia que ia sozinho.

O caminho foi longo. Estrada ruim. Memórias demais. Dor recente. Conversamos pouco. Eu me preocupava com meu pai no banco de trás, ainda aéreo, tomando seus remédios. Meu irmão era uma incógnita. Pareceu tão distante durante toda a doença e agora, calado, era um ponto de interrogação.

E eu fui mastigando minha culpa. A decisão foi minha. Uma teia. Uma rede. Um poço.  

Havia sido uma descida longa e penosa. Peregrinação por médicos. Exames. Cirurgias. Dores. Muito choro. Eu a acompanhei em cada médico. Tomamos as decisões juntos: eu e ela. E que deus me perdoe se tomei as decisões erradas.

A cada dia ela ia perdendo a esperança, entrando em um caminho de angústia. Uma teia. Uma rede. Um poço. A alegria diminuía. O olhar dela não tinha medo. Mas havia uma saudade antecipada. Uma despedida diária. O sorriso rareava. Havia uma espada ao nosso lado. De samurai.

Tivemos tempo para nossas conversas. O carinho foi exposto até o nervo. Lamentei não ter feito isso em outra circunstância. Eu poderia – deveria – ter feito isso antes. Muitos anos antes.   

Talvez ela tivesse metade do peso que já teve. Metade da alegria também. O cabelo não estava mais lá. Isso agredia sua vaidade. O rosto ficou pontudo pelos ossos que se lançavam pela pele. Por dentro, tantos pedaços ruins já tinham sido arrancados. Mas a espada insistia em voltar. Ela lutava por potência. Como um samurai lutando contra um exército. Um samurai que batalhava agarrado aos últimos suspiros de vida contra as trevas. Uma porta-bandeira que lutava por um último carnaval antes de entrar no silêncio.  

Tentaram tudo. Eu sei. Mas no fim ficou uma casca. Deitada sobre uma cama. Unida por tubos a uma máquina. Ela não estava mais ali. Havia ido embora. Tudo o que ela era: todo o carinho, afeto, sabedoria, curiosidade, simplicidade, luta, dança, pintura. Todas as brigas e intransigências também. Haviam se retirado. Minha porta-bandeira não era mais.  

despedidaE no fim, a decisão foi minha. Libertem-na dos tubos.

Deveria ter sido uma descida lenta de quatro ou cinco dias. Dado tempo para as despedidas. Mas foi vertiginoso. Naquela mesma noite, cessou a dança. Veio o silêncio.

Senti culpa. Senti remorso. Tristeza inexprimível em palavras. Eu tinha pai, irmão, tias, primas… mas minha família morreu ali. As trevas me envolveram. Uma teia. Uma rede. Um poço.

Olhando seu corpo eu imaginei se era o fim. Haveria os que falariam em ressurreição. Reencarnação. Volta ao Todo. Outros aceitavam o silêncio.        

Fiz a viagem de centenas de quilômetros para sepultar seu corpo. Minha família no meu carro. Enterrei seu corpo em uma cidade que antes só me remetia à alegria. Desde então não gosto nem de pronunciar o nome. Nunca mais pisei naquela cidade.

Enterrei uma casca. Ela não estava ali.

De minha mãe ficaram memórias amorosas. Carinho imenso. Dedicação. Discussões. Pazes. Paciência. Aprendizado. Agradecimento.  O carnaval e as danças. O gosto pela pintura. Uma curiosidade pelo mundo. Um gosto pelo céu e por sua cor azul celeste.

Uma teia de afetos. Uma rede de alegrias. Um poço de amor sem fim nessa vida.  

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De Manuel Sanchez, “O último carnaval”

leia também “A porta-bandeira”

 

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