Filosofia e cultura Pop: Platão vs Aristóteles na Guerra Civil da Marvel


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Filosofia nos Quadrinhos: Platão vs Aristóteles na Guerra Civil da Marvel

De Manuel Sanchez

 

De alguma forma, a árvore da filosofia divide-se em dois grandes troncos: o pensamento platônico e o aristotélico. Os pensadores ocidentais posteriores rearrumaram, desconstruíram, resignificaram e expandiram conceitos que na linha derradeira vão encontrar seus fundamentos de validade nos dois pilares gregos.

Esses conceitos são tratados em vários personagens da ficção, mas neste texto eu gostaria de compará-los ao agir dos personagens do Capitão América e do Homem de Ferro no arco de história “Guerra Civil”.

Nos quadrinhos – assim como no filme – após uma sucessão de acidentes e mortes de civis acarretadas pelo agir sem controle dos grupos de heróis, o governo decide decretar leis de transparência e controle, onde os heróis que desejarem continuar agindo só o poderiam fazê-lo revelando suas verdadeiras identidades ao governo e unicamente em ações chanceladas ou patrocinadas pelo governo. No filme, inspirado pela série de quadrinhos da Marvel, as ações deveriam ser chanceladas por um painel de países da Organização das Nações Unidas. Mas o foco é o mesmo: controle das ações do grupo e retirada da autonomia de decisão dos grupos de heróis a respeito de quando agir, só enfrentando perigos em situações que considerem justas.      

Para mim, um dos melhores arcos de história dos quadrinhos. Gerou um filme muito bom também. No cinema, o grupo dos Vingadores se vê acuado pelo governo após uma sucessão de ações que – apesar de vencerem o vilão da ocasião – também geraram a morte de milhares de pessoas.  Ou o grupo se submete às decisões da ONU, agindo apenas quando permitido oficialmente ou seriam declarados criminosos e perseguidos.

Frente a essa decisão, o grupo se divide, uma parte assumindo que o correto é o atuar chancelado pelas outras nações – o grupo Homem de Ferro – e a outra parte se enfileirando com o Capitão América, decidindo-se por agir por conta própria e declarados assim como criminosos.  Por óbvio, os dois grupos se colocam em conflito: Guerra Civil.

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É a versão cinematográfica de Platão vs. Aristóteles.  

Platão, discípulo direto de Sócrates, acreditava na teoria das idéias e no dualismo. Este nosso mundo é uma mera sombra, um eco feio de um mundo melhor e perfeito que existe no campo ideal. Os problemas comezinhos do dia a dia são menores quando comparados às grandes idéias e o agir correto – o agir virtuoso – é encontrado na busca ponderada pelo conceito ideal, o conceito correto que, por definição, não se mistura com as sombras efêmeras com as quais convivemos no dia a dia. De Platão para frente vamos discutir utopias, idéias do que seria o homem ideal, o governo ideal e os conceitos áureos que os cercam, independente das amarras circunstanciais da vida diária. Em Platão, existe um conceito perfeito de Justiça que só pode ser atingido no plano das idéias, esse conceito imaterial, cristalino e puro.

Aristóteles, por sua vez, seguiu um caminho oposto. Aluno e depois professor na Academia de Platão, Aristóteles tinha uma visão bastante distinta, para não falar antagônica do pensamento platônico.

O dualismo – em Aristóteles – não existe. O que há é este mundo. As idéias não devem ser perseguidas em um plano exterior mas tratadas com as circunstâncias deste nosso mundo. A alma não é algo a ser tratado como distinto do corpo. Não temos como provar que existe uma alma e o mundo imaterial. O que existe é o que está ai, aquilo  que podemos ver, medir, tratar, preservar ou destruir. Pouco importa um conceito ideal da Justiça. O que importa é a atribuição de valores ao agir justo no plano fático, do mundo real, de acordo com as circunstâncias que nos são dadas.

platao-aristotelesO Capitão América é claramente platônico. Ele acredita no ideal de Justiça, no conceito de  Justiça que só pode ser alcançado fora das problematizações do cotidiano desse mundo. O Capitão nunca se sujeitaria a ter suas ações chanceladas pelo governo ou por um painel da ONU. O mundo real é sujo, imperfeito e influenciado pela matéria.

Politicos e governos tem agendas próprias e em algum momento eles poderiam proibi-lo de agir nas causas que ele (Capitão) considere justas; ou então força-lo a agir em situações que ele não considere passíveis de se enquadrarem no conceito ideal de Justiça. O Capitão América persegue o conceito ideal de virtude e justiça – que só existem fora do mundo real – e tendo-os encontrado em suas divagações, ele não se move. Que o mundo se mova, porque ele traçou sua fronteira na terra e dali não sairá. Pouco importam as circunstâncias face ao ideal e ao conceito de justiça. Se o mundo quiser me criminalizar por isso, que o faça. No vocabulário de  Nietzsche diríamos que o Capitão América é um niilista, ou seja, alguém que ignora os prazeres e as dores do mundo real em prol de sua paixão e de suas idéias utópicas.

