Crônicas e Afins : O Coringa também ama 


Eu penso nela o tempo inteiro. Todo dia. Não tenho nenhuma pretensão de fingir que superei coisa alguma. E o tempo agora é uma coisa que se soma nos meus anos e lustra as lembranças do que compartilhamos. De forma impiedosa vejo agora que envelheci de maneira sórdida.

Sinto falta do sorriso dela. Sinto falta das conversas longas. Do jeito de menina querendo dono. O apoio constante. Cumplicidade. Carinho. Sei que o meu melhor lado tateava o Sol na presença dela. Ouvindo  música. Cuidando de suas crianças que amei como se fossem minhas.

E ela conhecia sem hipocrisia minhas sombras. Minhas mentiras que tanto formaram o chão de nosso relacionamento. Suportou as agressões constantes da ausência. Me protegeu de muitos ataques merecidos. Pecou comigo. Aguardou e se guardou, mas com ameaças nem sempre veladas de que iria embora. E ela foi embora. E eu  fui buscá-la. Brigamos muito. E descobri que  para me ferir ela não se guardou. Nunca perdoei. Brigamos mais.

Ela exigia de mim  a perfeição. Perfeição que eu não conheço. Não bastava o afeto íntimo. Ela exigia a foto pública. Não bastava o cuidado, tinha que haver presença. Forçamos tanto o jogo que o blefe caiu. Ficamos sem nada. Implodimos.

Poderia ter feito diferente. Talvez. Não saberei nunca. Talvez estivéssemos hoje vivos e felizes juntos com nossa relação complicada. Havia sol, carinho, afeto, cuidado e gozo. 

Mas ela queria o simples. Ela queria a presença. Isso importava mais que o afeto.

Será que todos os casais que estão agora públicos e presentes estão felizes? Será que estão cercados de todo o carinho e cuidado com pequenas criaturinhas que não são nem suas? Será que todo  casal realizado no reino da verdade se ama com paixão? Agora que ela conseguiu  o que queria estará satisfeita e plena?

Existem muitos acertos e muitos erros. Egoísmo entrelaçado suavemente  com amor e cuidado. Mentiras contadas para viver relações de afeto sincero. 

Relações de amor deveriam mas nem sempre são simples. Poderiam mas nem sempre são públicas. Existem afetos que são complexos. E sobretudo íntimos. Mas são tão verdadeiros quanto o sol que nos rege.

Mesmo em uma casa feliz podem existir algumas paredes das quais não gostamos. Cuidado. Nunca sabemos qual dos nossos defeitos sustenta o edifício das nossas qualidades. Derrubar uma parede a golpes de marreta pode fazer ruir o prédio inteiro.

E de que nos servem os escombros?

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Crônica  “O Coringa também ama”   de Manuel Sanchez 


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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

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