Explicando os conceitos – Nietzsche : a morte de Deus 


Explicando os conceitos: Deus está morto

Uma passagem famosa e mal compreendida do filósofo Nietzsche refere-se à morte de Deus. O trecho reproduzido a seguir traz esse trecho de imensa beleza literária e profundo impacto filosófico e existencial. 

Para Nietzsche, Deus é a maior muleta inventada pelo homem. O homem que teme a vida que ocorre agora – neste instante – estando sempre jogando seus sonhos, anseios e esperanças para um futuro longínquo ou mesmo para outra vida, além do túmulo. Nietzsche desconfia de toda e qualquer ideologia, religião ou guru que traga respostas prontas, verdades absolutas, revelações transcendentes. Pouco importa se estamos de fato falando de religiões  ou de ideologias laicas para o filósofo, ele chama de “Deus” a idéia de que alguma outra coisa, energia, grupo ou entidade virá resolver nossos problemas – nesta ou em outra vida.

O verdadeiro homem – o super-homem nietzschiano – é alguém que abandona as muletas. Nega a transcendência. Afasta-se dos gurus. Dá as costas para as verdades absolutas. Não se filia a ideologias que lhe tragam as explicações do mundo empacotadas e com respostas prontas. Esse homem que não precisa mais de muletas e desconfia de tudo aquilo que nega a vida – a vida aqui, agora, completamente plena neste instante que vivemos hoje – não precisa mais de um deus. Nietzsche defendia que deveríamos nos transformar em super-homens. Para então, podermos afirmar que não precisamos mais de muletas. Deus está morto.       

(Manuel Sanchez)

 

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A Morte de Deus (Nietzsche)

O homem Louco. 

– Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? 

– E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós os matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!”

 Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. 

Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – 

Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.

Aforismo 125 – Friederich Nietzsche – Gaia Ciência

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