O Mito da Caverna de Platão explicado em Matrix e por José Saramago.


O mito  da caverna é uma das passagens mais clássicas da história da Filosofia, sendo parte constituinte do livro  “A República” onde Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal que, aos olhos de hoje, possui tintas claramente totalitárias e de controle estatal extremo sobre a vida dos cidadãos.

A narrativa da caverna expressa a imagem de prisioneiros que desde o nascimento são acorrentados no interior de uma caverna de modo que olhem somente para uma parede iluminada pela luz exterior que passa por uma fresta. Aqueles que vivem aprisionados só conhecem as sombras projetadas na parede da caverna e acreditam que esta é toda a realidade. E ouvindo os sons que vem de fora da caverna, associam tais sons equivocadamente às sombras. 

Um dos prisioneiros consegue se soltar e sair da caverna.  Ao sair, a luz do sol ofusca sua visão imediatamente e só depois de muito habituar-se com a nova realidade, pode voltar a enxergar e admirar as maravilhas dos seres e formas de fora da caverna. Percebe que aqueles seres tinham mais qualidades do que as sombras, sendo, portanto, mais reais. Finalmente associa verdadeiramente os sons aos seres e às situações que as originaram.

Maravilhado com esse novo mundo e com o conhecimento que então passa a ter da realidade, esse ex-prisioneiro lembra-se de seus antigos amigos no interior da caverna e da vida que lá levavam envolvidos em ignorância e falsas percepções. Imediatamente, volta à caverna para contar aos seus antigos pares do novo mundo que descobriu.

No entanto, como os ainda prisioneiros não conseguem vislumbrar senão a realidade que presenciam, debocham de seu colega liberto, dizendo-lhe que está louco. Como ele insiste em suas idéias e descobertas, os prisioneiros declaram  que se não parasse com suas maluquices acabariam por matá-lo.

Essa bela alegoria reflete como somos iludidos e completamente afastados da realidade, assumindo por verdadeiro aquilo que são apenas sombras e ecos. Quando nos libertamos da mediocridade reinante e passamos a verdadeiramente a pesquisar, estudar e refletir, somos como o ex-prisioneiro que finalmente sai da caverna e entra em contato com o mundo exterior. Primeiro ficamos cegos com tanta luz. Posteriormente, passamos a discernir melhor as formas e as coisas. Invariavelmente, aquele que enxerga uma nova faceta da realidade e se livra do ranço da ignorância, tende a querer levar essa novidade para seus pares. Neste caso, como o ex-prisioneiro que volta à caverna, prepare-se para receber críticas, falta de compreensão e mesmo a ira de seus antigos pares. 

No filme Matrix, sem dúvida um dos melhores filmes de sci-fi dos últimos tempos, a discussão da alegoria da caverna platônica permeia toda a história. Na série, vivemos em uma realidade virtual criada pelas máquinas, acreditando piamente que nosso entorno é o mundo real; assim como os prisioneiros da caverna que só enxergam as sombras e assumem que essa é toda a realidade. Alguns poucos conseguem perceber essa realidade criada pelas máquinas dominantes e enxergar o mundo como é. E por fim, voltam voluntariamente à caverna (o mundo virtual) na tentativa de despertar os demais prisioneiros (prisioneiros do mundo virtual e de uma vida de mentira). Enquanto alguns aceitam a libertação, alguns dos prisioneiros lutarão incessantemente para permanecer no mundo virtual de ilusão.

O segundo vídeo traz uma análise de Saramago sobre o nosso mundo atual midiático e alicerçado em imagens que criam a realidade reinante em nossas mentes. Somos inundados por fatos e imagens que forçam e moldam nossa interpretação do mundo. Interpretação essa que é normalmente acrítica e superficial. Para o autor português, o mundo digital moderno e de informações transbordantes é fraco em análise e em substância. Pouco refletimos, pouco pensamos e assumimos a realidade que nos é mostrada em doses cavalares tais como os prisioneiros da caverna. 

 

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