Crônicas e Afins: Esgrima sob a chuva


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Esgrima sob a chuva

(Manuel Sanchez)

 

As gotas grossas da chuva caem no para-brisas enquanto os carros estão todos estacionados em um longo engarrafamento. A noite cai, mas ninguém olha as estrelas. Em suas bolhas automotivas e na pressão dos coletivos, as pessoas vivem seus tormentos e frustrações, pensando sempre que depois, amanhã, com outro amor, em outro emprego ou mesmo no pós  vida, aí sim conseguirão ser felizes. Afugentam o hoje, diminuem o agora. Queria tragar um cigarro, mas a chuva não permite nem que eu abra uma janela.  Através das inúmeras janelas dos coletivos e casas ao longo da rodovia, cada um olha ou cega a paisagem que deseja. Indivíduos que preferem a escravidão da calha à liberdade de criação de si próprios. No rádio, notícias editadas, segmentadas e selecionadas pelos olhos de quem reporta o mundo. Um mundo extenso, dinâmico, em fluxo, que não cessa nunca. Sinto falta do meu cigarro. Respiro fundo imaginando que essa vida pode ser o Inferno de outros planetas, de onde almas repetentes são arremessadas para purgar. Almas que acreditam em verdades eternas, transcendências inexplicáveis, saltos de fé. Tiranos das próprias vidas.   

Ao meu lado, meu carona lê pelo smartphone uma das minhas crônicas e depois dispara o que devia silenciar.

– Você só tem um assunto: você.

No rádio, notícias editadas pelos olhos de quem reporta.

– Não. Eu só tenho um assunto: o mundo como eu o vejo. – respondo. 

Através das janelas, cada um olha ou cega a paisagem que deseja.

– Explica. – ele exige.

Respiro fundo imaginando que essa vida pode ser o Inferno de outros planetas. Sinto falta de um cigarro.

A realidade é vasta e inapreensível. Longa demais para nossa noção de tempo. Curta demais para todos os nossos desejos. Energias, cores, percepções que nos escapam e que nos fariam olhar o mundo de outras formas, caso possuíssemos os sentidos. Assim, só existe a possibilidade do recorte. O que vejo, o que sinto, penso, valoro e mesmo onde atuo ou me omito: recortes. Não posso falar do mundo como é. Apenas do mundo que me parece. O mundo é um espelho.

Não. O carona ri. Você não vê que existe o certo? Que existe uma verdade? – ele pergunta extasiado pela minha ignorância.

E onde ela está?

– Cada um acha seu caminho, ele diz. Mas todas as trilhas levam sempre nessa verdade. Na razão. Na fé. Na tradição. Na Justiça. Trilhas diferentes. Um mesmo objetivo. Atingir a essência que todos nós já temos.

Almas que acreditam em verdades eternas, transcendências inexplicáveis, saltos de fé. Ao meu lado no carro, carregava uma delas em nosso estacionamento diário na volta para casa.

Não acredito em transcendências. Nem em essências – tento explicar, enquanto meu amigo balançava a cabeça, já surdo pelo que não gosta –  O que temos é o que vemos. Esse trânsito. Essa chuva. O amigo ao lado. O caminho para casa. Chegar em casa. Viver com quem escolhemos, da forma que nos é dada e tirar disso a maior felicidade possível. A força existe nesse minuto. O futuro é refúgio dos impotentes.  

Meu carona transtornou-se em ira. Inaceitável. Inaceitável. Nessa vida pobre, sem luxo, sem força, abaixando a cabeça? Impossível. Inaceitável. Se não existir o amanhã, a salvação, uma verdade que nos libertará…o mundo passa a ser impossível! Intragável! E se o que temos é apenas o que vemos… tudo deixa de fazer sentido. E quando nada faz sentido, tudo é válido! Sem moral, sem certo, sem verdade. Meu amigo começou a me acusar de defender uma idéia torta, imoral.     

Em suas bolhas automotivas e na pressão dos coletivos, as pessoas vivem seus tormentos e frustrações, pensando sempre que depois, amanhã, com outro amor, em outro emprego ou em outra vida, aí sim conseguirão ser felizes.

Mas a felicidade é agora. A vida é já. Só o minuto presente existe. O resto é memória ou esperança. Memória é como uma virgem que já deixou de ser. E a esperança é uma senhora inexistente, casta e impotente. Inexistente porque se estivesse aqui não precisaria aguardar. Casta porque não goza; já que não se goza o que não se tem. E impotente porque se pudesse fazer o faria; não esperava.

