Crônicas e Afins: Força e Honra


Força e Honra 

(Manuel Sanchez)

 

Sentamos na mesa mais afastada para não atrapalhar os demais fregueses. Eu sei o quanto a fumaça dos charutos pode incomodar aos demais e um pouco de gentileza no mundo não faz mal. Gentileza é um trato esquecido nos tempos atuais de grosseria e vulgaridade. O bar tem uma música ambiente baixa, permitindo a conversa. Nada daqueles sons que explodem no seu ouvido feito para preencher o silêncio que desafia quem não tem o que dizer. Prefiro assim. Gentilezas. Meu amigo está nervoso e falando de forma mais apressada que o normal. Não gosto de vê-lo dessa forma. Não gosto de ver as pessoas perdendo o prumo e a razão, como barcos soltos em um mar revolto. Perda de direção.

O garçom traz as duas doses de praxe e eu estendo um dos charutos. Meu velho amigo pega um robusto. Eu faço o furo e entrego. Seus cabelos estão aceleradamente brancos, o lábio meio trêmulo sob um olhar abatido. Parecia derrotado. Não o via há algum tempo. A imagem me surpreendeu. Uma tela muito ruim. Perda de força.  

– Ela me largou. – ele diz com os olhos mareados – ela me largou e mentiu. Disse que ia ficar do meu lado e mentiu. Está tudo desabando e ela me largou. Tudo desabando… de novo. Nada fica.

Meu amigo coloca o charuto rapidamente na boca e usa meu maçarico metendo a chama diretamente na capa do robusto com pressa. Enquanto ele solta a fumaça consumido por um desespero que não consegue esconder, eu estou sentindo o aroma do charuto antes de acendê-lo: tem um cheiro de terra.      

Ele começa a falar sobre a vida. Sobre mais uma paixão fracassada. Outra mulher que entrou em sua vida e na qual se jogou de cabeça, sem amarras e freios. Poucos meses depois, a explosão de decepção estilhaçou detritos na sua cara. Sujou o coração. Implodiu a autoestima. Ele coloca a culpa na impaciência da moça. Que havia prometido estar ao seu lado. Havia prometido companheirismo. Perda de foco.

– Ela mentiu. … mentiu! Sempre assim, não dá para confiar. Uma mentira atrás da outra. As pessoas pedem para você confiar nelas e aí te largam.

Bebemos uns goles e eu pego o isqueiro. Segurando o charuto com uma mão, vou aproximando o maçarico e rodando o robusto até toda a borda  estar encandecida. Depois levo à boca e puxo a primeira fumaça. O fluxo vem rápido. Gosto de terra bem forte. É bom. Mas eu prefiro o gosto que vem no segundo terço do charuto, quando o tabaco já aqueceu e a fumaça já transitou pelas folhas.

Depois ele emenda sobre o pai. Ainda moravam juntos. Seu pai jogava na sua cara a decepção pelo fato de ainda estar dependente. Como um adolescente inútil. Como um fracasso. Não era um homem fácil. Desde a infância eu sentia um sensação ruim quando encontrava seu pai. Era um homem que falava na base das patadas, com uma visão de mundo hostil a qualquer sensibilidade. Tinha cara de cavalo, relinchava alto como um. Mas não que falasse mentiras.

– Toda hora tem que me lembrar que na minha idade já tinha a própria casa, três filhos e responsabilidades. E toda hora me chama de fraco. Diz que sou um peso. Que se fosse homem de verdade já teria me virado. Que sou o ultimo dos filhos dele que é dependente. Por isso meus irmãos foram embora! Ninguém aguenta o meu pai. É culpa dele! Desde pequeno tratando a gente como bicho. Mas eu cresci naquela casa! Eu sou dono dela também, não sou?

Perda de independência.

– Mas a culpa é dessa crise! Está difícil se manter no emprego! Me mandaram embora de novo no mês passado. E meu chefe falou que não sou pró-ativo! Eu contava com isso para quitar as dívidas…. o banco continua ligando. Eu nem atendo mais esse telefone por culpa do meu chefe. Se ele não tivesse me despedido eu estaria bem melhor. Pró-ativo….

Perda de potência.

Os olhos dele são de raiva. São de decepção. De falta de entendimento de como as coisas chegaram até ali. Falta de compreensão sobre o giro do mundo. Os últimos anos não estavam sendo fáceis. Nunca foram. Mas ultimamente as coisas estavam mais mergulhadas no estrume do que o usual.

Lembramos juntos todos os inúmeros planos que montávamos quando jovens. E ele se lastimava de ver os amigos seguindo em frente, conseguindo realizar um sonho aqui e galgar outro degrau acolá. Mas ele continuava parado. Inerte. Preso. Engaiolado. Não era inveja. Ele queria ver o sucesso dos antigos amigos, mas era inundado por uma sensação de que arrancaram as suas pernas. Na linha de partida, todo mundo correu e ele ficou – ele me disse – sequer ouviu o tiro de largada.  

