A greve da Polícia Militar e o Estado Hobbesiano


charge-greve-da-pm-1

A greve da Policia Militar e o Estado Hobbesiano

(Manuel Sanchez)

 

No momento em que escrevo essas linhas, a Policia Militar do Espírito Santo encontra-se aquartelada (fevereiro de 2017), negando-se a sair em patrulhamento ostensivo e cumprir seu papel constitucional na segurança pública. O que assistimos é um estado caindo na barbárie, com saques em massa, aumento na criminalidade e cidadãos trancados em suas casas com medo da ausência de policiamento.  Após vários dias de caos, apenas a presença das Forças Armadas em patrulhamento, no exercício do poder de polícia,  parece trazer aos poucos a normalidade no cotidiano.  

A experiência prática que se descortina aos nossos olhos traz uma interessante discussão filosófica sobre qual visão de mundo parece se adequar à realidade: se a de Thomas Hobbes ou de Jean-Jacques Rousseau.

Em sua obra maestra, O Leviatã  (1651),  Hobbes defendia que no estado de natureza – situação de ausência do poder do estado – os homens se comportariam como animais ferozes. O mais forte tomaria para si o que e quem lhe aprouvesse, sem qualquer receio ou pudor.

Contudo, mesmo esse homem mais forte e agressivo também teria sua necessidade de descanso ou sono; e nesse intervalo ele também seria alvo potencial de ataques ou sevícias. Ou seja, um constante estado de guerra de todos contra todos.

O estado de natureza hobbesiano tem uma visão clara do homem livre: violento, egoísta, capaz de comportar-se como lobo do próprio homem, ou seja, disposto a atacar e a submeter o seu semelhante pela força. O exercício do autocontrole, o reconhecimento do direito do outro e seu bem estar são características que parecem ausentes no homem hobbesiano que se move por uma moral niilista e voltada unicamente para a própria satisfação e interesse.

leviathan_by_thomas_hobbes

Para Hobbes, o Estado tem como função basilar o controle do instinto bestial nos homens. Através do consenso,  firma-se um fictício e a-histórico contrato social,  onde os homens aceitam e criam o Estado como forma de ter controle sobre a barbárie.

Caberia ao Estado o exercício da força e do constrangimento legal para controlar o exercício da liberdade plena que, em nossas mãos , degeneraria em violência, descontrole e medo. A força motriz é a violência desenfreada e o medo resultante. Existe um reconhecimento da incapacidade individual de  cerceamento das próprias vontades em prol do coletivo.

Visão distinta surge na teoria Rousseauniana do estado de natureza. Para Rousseau, o homem natural – livre ou anterior ao poder do estado – era um selvagem nobre, bom, em comunhão com a natureza e pouco disposto ao conflito com os demais uma vez que da própria natureza conseguiria quase tudo de que necessitava.

A criação do estado em Rousseau, descrita na obra “Do Contrato Social” (1762),  não surge como necessidade ínsita à essência negativa e violenta humana, mas como uma soma de esforços orientada pela vontade geral – racional e tendente ao bem comum – para aumentar nossas capacidades e como uma garantia da propriedade particular adquirida pelos indivíduos. O homem sozinho e longe do estado é bom, mas em conjunto somamos forças e interesses.

A força motriz em Rousseau é a cooperação. As tentações, a inveja, a ganância, o roubo seriam vícios que surgiriam como um efeito colateral da vida em comunidade já que, em seu estado natural, o ser humano seria bom. A boa vontade Rousseauniana está na origem do imperativo categórico  Kantiano e no reconhecimento de restrições individuais tomadas livremente  como fundamento da moral e da vida em comunidade.

Um Rousseauniano diria que a visão de Hobbes é negativa, eminentemente pessimista e que olha apenas para o que existe de ruim no ser humano; atrelando o bom comportamento dos indivíduos ao medo da punição e à força castradora de um poder político e social uma vez que, sozinho, o homem seria incapaz de assumir as rédeas do autocontrole e dizer “não” à própria satisfação.

Um Hobbesiano trataria a visão do bom selvagem de Rousseau como uma fantasia infantil, que ignora a agressividade humana inata e o egoísmo essencial do qual somos todos portadores. Em Hobbes a visão do homem como lobo do próprio homem não é um valor que se busque realizar, mas apenas uma constatação realista e a partir do qual precisamos nos organizar para vigiar e punir os excessos de violência em busca de termos a tranquilidade possível.

São duas visões antagônicas do homem e do fundamento da moral que encontram reverberações em diversos outros autores.  

 ___________________________________

“A greve da Policia Militar e o Estado Hobbesiano”, Manuel Sanchez

policia_greve_bahia_bocao_news

 

Anúncios

Gostou? Tem uma opinião diferente? Fale conosco e deixe seu feedback

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s