Saia da armadilha dos memes: leia o livro!


Saia da Armadilha dos Memes: leia o livro!

(Manuel Sanchez)

 

Estamos mergulhados na cultura dos memes. Típico desses tempos onde as pessoas confundem velocidade com eficiência e profundidade com chatice. Memes são usados não apenas para fazer montagens com piadas e chistes mas também para a introdução de temas mais sérios. Quem não gosta de ler frases e aforismos de escritores e filósofos nas comunidades dedicadas ao gênero? Quadros estatísticos com referência política são feitos em toneladas. Confesso que eu mesmo copio ou faço alguns para divulgação no Blog ou para minha página no Facebook. Também me associei em comunidades de discussão política, artes, ciências e filosofia e a troca de memes com insights ou críticas é uma constante. 

Acredito que os memes são uma isca válida. Mas o problema que percebo nessa onipresença é que muitas pessoas param exclusivamente nesta forma de contato com o pensamento crítico e  associam seus estudos e a coleta de conhecimento com posts rápidos e frases de efeito, às vezes sem referência, alguns mal traduzidos, outros intencionalmente desonestos e sem qualquer tipo de amparo intelectual, além da inexistência do cruzamento de informações. Quando muito, alguns leitores copiam um extrato ou mesmo se detêm na leitura de alguns parágrafos após download na web. Em quase todos os casos percebo que poucas pessoas buscam o estudo e a comparação dos textos originais antes de manifestarem de forma conclusiva suas objeções ou concordâncias. 

Meu interesse tem um viés para discussões filosóficas, mas o exercício a seguir também poderia ser repetido em blogs e comunidades relacionadas a temas políticos ou científicos: gostou de um meme? O assunto chamou a sua atenção? Vá atrás do autor e leia o seu livro. Vá ler a pesquisa de referência. Busque a fonte. Não se contente com os intermediários. E principalmente, não se limite a frases soltas ou memes.  

Vamos exemplificar. Nietzsche é repleto de aforismos lindos e bombásticos. Mas não se contente com a leitura de frases aleatórias que nada explicam e estão fora do seu contexto. Decorar frases soltas não acrescentará nada ao seu pensamento crítico ou a sua cultura. Se você achou as suas frases interessantes, se sua curiosidade foi despertada, que bom! Esse foi o primeiro passo. Agora vá atrás dos livros. Não se contente com migalhas. Leia o livro. Pegue uma bebida, sente-se e leia o livro! Entenda a percepção e visão de mundo que são passadas ao longo da obra. Leia o livro. 

Se alguns autores são particularmente difíceis e escrevem de forma críptica (Kant, por exemplo, que parece fazer questão de ser incompreensível), aconselho primeiro a leitura de livros SOBRE o autor. Mas apenas como leitura introdutória, porque depois é importante que se faça o exercício de ler o texto puro, original. Ao menos, alguns capítulos seminais das obras mais relevantes. Faça esse exercício para sua inteligência. A profundidade de pensamento dessas mentes não cabe em memes e montagens de fotos. Por mais versátil e colorido que seja um blog e suas jpgs e gifs, isso não pode se confundir com a maturação do seu pensamento crítico.

Você já deu o primeiro passo e buscou assuntos que fogem da vulgaridade. Então continue! Você leu SOBRE a subjetividade cartesiana, mas que tal pegar o próprio Discurso sobre o Método de Descartes e entrar na discussão sobre o demônio que insiste em enganá-lo? Gostou das frases existencialistas sobre crise na vida íntima? Sugiro ler o Existencialismo é um Humanismo.  Tem algum viés político? Leia a Ideologia Alemã de Marx. 

É normal que inicialmente nossa escolha recaia sobre autores ou temas da nossa predileção. É mais prazeroso ler aquilo com o qual já concordamos e queremos nos aprofundar. Tem nisso um pouco de afago e outro tanto de preguiça. Mas já que você conseguiu ultrapassar essa primeira  barreira dos memes e saltou sobre o muro dos textos puros , que tal darmos um novo passo? Perceba que em breve já estaremos correndo. 

Leia o pensamento contrário ao daquele que você defende e acredita. Ninguém quer mudar o seu pensamento, mas é generoso com a sua inteligência submeter-se ao contraditório e  críticas à sua zona de conforto mental . Gosta da deontologia e senso de dever de Kant? Leia o vitalismo destruidor de valores de Nietzsche. Defende a dialética de  Marx? Leia o liberalismo de Adam Smith. Se entusiasmou com as regras de felicidade da maioria de Stuart Mill? Leia o egoísmo de Maquiavel. Achou o bom coração selvagem de Rousseau interessante? Vá ler Thomas Hobbes e sua visão violenta e bruta do homem em seu estado natural. Está passando por uma crise existencialista e encontrou amparo em Sartre? Exercite-se com um niilista e leia alguém que manda tudo às favas porque nada tem sentido. Para cada Sêneca estóico e seu dever duro e comedido,  leia um hedonista ao estilo Kerouac e sua busca de sensações em excesso. Não se furte do prazer raivoso de ler um argumento escrito com inteligência sobre um tema que você combate. Isso amadurece o pensamento crítico.     

Saia da armadilha dos memes. Abandone essa zona de conforto e preguiça. Pare de dialogar apenas com sua própria tribo. Quebre essa barreira que impuseram na sua frente e saia da estrada percorrida pela manada. E vá ler o livro!

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Manuel Sanchez, editor do Blog Opinião Central      

 

 

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