Crônica: “O caminho da felicidade”


“O caminho da felicidade”

( Manuel Sanchez )

 

Quem lê o que escrevo, encontra textos mais densos, outros mais cínicos. Alguns são particularmente tristes ou nostálgicos. Mas isso ocorre porque no terreno da felicidade, eu optei por vivê-la; não descrevê-la em palavras.

Eu tenho uma esfera de felicidade própria. E sou muito agradecido por isso, apesar de não fazê-lo tanto quanto deveria. Seria uma falha?

Chega a ser uma limitação, algo que preciso alterar em abordagens futuras. Crio uma imagem de que estou constantemente triste ou me afogando em mágoas. Elas existem, sim. Veja bem, não tenho nada contra a tristeza. Ao contrário, coloco-me contra essa necessidade de demonstrar constantemente uma felicidade forçada, seja em redes sociais, por ingestão de remédios ou na negativa de ficar um pouco sozinho. No meu caso, os momentos de solitude acabaram sendo um gatilho para uma análise feita em textos, uma terapia vasculhando memórias.

Mas isso não esgota os inúmeros interesses e momentos alegres de vida. E eu gosto de viver. Busco potência nessa vida.

Por exemplo, prefiro as manhãs. Gosto do sol e de me perder andando pela cidade.

Viajar me motiva: abre portas, escancara percepções. Novas comidas, novas bebidas, pessoas desconhecidas que puxam conversa quando percebem que sou turista. Entre optar por consumir coisas e consumir experiências, mergulho de cabeça nas últimas.

Gosto do toque. Não consigo conceber o amor sem o sexo. E eu vivo um amor real. Meu desejo é uma fonte constante de satisfação e de renovação dos laços. Não sou platônico: não creio que a falta alicerce o desejo. A falta leva ao fim. Preciso da concretude dos beijos e do orgasmo. Amores de carne. O sexo nos aproxima. O sexo nos expõe.  Gosto de dominar.

A arte me seduz. A arte é um farol em uma terra estrangeira. Uma terapia. Meu templo. Busco uma descoberta constante da arte em si e também dos sentimentos e pensamentos que são despertados conhecendo os Mestres. Sou um amante de todas as suas manifestações: pintura, escultura, música, teatro, literatura, dança, canto, quadrinhos, cinema… se algo me frustra na vida é não ter esse dom. Rabisco algumas palavras na tentativa de criar a magia mas…. apenas para bater de frente com o sentimento de Salieri olhando para Mozart.

Valorizo amizades e a lealdade. Mantenho as minhas por décadas. É muito difícil gente nova entrar nesse circulo. Não que seja um amigo próximo. Sou parecido com um cometa que aproxima-se durante um tempo, esfuzia-se com o encontro e depois precisa afastar-se. Mas também me teletransporto rápido quando um amigo pede socorro. Dói na alma quando constato que uma amizade acabou. Mas também respeito o fim: tudo tem seu ciclo.

Abro espaço nos meus dias para me cuidar.

Mas também me estrago com prazer. Cerveja é bom para os dias quentes, mas eu gosto é de whiskey todas as noites. Acho cigarro uma coisa de frescos: quando fumo, tem que ser charuto. Adoro os clubes com meninas dançando para mim. Gosto de jogar. A falta de opções legais não constitui problema.

Preciso de café.

Normalmente eu me comporto. Não gosto de atrair a atenção e nem de mostrar quem eu sou para as pessoas. Dificilmente falo o que penso de alguém e sei analisar um local e o que pode ser dito ou feito em seu seio. Guardo para mim os meus prazeres e aventuras.
Acredito que a idéia de que se deve revelar tudo, o tempo inteiro, e que isso é sinceridade e transparência, apenas torna-o inconveniente.

Respeito o caminho de cada um, apenas não aceito que venham tentar mapear o meu. E hoje sou cruel quando tentam fazê-lo. Aprendi que devemos ser cruéis com os glutões que arrotam verdades tentando vomitar em nossas asas. Ando no mundo politicamente correto sem me misturar com seus defensores. São todos eles tiranos do espírito. Evito os ambientes de mediocridade que me incomodam. São repletos de burrice e vulgaridade. Tenho desprezo por pessoas que constantemente se vitimizam e não assumem a responsabilidade pela mudança em suas vidas.

Sou o reflexo de uma coleção de bons momentos e de boas lembranças. Muita alegria e risos. Vou costurando uma tapeçaria que me sustenta com prazer na vida, apesar de saber que – para muitos – visto as armas do cinismo e da indiferença. Não me importo. Os que pensam assim apenas demonstram que estão fora do meu círculo íntimo. E se assim estão, motivos existem.

De todas as lições que tirei, essa é a mais importante: não existem fórmulas de felicidade nesse mundo. Nada de tábuas com mandamentos a serem seguidos por todos. Receitas prontas de bolo para atingir a alegria. Não.

Não existe um sentido prévio aos nossos dias. Uma essência alquímica que nos revele as verdades para preencher com luz o caminho. Não.

O sentido não é pretérito. Ele não desce da transcendência como um guia ou seta flamejante. Não.

Sem gurus. Sem guias. Sem caminhos únicos. Sem verdades absolutas. Afasto-me dos patrulheiros do politicamente correto com seus grilhões.

Construímos o sentido da vida, vivendo.

Dia após dia. Tarefa individual e intransferível. Árdua mas imensamente libertadora. Experimentamos e descobrimos os prazeres que nos são próprios e nos cercamos deles. Aproximamo-nos das pessoas que nos são caras e as mantemos. Aceitamos sacrifícios e deveres afins com os valores que almejamos em nossas vidas porque desejamos vê-los realizados.

Quando descobri isso, percebi que a felicidade não é nem um estado constante do pensamento e nem um destino. É um caminho, com picos e vales. Sem mapas. E que o assombro não me paralisa, mas é o fogo e o combustível que me impulsiona.

Sempre para frente. Sempre adiante. Rédea na mão, assumindo o controle das minhas decisões e vivendo com seus acertos e equívocos.

Eu gosto das manhãs. Tomo um café bem quente e deixo a sensação se espalhar pelo meu corpo. Hoje está um dia particularmente belo de outono na minha cidade. Uma leve brisa, não faz muito calor.

Hora de me perder por ai. Picos e vales.

Sem mapas.

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“O caminho da felicidade”, de Manuel Sanchez

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