De Max Weber à Zygmunt Bauman: Do mundo sólido ao mundo líquido


Terminada a leitura de ” A ética protestante e o espírito do capitalismo ” de Max Weber, as relações com o último livro resenhado neste Blog ,  “Vida para Consumo” de Zygmunt Bauman,  são espontâneas (a resenha do livro de Bauman pode ser encontrada aqui).

Weber foi um dos pais fundadores da sociologia e uma das suas obras mais importantes é “A Ética protestante e o espírito do capitalismo”, onde analisa o surgimento do capitalismo industrial e sua relação com o ethos religioso encontrado nos países protestantes.

Inicialmente, o autor reconhece que empreendimentos com sinais capitalistas já era encontrados desde a Antiguidade, mas foi apenas na Época Moderna que o capitalismo atingiu um nivel industrial, arraigando-se na cultura e criando uma nova ética permeando todas as relações da sociedade.

Weber traça esse desenvolvimento analisando a mentalidade surgida no cisma religioso que deu inicio à Reforma Protestante na Europa, afirmando que o novo ethos surgido com o Calvinismo, Luteranismo e demais correntes  foi imprescindível – e mesmo o motor – para o desenlace subsequente do capitalismo.

O livro parte para a análise da doutrina da predestinação, que se encontra no âmago das correntes protestantes. Apesar de existirem algumas diferenças entre luteranos, calvinistas, anabatistas etc… há um traço comum nas correntes religiosas que se espalharam pelo norte da Europa e ilhas inglesas: a doutrina da predestinação e uma reinterpretação da idéia de vocação.

Através da doutrina da predestinação, os crentes aceitam que Deus já escolheu aqueles que serão salvos no mundo pós-morte e aqueles que estão condenados. Isso já está decidido desde o nascimento, não importando as obras individuais, arrependimentos ou bondades feitas ao longo da vida. Já se nasce salvo ou condenado na eternidade por determinação divina. Obviamente, não há forma de um ser humano descortinar os desígnios da divindade mas a doutrina da predestinação nos dá uma dica: o enriquecimento. A pessoa que caiu nas graças da divindade e destina-se à salvação possui sinais exteriores de riqueza, conforto e bem estar material.

Reinterpreta-se, igualmente, a idéia da vocação. Retira-se seu caráter místico e assume-se um significado mais mundano. Vocação é igual a dedicação ao trabalho. E trabalho é igual ao cumprimento da missão dada pela divindade. A obtenção de lucro e bem estar material através do trabalho é sinal de trabalho bem feito, acerto na missão estipulada pela divindade e assim um estigma que denota que se faz parte da assembléia dos escolhidos para a Salvação.

Desta forma, segundo Weber, o protestantismo afastou-se da mentalidade católica que apontava o lucro como pecado e a relação com o dinheiro como a raiz do Mal, abraçando a ética do trabalho árduo, do assenhoreamento material  e do desenvolvimento econômico. Estava formada a cama para o surgimento do ethos da sociedade capitalista industrial.

Neste momento o enriquecimento como sinal de escolha divina não é feito para o desfrute. Não se trata de enriquecer para dedicar-se ao ócio, beber, gastar com a luxúria etc…  Tais condutas eram fortemente condenadas pelo ethos protestante. Trata-se de enriquecer para manter. Enriquecer para acumular. Enriquecer para gerar mais capacidade de trabalho. Enriquecer para atingir estabilidade. O gasto e o desfrute eram sinais do mamonismo e do pecado.

Weber explica assim como essa moral espalhada pelos países do norte europeu e ilhas inglesas, colocou-os em posição de vantagem para criação de um caldo cultural que estimulava o trabalho, o acúmulo de riquezas, a postergação do desfrute e o empreendedorismo. Ser bem sucedido e ter sinais de desenvolvimento econômico eram apontamentos de que se estava também no bom caminho religioso.

Saltemos um século para Zygmunt Bauman.

Bauman descreverá a sociedade analisada por Weber como o alvorecer da sociedade sólida, da criação e desenvolvimento do capitalismo industrial e suas caracteristicas como sociedade de produtores: o trabalho era visto como objetivo a ser alcançado e mantido, estável, focado em produção. Em uma sociedade de produtores, a ética do trabalho era a do esforço, o sacrifício era visto como uma necessidade e validado pelo corpo social. E por fim, Bauman descreverá como saímos dessa sociedade e criamos um novo ethos, para novos tempos – uma ética do consumo.

Na sociedade líquida – pós moderna – que se coloca no lugar do mundo industrial anterior, a ética não é mais a do trabalho, mas a da busca do prazer instantâneo; os vínculos são curtos e mantidos apenas pelo tempo necessário, a solidez dos contatos é transformada pelo mundo virtual em um contato efêmero. Buscam-se soluções rápidas para frustrações, nega-se o sacrificio e a idéia de postergar um prazer é tida como absurda.

Se “A Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo”  (Weber) é um livro fala da criação da ética capitalista da poupança e da acumulação com a postergaço do usufruto; em “Vida para Consumo” (Bauman) temos a análise do fim dessa mentalidade e sua substituição pelo consumismo e ética do prazer instantâneo: o ethos da cultura pós-moderna.

É interessante notar que Weber afasta-se de qualquer interpretação do materialismo histórico. Textualmente (chega a chamar de ingênuo), Weber nega a possibilidade da modificação da infraestrutura econômica ser o motor que reorientará a superestrutura cultural.  Ou seja, para Weber, foram as mudanças culturais trazidas pelo ethos protestante (entre outros elementos da cultura e da sociedade analisadas na obra) que sinalizaram e criaram as condições para a convulsão da forma de produção econômica advinda com o capitalismo industrial.

Karl Marx analisará a formação do ethos capitalista no sentido inverso: primeiro vem a modificação da infraestrutura econômica passando do mercantilismo para o capitalismo industrial e depois – como forma de justificação e criação de discurso – surgem as novas concepções éticas e morais que conformarão os demais setores culturais da sociedade (religião, normas jurídicas, concepções artísticas etc…)

E assim fazemos o gancho para o próximo livro a ser resenhado: “Ideologia Alemã”, de Karl Marx.

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por Manuel Sanchez

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