Crônicas e Afins: Sobre Paixões e Charutos


Chego em casa depois do trabalho e minha mulher ainda não está. Nossa cachorra se joga em minha direção da mesma forma escandalosa que faz todas as vezes, mas comigo é sempre menos intenso do que quando ela recebe minha esposa. Com ela é sempre uma festa. Não esconde a preferência. Cachorros são sinceros nos seus afetos.

Não é que tenha ciúmes, mas o elo entre as fêmeas parece ser muito mais intenso do que comigo. Nossa cachorra é um bichinho simples mas absurdamente temperamental. Se chego e não brinco com ela pelo tempo que ela mesma estipulou como necessário, começa a me seguir pela casa latindo alto e reclamando.

Vou andando e fazendo as minhas coisas e lá vem ela pulando e rosnando e latindo e brigando até ter minha atenção indivisa.

Tenho que parar tudo e rolar no chão com ela por alguns minutos. Os pêlos na roupa nunca são opcionais.

Depois que ela mata as saudades,  eu acho que tenho o direito de relaxar e  pego uma dose de whiskey. Vou acender meu charuto na varanda. O primeiro gole é sempre o mais saboroso. Assim como a primeira baforada. Vícios e prazeres são sempre melhores no ineditismo das sensações. O encontro original e nunca repetido dos afetos.

Existe alguma coisa no hábito que consome a gente. Como o o fogo lento que consome a bucha do charuto. Por melhor que seja o bouquet do tabaco, do melhor tabaco, a repetição gera um certo descomprometimento com a atenção. Rotina que amorna. Congela. E peças frias se quebram.

No que serve para charutos e bebidas há um paralelo com relacionamentos. Todos eles. Qualquer um deles.

Paixões explodem na ignorância do corpo. Na falta de referências. Nas estréias. Ineditismo de pele e do tom de voz. Esperança de orgasmos ainda não vividos. Pontos de vista expressos por uma boca que você pouco conhece. Paixões surgem equilibristas nas cordas do precário. Pertencem à imaginação. Artistas de um circo que se conhecem dando saltos sem redes. Adrenalina no ar. Adrenalina do corpo. Como a fumaça de um bom charuto baforado ao vento. Aquela fumaça dançarina que sobe pelas narinas e fica impregnada na barba e nos cabelos. Cheiro que cola no corpo igual uma tatuagem.

Minha cachorra detesta o cheiro do meu charuto. Quando fumo na varanda ela fica de longe e briga. Late e rosna até eu acabar e entrar em casa novamente. De nada adianta falar de ineditismos e das paixões do precário. Ela não quer fumaças dançarinas.

E eu também. Quero o carinho talhado no hábito. A brincadeira do dia a dia. Os cuidados que pertencem à realidade. O compromisso de todo dia chegar e rolar no chão. Rotinas do solo. O tom de voz que traz segurança e conforto. Amor com referência.  Amor que cuida. Que escuta. Apoia. Perdoa. Amor que não se desfaz como fumaça. Amores do corpo.

Paixões que pertencem à imaginação me deixam irritado.

Abandonei as precariedades. Me amarrei em cordas firmes.

Carinhos do dia a dia.

Mas eu tenho um vício em charutos. E em fumaças. Dançarinas.

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Crônica “Sobre Paixões e Charutos”, de Manuel Sanchez

 

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