Gotas grossas de chuva caiam no para-brisas quando um dilúvio de incompreensão se apossou do meu carona. E sua essência? E a condição humana? E os desígnios da Providência? E seu destino? Meu amigo ficava vermelho, veias do pescoço saltando. Tivesse lhe dado um tapa no rosto e uma cusparada, talvez estaria mais cômodo. Ofendido pela contrariedade.   

Nada, respondo. Não existe essência. Não aceito o destino. Nem condição prévia. Providência? Nunca vi. Uma muleta para amparar o medo.

O que temos ao nascer é uma página em branco. Valores que construímos para nós e para todos. Um jarro vazio que é enchido e carregado para lá e para cá por amigos, família, condição econômica, colégio, trabalho, sociedade, sexo, propaganda, pressão, preconceito, traumas, mortes, absurdos, injustiças… uma polifonia de valores, ruídos, idéias e concepções que preexistem a todos nós e que já entram em nossas mentes antes mesmo das primeiras palavras.

Primeiro vem a sociedade, depois o indivíduo. Primeiro elabora-se a opinião pública para depois formar a opinião individual.  E você, se quiser – depois que se fizer como gente –  que tenha forças, casca grossa e peito largo para traçar seu próprio caminho. Ou que se omita – o que também é escolha – e abaixe a cabeça para o papel que caiu na sua calha. Indivíduos que preferem o roteiro certo à liberdade de criação de si próprios.

Temos a vida inteira para nos inventar. E o peso de toda essa liberdade assusta alguns, incomoda outros, ofende vários. Esses preferem viver em um mundo de regras, proibições e castrações. Nada contra se decidirem atuar apenas em si. Mas eles tentarão sempre impor seus medos a você. Saiba disso. O mundo sempre tentará te dissuadir.  As pessoas irão te usar, pisar, magoar, doutrinar, trair, ferir, lisonjear, intimidar, amar, desejar, surrar, enganar, prometer, mentir, roubar… muitas coisas farão ainda contigo. É do mundo. A experiência humana é vasta em estupidez, ódio e controle. Saiba, sempre haverá um tirano para calar seu desejo ou sua voz. Gente que quer o mundo estabelecido em tabela, dez mandamentos, cinquenta que sejam…. Gente covarde que não quer pensar e que tem medo da própria liberdade. Pior, querem lhe negar a sua também. 

A chuva passou.

Deixei meu amigo em casa. Ofendido e irresignado. Ele se despediu com monossílabos e entrou. Depois desse dia, nunca mais quis vir comigo de carona.

Estranhamente o céu noturno abriu, reparei. Havia estrelas e uma lua crescente. Mas as pessoas que chegavam em suas casas vinham apressadas e ansiosas.

A noite cai, mas ninguém olha as estrelas.

Às vezes, sinto que estou olhando sozinho para o céu da noite. No meio de pessoas apressadas e ansiosas. Almas repetentes que se expressam em monossílabos.  Uma triste impressão de que reparo em coisas que ninguém liga; valorizo condutas que ninguém faz. Talvez eu esteja mesmo no inferno de algum outro planeta.   

Mas algo me diz que deve haver mais de nós por esses caminhos. O mundo é fluxo e dinâmico. Acredito que nós vamos nos esbarrar qualquer dia e os olhos se reconhecerão. Estenderei a mão para você. Não seja tímido nesse momento e converse comigo. A riqueza da vida é o encontro.   

Escrevo o mundo como vejo, saindo da minha calha. Escrevo para preencher minhas páginas em branco, para esvaziar o jarro das besteiras e covardias que colocaram dentro dele – pois agora, o conteúdo do jarro é meu. Escrevo porque o coração pesa. Escrevo porque tenho saudades. Escrevo para entender o meu recorte.

Escrevo porque tenho esse demônio arranhando meu peito e que exige se olhar no espelho. Escrevo porque preciso do meu whiskey e os tiranos dizem que é doença. Escrevo porque tem um bárbaro com machado de mão dupla destruindo a paz dos meus pensamentos me enchendo com tentações. Escrevo porque saí da calha mas não me deram um mapa.    

Depois de todo o trânsito, chego em casa.

Minha mulher ainda demora um pouco para chegar do trabalho. Eu a recebo com meu abraço. Minha escolha, minha liberdade. Nossos olhos se reconhecem. Ela não é tímida e conversa comigo e com meu coração arranhado. Ela acalma meus demônios. Ela entende o meu bárbaro e seu machado. As páginas mais afetuosas do meu livro. A água pura com a qual preencho meu jarro.

A vida é hoje. 

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

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