Crônicas e Afins: Fraturas na Parede


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Fraturas na Parede 

(Manuel Sanchez)

 

Entre os lençóis, depois do gozo, emendamos em conversas variadas. Conversas mais nuas que nossos corpos. É o momento em que estou mais leve, sem escudos, quando as palavras não são medidas ou maquiadas. Com as forças todas gastas após o galope, sou um rancheiro querendo um canto para descansar. Ela me pergunta sobre o que faremos no fim de semana. O filme novo que estreou com aquele ator que ela tanto gosta. Um filme bobo. Adoro livros complexos e filmes tolos. Respondo que faço tudo o que ela quiser. Ela arranca qualquer coisa de mim nas horas em que me deixa satisfeito. Ela sabe disso. Depois ela traz o meu whiskey. Com gelo. Três pedras para diluir. Qualquer coisa. Sou um homem fácil de agradar.  

Por um curto momento eu acho que finalmente venci. Mas após esse instante de silêncio armado na felicidade imanente do corpo, ela me pergunta se eu vou magoá-la novamente. A pergunta é simples, sem brigas, tom sereno. Uma longa história se coloca entre nós. A pergunta nos transcende. Ferro e fogo. Feridas e feras. E os escudos se erguem.

Eu sorrio e beijo suas mãos. Não respondo e tento ganhar tempo. O gelo no copo estoura. O gole desce. Percebo seu olhar machucado, as curvas atraentes, a boca macia, o ego sem máscara. Ela me ama. O absurdo é que ela realmente me ama. Sem explicações ou lógica.

E ela insiste. Disse que aguentaria tudo. Que estava pronta para seguir o caminho que fosse comigo. Mas dessa vez – dessa vez – não poderíamos cair nesse eterno retorno demoníaco que nos juntava e arremessava para o canto. Ela estava cansada de tantas frustrações. Coração espancado com medo de sair da trincheira. Era subir a montanha ou se jogar no precipício, ela disse; mas hoje eu vejo que as duas hipóteses são exatamente as mesmas. Dar as mãos em compromisso.

Termino meu whiskey. Deito ela novamente na cama e puxo seu corpo com força. Por alguns minutos eu tiro a pergunta da sua cabeça e coloco outro gozo em seu corpo. Ela conhece esse truque. Reclama mas se entrega.  

Horas depois nos despedimos em frente à sua casa com esperança em suspenso. Trincheira cavada. Ela sai do meu carro e entra na sua residência sem olhar em minha direção.

Desde então não a vi. Ela se transformou em silêncio.  

Acho que a magoei mais uma vez.

Entendemos a resposta: Foi o precipício.      

pierre-bonnard-siesta

quadros de Pierre Bonnard

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