Crônica: Amor de Menino


nao me ame crianças(1)

Até o momento em que a viu, suas maiores preocupações eram os desenhos animados e as revistas em quadrinhos. Era um mundo simples que depois daquele olhar, nunca mais foi. Aquele sentimento abriu seu peito, tomou posse e fez morada como um invasor que chega na noite.

Tudo foi jogado ao chão como um terremoto. Um vulcão que entra em erupção. Algo estava diferente.

Eles estudavam juntos e ele via aquela menina todos os dias. Mas havia alguma coisa modificada no jeito que ela andava, nos seus gestos, na maneira que mexia no cabelo. Ela era leve. Flutuava. E tirou a firmeza sob seus pés.

Sentiu como se fosse a primeira vez que a tinha visto. Ela não era assim até ontem! Quem era aquela menina, agora? Alguma coisa na sua pele. Ou talvez nos seus olhos. Não sabia muito bem. Mas era uma hipnose que irradiava de seu corpo.

Ele acompanhava os movimentos para onde quer que ela fosse dentro da sala de aula, no pátio e após o soar do sinal.

Durante os dias seguintes, ele apenas olhou de longe. Também não entendia.

Era ela que havia se alterado ou era ele? Tinha que chegar a uma conclusão. Depois de um tempo pensando com aquela tempestade que trovejava dentro de si, concluiu que era ele próprio. Devia estar doente. Como explicar aquele suor frio, o coração acelerado quando ela se aproximava e o nó que estrangulava sua garganta? O pior era esse maldito calor que só aparecia quando ela estava por perto. Alguém pode abrir a janela?

Sentiu uma irresistível vaga que arrastava seu corpo para perto do dela. Não importava se era maré baixa ou maré alta. Ela o arrastava para o mar alto e pronto. Não havia escapatória.

amor

Buscou resposta nos seus oráculos. As revistas em quadrinhos e os desenhos o ensinaram como viajar no tempo, como derrotar alienígenas mas não não não…. não havia nada ali sobre o que fazer se estivesse apaixonado.

Mudou de lugar dentro da sala para ficar próximo dela. Ensaiou puxar assunto. Tudo em vão.

Aquela menina nem mesmo olhava em sua direção. Ele era invisível para ela. E justo ela, que havia se tornado um arco íris: impossível não notar.

Mas o garoto não iria desistir tão fácil. Se estava sentindo algo que nunca havia experimentado dentro do peito, decidiu fazer o que nunca havia realizado para chamar sua atenção.

Primeira missão: o endereço. Seguiu a menina por meio bairro após a saída do colégio até seu prédio e conseguiu o número do apartamento com o porteiro. Essa foi fácil.

Depois leu páginas e páginas e páginas atrás de um poema que exprimisse exatamente o que estava sentindo na alma agitada. Surgiu a dúvida: será que alguma outra pessoa no mundo já havia se sentido assim? Ele duvidou. Tudo o que ele fazia era pensar nela dia e noite. Era um fogo que ardia na sua pele e que ninguém mais via.

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Imaginou se todo mundo se sentia apaixonado assim por alguém. Como o mundo iria continuar? Era tudo muito confuso e cada caminho parecia incerto. Essa tal de paixão devia ser coisa que se abatia sobre poucas pessoas.

Quando achou o poema certo, copiou tudo.

Por fim: flores. Enviou as mais belas flores que encontrou. Juntou as moedas da mesada e pensou quantas revistas em quadrinhos valiam uma rosa.  

Se era para ser ridículo, seria por inteiro.

De fato, foi como sentiu depois:  ridículo.

Nunca houve resposta. A menina que tanto o atraía mudou de lugar na sala. Ficou mais longe dele. Até o simples “oi, bom dia” que finalmente havia arrancado dela e que lhe dava esperança, cessou. Quando tentou lhe dirigir a palavra para perguntar se ao menos havia gostado das flores, recebeu as costas. O que era frio, tornou-se gélido.

O menino sentou sozinho no pátio e refez seus passos. Não sabia o que tinha feito de errado. Uma grande decepção invadiu seu peito. Ficou surpreso ao constatar que havia espaço no coração tanto para a decepção como para o carinho que sentia. Não entendia porque as pessoas queriam sentir isso e falavam tanto no assunto. Essa tal de paixão… isso não era coisa boa.

Ele jurou que nunca mais repetiria isso. Nada de poemas. Nada de flores.

Ficou olhando de longe para aquela menina por mais alguns dias sem saber o que falar. Mas também não seria necessário, afinal ela nunca havia retribuído o olhar.   

Logo em seguida, sua hipnose trocou de escola.

E o garoto ficou triste. Pelo menos já estava acostumado em tê-la por ali, mesmo que longe.

Nunca mais sentiria isso. Melhor ser um eremita.

E estava decidido a manter sua promessa quando andando na rua seus olhos cruzaram com olhos belos e  faiscantes. Ele e a menina ruiva pareciam ter a mesma idade. Ela sorriu e esperou. Mas seus gestos esboçavam um convite mesmo que silencioso. O garoto se aproximou e sem saber direito o que falar, decidiu se apresentar.

A primeira conversa dos dois foi desastrada e atropelada. Mas foi a primeira de muitas que teriam a partir dali.

E quando deram o primeiro beijo, bem no alto daquele terraço, ele pensou que nunca mais teria espaço para as revistas em quadrinhos; porque tudo agora se resumia aos poemas e às flores.

Infinitas  flores.    

_____________________________________________

de Manuel Sanchez, “Amor de Menino” 

 

apaixonado

 

 

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