E por essa razão, o Capitão América não se compõe com os governos. Ele não assina os documentos que o permitiriam agir chancelado pelos governos da ONU. Ele não entrega a outrem o seu conceito ideal de justiça. Ele ACREDITA no conceito idealizado de justiça.

A ética do Capitão América não é consequencialista. Ele não avalia suas ações baseadas nas consequências que dela virão. Ele age de acordo com seu conceito de Justiça, retirado do plano ideal, fiel apenas a sua consciência imaculada. Nos quadrinhos, o Capitão América é preso e assassinado ao final da série. No filme, toda sua equipe é presa. As consequências são irrelevantes porque o que interessa é agir no plano das idéias.  

E na guerra civil o Capitão América entra em conflito bélico direto com o Homem de Ferro.   

O Homem de Ferro possui uma visão de mundo aristotélica. Aristóteles não cria um sistema utópico de governo como a Republica Platônica, discutindo o plano das idéias fora da realidade da vida. Não. Aristóteles estuda no livro  Política as constituições das cidades estados existentes a seu tempo. E opina sobre as condições reais da oligarquia, da tirania e da democracia que ele via.  Ele discute sobre Justiça em Ética a Nicômaco valorando situações do dia a dia, reais. Qual o valor da vida e qual a punição a ser dada ao homicídio? Existem circunstâncias que modificam o valor a ser atribuído a ação homicida, tais como a vingança, a embriaguez, a guerra? Essas circunstâncias após valoradas alteram o rigor da punição? Logo, discute como valorar condutas e situações concretas existentes no dia a dia e como lidar com as mesmas, não no plano ideal imaculado, mas aqui: neste mundo.

O que é o homem virtuoso em Aristóteles? É aquele que sabe o agir correto e age, nas circunstâncias dadas e existentes, pelos motivos corretos e de forma habitual.  Não adianta saber corretamente e não agir. Não adianta agir (ainda que certo) sem ter consciência do seu agir. Também não adianta agir e alcançar o resultado correto, mas por motivos pessoais pouco nobres. E sobretudo pouco importa se foi um ato de sorte que nunca mais se repetirá. A virtude está em saber agir, fazê-lo, de forma habitual e pelos motivos corretos. E como fazemos isso? Valorando as circunstâncias concretas, reais.

E aí entra o Homem de Ferro. Aristotélico. As ações dos Vingadores acarretaram a morte de milhares de pessoas. As ações no fim foram boas pelo ponto de vista da ética consequencialista, pois bilhões de pessoas do planeta salvaram-se de uma invasão alienígena (Vingadores I) e do domínio de Ultron (Vingadores II). Mas os países do planeta ficaram com medo do grupo e decidem controlá-lo via ONU, chancelando ou proibindo suas ações sob pena de criminalizar o grupo de heróis.

O que faz o Homem de Ferro? Ele avalia as circunstâncias do mundo, pondera a realidade de forma pragmática, de maneira que possa manter o grupo dos Vingadores unido e atuando na realização da justiça. Existe uma interferência do governo? Sim, existe. Isso é bom? Não. Mas são as circunstâncias do momento e é com elas que deve-se agir. Pouco importa o que seria ideal. O que importa é o que existe. E o momento atual era aquele. Acatando-o, o grupo mantém ao menos uma mão no volante na condução desse carro. Partindo para o conflito com os governos e a ONU, o Poder constituído irá agir de qualquer forma, mas dessa vez o grupo de heróis não teria nenhuma condição de participar das decisões. Não adianta buscar o mundo dualista da perfeição das ideias contra um mundo de sombras e imperfeito. O que existe é esse mundo: o real, da matéria. E o valor das ações deve ser buscado a cada momento, nas circunstancias reais, no agir concreto.

E por isso o Homem de Ferro acata e assina os documentos de controle, mantendo sua autonomia relativa, esperando um momento futuro para renegociar outros termos e sabendo que se não existir uma composição com os governos, a consequência será a criminalização e a perseguição do grupo.

As decisões éticas antagônicas dos dois homens divide o grupo dos Vingadores e acarreta a Guerra Civil.  O Capitão América busca suas ações no plano perfeito das idéias e depois disso mantém sua consciência inamovível. O Homem de Ferro avalia as circunstâncias dinâmicas do mundo real e pondera a valoração a ser dada a cada situação concreta. O primeiro que atua de acordo com uma ética não consequencialista, o segundo que avalia a realidade e as consequências que disso podem advir. O primeiro olha a ação analisando seus meios.  O segundo aceita que os meios são negociáveis, desde que se chegue a um determinado fim.

De qual lado você está na Guerra Civil?

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Manuel Sanchez, Filosofia nos Quadrinhos: Platão vs Aristóteles na Guerra Civil da Marvel

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

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