Crônicas e Afins: Alvorada de São Jorge


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Desde a alvorada o movimento na rua era intenso com aquele céu que nascia rubro e os primeiros raios de sol quebrando o branco da madrugada.

As batidas da festa me acordaram cedo. Muitos tambores. Muitos cantos. Muita dança. Desde criança, aquele terreiro ao lado da nossa casa sempre me fascinava. Era diferente daquela igreja morta que me arrastavam aos domingos como quem guia gado para abate. Nunca gostei de ser guiado. Não nasci para ser abatido. O terreiro era diferente na construção, nas músicas, nas roupas e até na língua.

Era como visitar um outro país e outro povo só de olhar pela janela do quarto. Descobri ali que gostava de viajar. Existem muitos tipos de jornada.

Então era o dia das demandas.

Aquela janela para cima do terreiro abriu um mundo de possibilidades: existia outro jeito de viver a vida. Não que eu quisesse aquele jeito. Não se tratava disso. Nesta altura da vida eu não tinha a menor idéia do que eu queria e isso não era problema. Mas existia outro jeito. O mundo tinha camadas. As pessoas possuíam diferentes vestes. E isso fez toda a diferença.

Os animais iam chegando e só podia entrar bicho macho: bode, pato e galo. Os animais iam chegando. Não dava para ver direito devido às árvores que obstruíam minha janela. O barulho assustado era mais alto que o tambor. Os animais iam chegando. E iam tombando um a um.

Então era o dia das oferendas.

Minha mãe gritava para eu sair da janela. Ela sempre fluía e insistia de forma a conseguir o que queria.

VeveOgoun

Aprendi com ela. E logo em seguida fluí e serpenteei ao largo de suas proibições para estar de olhos e ouvidos abertos sobre o terreiro.

Espada, facão e corrente de ferro. Então era o dia das armas.

Seus filhos vestiam branco e vermelho e aquelas cores davam proteção e cura. Então era o dia das armaduras.

Saíram pela rua em procissão carregando suas imagens. Fugi para a rua para acompanhar aquele Orixá misturado com Santo. Orixá guerreiro. Santo impetuoso. Tinha um semblante autoritário. Marcial matando um Dragão. Na imagem carregada pela rua, ainda pingava o sangue dos animais abatidos.

Trazia a luta. Tomava o que queria sem timidez. Arriscava o combate. Era o Senhor das Guerras e das Demandas. Tinha a calma necessária antes do ataque furioso. Não perdoava as traições. Não esquecia as ofensas. Nunca se entregava. 

E aqueles que usavam suas armas o disfarçaram de Jorge.

Salve, Jorge.

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Manuel Sanchez, “Alvorada de São Jorge”

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