Crônicas e Afins: “O Viajante”


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Provavelmente eu estava meio bêbado naquela noite. Acabava de voltar de uma noitada com os amigos. E bebida era algo que ainda era novo. E que só fazia mal. Mas lembro da visita daquele sujeito.

A beleza do prêmio desejado é sempre maior quanto mais distantes estivermos socialmente do alvo pretendido. Na tangibilidade do objeto, você só vai descobrir mentira e ilusão. E se pensar em incrementá-lo, o comércio da sua melhor parte será apenas mais um ato de crueldade consigo.  

Quando ouvi essa frase, ela me pareceu a coisa mais sem sentido proferida por qualquer ser vivente. E a pessoa que disse – mas foi em um passo de mágica – transformou-se em qualquer coisa burra ou paquidérmica aos meus olhos. Olhos que miravam um objetivo bem distante para o garoto suburbano e duro, de família do interior, sem qualquer tipo de experiência, obtuso por falta de parâmetros, socialmente inadequado para tudo que pretendia.

Minha cabeça girava ainda por força da cerveja. E cerveja misturada com aquelas bolinhas do papelote. Como tudo girava. Mas respondi que não concordava. Mas disse sem nem mesmo pensar. Mas não concordava. E meus palpites começaram a me parecer meio proféticos depois de uma certa idade. Minhas respostas não eram apenas rápidas; eram peremptórias também. Definitivas.   

vidro-do-uísque-e-do-charuto-25835101E o sujeito barbudo me olhou com pena. Bateu o charuto deixando as  cinzas caírem no chão e tomou mais um gole de whiskey do seu copo de base circular. De onde saiu aquele whiskey? Eu pensei e só lembrava da cerveja: uma descoberta recente em minha adolescência. E tomar cerveja me deixava ainda mais assertivo. Mas às vezes eu dava uma viajada. E era cerveja Pilsen. – Muito aguada, disse o barbudo: – Pegue uma de trigo pelo menos, você vai gostar e nos poupar de muita coisa ruim. (E aqui o leitor deve ter percebido que o cara era chato e minha impaciência com sua presença crescia).

Fiz uma anotação mental. Nunca mais misturar cerveja com aquelas bolinhas. Como era mesmo o nome?… E de onde veio esse cara na minha frente?   

Mas ele não pareceu se importar com minha impaciência. Na verdade, olhou para mim rindo de alguma careta e continuou. Falou da  inadequação, do desejo de exibir os símbolos do mundo, tão típico de quem foi criado sem eles, uma espécie de recalque de despossuído. Psicanálise explica. Sonho de que a vida será boa quando sair do quadrado limitante que foi sua linha de partida.

Ridículo, eu disse. O que esse cara poderia saber? Eu queria tudo. Queria faculdade e título. Queria dinheiro, conforto e viagem. E carro do ano. E dar aula. Não queria usar macacão. Queria terno e gravata. E viver de uma forma que fosse diferente daquela que vivia minha família. Queria outra coisa. Queria outro lugar. Queria apartamento com vista para o mar. Queria rodar o mundo. Queria ver as pirâmides e mergulhar no Caribe. E quando chegasse lá, aí então a vida seria boa. A vida que eu pretendia seria boa quando todos os prêmios tão distantes socialmente estivessem no meu bolso.       

Uma baforada longa do charuto fez o barbudo vaticinar. Esse cara estava fumando no meu quarto? Minha mãe vai me matar, eu pensei. E ele continuou. Cada item do plano. Cada peça do lego. Tudo aquilo que eu sonhava na falta e que na falta eu desejava. Por todos esses desejos eu iria lutar. E talvez recebesse o maior dos golpes: iria conseguir.

E nesse momento, meus ouvidos adolescentes e bêbados até gostaram da voz do barbudo fumante com pinta de doido. Mas definitivamente, nunca mais…nunca mais eu quero aquelas bolinhas misturadas…

Mas ele não parou. Disse ele. Então eu perceberia que a beleza do prêmio só existia quando eu estava longe do ponto pretendido. Que a peça desejada e conquistada não seria de ouro. Seria feita de pó. E o cargo só me colocaria em contato com pessoas vazias, deslumbradas com seus feudos em sua ridícula arrogância de poder, em um trabalho que vislumbraria tantas crueldades, espalhando tecnicidades, chancelando resignações, abominando vocações, triturando carnes. E o terno iria começar a parecer uma fantasia. Que dar as aulas não seria assim tão encantador com alunos sonolentos e desinteressados. E por fim, perceberia que os prêmios dos cargos de status mais alto ao lado do meu não eram impossíveis de se atingir. Mas teria medo por ver que seus donos eram pessoas mais tristes, sebosas, irritadas, amarguradas ou iludidas. Gente que tinha a certeza delirante e estúpida de ser gente importante. E que dizia todo dia que por ser importante também era feliz. E que tinha a necessidade de comprar coisas que mostrassem ao mundo, o tempo inteiro, o tamanho de tanta felicidade. Com seus sorrisos amarrados. Em uma agonia lenta.    

Foi nessa hora que da sala minha mãe gritou alguma coisa. Perguntando com quem eu estava falando. Se aquilo eram horas. Os olhos do barbudo marejaram por alguns segundos logo após ouvir a voz dela. Era nítido que ele pensou em sair do quarto e ir até a sala para encontrá-la.  Mas não o fez.

o-tempo-c3a9-o-sc3a1bio– Existem muitos caminhos. Coragem, garoto! – ele disse entrando no casulo prateado que havia aparecido no meio do meu quarto. – Dê um beijo na sua mãe. E pelo menos uma vez na sua vida, preste atenção no que ela diz. Você nunca vai encontrar mulher mais sábia.

Ouvi os passos da minha mãe se aproximando. O barbudo fez que saiu e depois entrou no casulo de novo. Estava indeciso – Dê um beijo nela. Ela não vai estar aqui para sempre – disse apressado – Dê um beijo nela por mim!  

Ele olhou em volta do meu quarto por uma última vez. Limpou um pigarro da garganta e acionou os controles do casulo cor de prata. Um zumbido leve tomou o ar e logo após um clarão o casulo sumiu.

Minha mãe entrou no quarto e começou a brigar. Nem ouvi. Alguma coisa sobre o mal da bebida. Que eu tinha que lembrar do meu tio alcoólatra. Do meu avô alcoólatra. Sei lá, tinha alguma coisa a ver com bebida. E ela não parava e eu doido de sono e dor de cabeça só fui andando com ela até a porta do quarto de novo, abraçando-a pela cintura. E ela brigava. E aquela mulher me enlouquecia, e eu pensei que ela ia ficar o resto da minha vida assim. E debaixo do batente eu dei um beijo nela.

– Pronto, eu disse.

– Pronto o que, garoto?!

– Sei lá, o viajante do tempo pediu…. – eu respondi – vai que você não esteja aqui amanhã.

– Você nunca mais volte para casa bêbado desse jeito, ouviu? Nunca mais! Tenha respeito!

Deitei na cama explodindo de dor de cabeça. Meio bêbado eu lembrei do viajante do tempo em seu casulo cor de prata. Sinceramente… prata não é uma cor legal.

E nunca mais cheguei perto daquelas bolinhas do papelote.

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Crônica “O Viajante”, de Manuel Sanchez

 

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

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