Resenha: Assim falou Zaratustra – Nietzsche


E após alguns anos, voltei a reler o “Assim falou Zaratustra” de Nietzsche.

Sem dúvida alguma é o livro mais famoso do filósofo, verdadeiro bestseller no gênero da filosofia. E após essa releitura posso afirmar com convicção que não deveria ser a leitura inicial de ninguém no pensamento de Nietzsche. Cometi esse erro no passado e não aproveitei a obra como deveria na ocasião (o que me afastou do autor por um bom tempo).

A obra é escrita em uma linguagem cheia de simbolismos, lirismo e poesia, às vezes emulando um estilo bíblico e acompanha a jornada de Zaratustra, saindo do habitat isolado de sua caverna na montanha e desejoso de dividir seus pensamentos com os homens da planície. Ao longo da história, o pregador encontra-se com inúmeras pessoas, resistências múltiplas, aprendizes e escárnio público.

O Zaratustra, obviamente, é o próprio Nietzsche e suas parábolas e aforismos trazem em síntese o pensamento do filósofo sobre a necessidade de solidão, a pobreza de pensamento encontrada no povo, a estupidificação dos costumes, a necessidade da criação individual de força interior, apregoando o desprezo pelos fracos e a desigualdade que ele considera justa para aqueles que se distinguem por suas características diferenciadas e especiais.

Zaratustra explicará sua noção de super-homem (a superação do homem atual e seus valores morais, abraçando a autonomia), a morte de Deus (e a necessidade de superar o pensamento religioso e de mentalidade servil ou de proteção dos fracos contra os fortes) e a vivência do eterno retorno (encontrando sua verdadeira natureza e vivendo de forma a ter esse prazer e felicidade constante por ser e fazer aquilo que de fato é a sua identidade, querendo assim que essa sensação e experiência nunca terminem).

Todos esses valores são encontrados de forma mais direta e objetiva em outros livros e, por vezes, a falta de contato anterior com o pensamento do autor pode dificultar a compreensão do Zaratustra que é escrito em uma linguagem mais rebuscada. Daí explica-se não ser este o livro indicado para o leitor iniciante na obra do filósofo.

Nietzsche é um filósofo que nada profundamente contra a idéia de igualdade. Seu pensamento é elitista, desprezando a solidariedade com os mais fracos. Combate os paradigmas e criações salvacionistas seja pela religião, pela política ou pelo racionalismo. Para ele, são estes pensamentos ideológicos os verdadeiros pensamentos niilistas, que negam a vida presente e jogam o ser humano em falsidades e o afastam da vida real. Vitalista, apregoa a necessidade de vivermos ancorados no presente, assumindo os prazeres e as dificuldade da vida neste plano, sem esperanças de transcendências metafísicas ou políticas. Encontramos em Zaratustra o ataque ao pensamento de manada, abraçando a subjetividade mas entendendo que não existe verdadeiramente um livre arbítrio, uma vez que não temos plena consciência e nem mesmo controle dos inúmeros fluxos que passam em nossa mente.

Sem dúvida, Nietzsche é um autor absurdamente interessante para se conhecer e ler. A viagem pelo seu Zaratustra foi uma verdadeira odisséia repleta de meditações. Seus insights são profundos e quebram paradigmas estabelecidos, que consideramos default e consequentemente nos levam a uma autocritica constante.

Se a frieza com que trata os mais fracos e necessitados choca o leitor, também encontramos na obra a mola propulsora para o desenvolvimento da própria força e capacidade individual.

O Zaratustra é uma obra-prima seja pelo estilo poético, seja pelo resumos aforístico que faz dos grandes eixos do pensamento de Nietzsche. Não é de fácil leitura e é aconselhável que esteja-se familiarizado com suas idéias para o seu proveito integral.

Mas é indiscutível que deve estar na sua lista de leituras.

– Manuel Sanchez

 

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