Resenha: Vida para Consumo, de Zygmunt Bauman


Terminar a obra “Vida para Consumo” de  Zygmunt Bauman é levar um soco na boca do estômago. (tratei sobre a obra de Bauman neste link)

O sociólogo analisa como nossa sociedade se transformou de uma sociedade de  produtores em uma sociedade de consumidores, com todas as mudanças de paradigmas  consequentes. 

Na sociedade de produtores, que vigorou do inicio do capitalismo industrial até meados do sec. XX,  o trabalho era visto como objetivo a ser alcançado e mantido, estável, focado em produção.

A ética do trabalho era a do esforço, o sacrifício era visto como uma necessidade e validado pelo corpo social. A  manutenção dos vínculos era buscada pelo maior tempo possível, focava-se no  acúmulo de capital, seja do ponto de vista dos grandes industriais, seja do ponto de vista do individuo: poupar e acumular eram vistos como fundamentais, não o consumo.

Bauman analisa como o mundo saiu desse quadro e entrou no que ele cunhou de modernidade líquida, que neste livro é analisada sob o prisma das relações de consumo.

Na sociedade de consumidores que evoluiu como uma consequência  lógica da necessidade de expansão do capitalismo, a ética não é mais a do trabalho, mas a da busca do prazer; os vínculos são curtos e mantidos apenas pelo tempo necessário, a solidez dos contatos é transformada pelo mundo virtual em um contato efêmero que pode ser desfeito com um clique. 

Se antes o foco era a acumulação, agora passamos a ter o foco no marketing e na sua busca de prazer rápido e instantâneo. A sensação de completude é sempre postergada para que haja a necessidade de procurar novos produtos e novidades que entreguem  o gozo tão desejado.

Também as relações de trabalho se modificam. Laços longos e sólidos entre empresas e trabalhadores viraram pó e foram substituídos por contratos cada vez menores. Se antes ser empregado de determinada empresa ou setor era uma forma de identidade, agora esses laços são tão rápidos e descartáveis que as pessoas estão sempre em uma busca frenética por projetos que lhe deem os meios de subsistência.

Ao mesmo tempo que consumimos e descartamos objetos sem qualquer apego, somos nós também transformados em commodities a serem anunciadas e vendidas, buscando que nos consumam e retribuam. Como tudo é ligeiro e descartável, somos levados a nós mesmos nos transformarmos em mercadorias ilustradas pelo marketing e polidas pelas marcas e produtos fashion que consumimos com avidez.

Como sempre, Bauman não está interessado em propor soluções mas a fazer um diagnóstico. Sua obra não quer sugerir caminhos libertadores mas abrir os olhos das pessoas para que elas ao menos saibam o jogo que estão jogando.

–   Manuel Sanchez   

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

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