Crônicas e Afins: O Mundo como espelho


reflexos

O Mundo Como Espelho

(Manuel Sanchez)

 

 

Em um mundo vasto, com uma realidade tão estranha que se emaranha em matemáticas quânticas de difícil compreensão, é difícil afirmar aquilo que é. De forma peremptória. Definitiva. Um universo infinito. Uma vida da qual não se sabe a origem e que pode estar semeada em tantos locais como as estrelas são visíveis.

Existem aqueles que dirão que há uma essência, uma realidade atingível pela transcendência. Uma idéia imortal, alma e karma. Outros afirmarão que um pensamento racional e consciente descortinará a ilusão e nos mostrará a realidade. Uma imanência definitiva. O mundo que é. A realidade concreta.

Não me filio a nenhum desses grupos.

Se a consciência é apenas uma parte ínfima e pouco perene de uma infinidade de estímulos que transpassam nossa psique, se nossos sentidos são limitados e não nos mostram (nem de perto) todas as energias e forças nas quais estamos mergulhados nesse universo, se a tal transcendência (da qual me afasto) não é nada objetiva e necessita de experiências inverificáveis de indivíduo para indivíduo; torna-se impossível afirmar aquilo que o mundo é de forma definitiva e firme como apregoam os ortodoxos.

Acredito que temos apenas um recorte. Uma fração separada por nossos sentidos e por nossa psique, mais inconsciente do que consciente. Movida mais por afetos do que pela razão.  E nesse recorte que fazemos do mundo, o olhamos não como ele é. Mas provavelmente como nós somos – ou desejamos ser. E se estudarmos bem o recorte que fazemos da realidade, entenderemos mais a nós mesmos – e não o mundo, essa noção falha e fugidia.

O mundo é tal qual um espelho. E nele nos moldamos, nos reconhecemos, aprendemos quais são os nossos prazeres, entendemos nossas repulsas, acatamos, nos omitimos ou lutamos. De acordo com nossa visão, com nossas escolhas, com nossas filiações. O mundo agradável para um é tão hostil para o outro. O pecado de um grupo é tão simplório para outro. Mundos diferentes. Espelhos diferentes.

Se a maior meta é tornar-te quem tu és, se o que sei é que nada sei como um trampolim para conhecer-me a mim mesmo; então só mesmo encarando o mundo e esmiuçando a imagem que ele reflete. Mas aceitando que a visão é de monóculo, de recorte. E que cada visão é uma escolha. E que a escolha é moldada em grande parte por quem nós somos. Por afetos e dinâmicas inconscientes em nosso corpo. Que ao olharmos o mundo e selecionarmos nosso foco e nosso recorte, teremos mais pistas sobre nós próprios do que sobre o mundo. Porque o mundo é vasto, inapreensível em sua multiplicidade. Mas nós somos conhecíveis, alcançáveis, perfectíveis através do trabalho que começa primeiro com o recorte.

Se viver é escolher (mesmo na omissão), então é o ato de pegar ou largar, lutar ou ceder, fugir ou encarar, que revela quem somos. Revela para o mundo, para os outros e revela para nós mesmos, já que na maior parte da vida somos desconhecidos para nós próprios.  

Talvez o mundo seja apenas isso: um espelho. E nossa tarefa apenas essa: entender o reflexo. Verificar no recorte do mundo e na imagem do espelho o que alegra, enraivece, seduz, entristece ou acalanta de acordo unicamente com o que somos. E traduzir essas emoções disparadas no inconsciente seja nossa forma de olhar nesse espelho e entender.

Entender a imagem que aparece. A imagem de quem nós somos.

Torna-te quem tu és.

Olhe no espelho. E não desvie o olhar.     

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