Chego no meio do charuto. O gosto está mais intenso. A fumaça preenche a boca. Tem uma fortaleza boa, bem encorpada. Combina com o Bourbon que desce redondo na garganta. Peço outra dose para a gente. Meu amigo diz vezes seguidas que vai me pagar assim que se restabelecer. Não precisa disso, eu respondo para ele não se sentir por baixo. O cobertor de fumaça nos cerca. Tomo outro gole. Essa combinação tem um poder incrível. Solta os animais.  

Ele precisava tirar aquilo do peito. Tinha um animal selvagem arranhando o coração com as garras da pestilência. E os dentes do ressentimento não paravam de rasgar sua carne. Era culpa da crise. E do pai que não o apoiava. Não parava em emprego algum, as dívidas se avolumavam. Era culpa das moças, uma após a outra, que não o aceitavam, que mentiam, que desistiam dele. Era culpa das pessoas que não tinham paciência. Era culpa das chances que não apareciam. O sujeito que o enganou e ele perdeu o dinheiro daquele incrível negócio que iria mudar tudo. Quando a sorte parecia que ia bater à sua porta, foi sequestrada. Abduzida pelo destino que insistia em tirar dele as coisas que ele declarava abertamente que merecia. Ou assim era que ele achava. Perda de visão.

Quando a lágrima que ele teimava em prender desceu envergonhada pelo rosto foi o sinal de que sua metralhadora giratória de ressentimento tinha superaquecido. Lutador que se apoiava nas cordas.

Tomei uma baforada mais longa. Era hora de entrar no ringue.

Precisamos de amigos que nos deem um soco na cara de vez em quando. E escolher quem nos dá o murro é a diferença entre mergulhar no papel de vítima ou sair do poço de merda no qual enfiamos a cabeça. O mundo precisa de gentilezas. Desesperadamente. Mas também de momentos de crueza sincera. E só um amigo – calejado pelo tempo – consegue discernir a diferença da crueza sincera para a crueza que apenas nos diminui. Manter os amigos testados pela idade e pelas dificuldades tem o poder de mudar os pesos da balança.

Força e Honra. Era do que ele precisava ser lembrado.

Força e Honra. Eram fibras que faltavam em sua alma.

Força e Honra. Não são elementos que o mundo te entrega carinhosamente; mas combustíveis que plantamos em nós, para enfrentar este mesmo mundo. Elementos que nos moldam. E que nos enrijecem.

Meu amigo estava cansado nas cordas. Vítima. Mergulhado em desculpas. Fraco. Os socos deveriam ser brutos. Ter pena naquele momento não seria gentileza, mas demonstração de falta de amizade. E faltar com a  honra de uma amizade era uma desonestidade que eu não faria.

Ele oscilou entre incompreensão e raiva contida. Mas ouviu. Às vezes respondia ofendido, mas depois se calava e continuava escutando. Nós dois sabíamos a razão de após tanto tempo sem nos encontrarmos pessoalmente, ele havia me chamado para o ringue. Eu estava ali de corpo e de alma. Não confiamos em qualquer um para desferir socos na nossa cara. Amizades calejadas pelo tempo são escolhidas para colocar os jabs de esquerda bem na ponta do queixo quando precisamos. Quando chamados para a missão, amigos atendem.

Acendemos outro charuto.

Força e Honra. Ele havia esquecido nosso lema. Deixou-os de lado em alguma curva do caminho. Manteríamos o lema dos cavaleiros, recorda isso? Um grupo de moleques decidindo o tipo de homens que nos esforçaríamos para ser, enquanto bebíamos coca-cola e tentávamos entender as regras que nos explicariam o mundo.

Mas o mundo não tem regras. E nem rotas pré-estabelecidas. Sequer notas de roda-pé. Não existem valores transcendentes. Apenas aqueles que você adota para si.  

Cabe a você levantar-se pelos valores que quer defender. Cavaleiros. Decidimos que montaríamos nossa Ordem. Uma Ordem agindo segundo valores das antigas fortalezas. Lamentaríamos pelo mundo se tais valores tinham sido diluídos pela maioria burra.

Armadura de resiliência. Retidão de caráter. Honra nos atos como uma espada a proteger quem não tivesse forças para tanto. Honestidade no agir e no falar. Firmeza nos passos ainda que andando em corredores escuros e, acima de tudo, assumindo as consequências dos próprios atos. Força e Honra.         

Em algum momento ele viu que eram valores pesados de carregar e preferiu a fluidez e a leveza que não se importam com responsabilidade de seus atos. O mundo exigia flexibilidade, ele decidiu. Inclusive em sua hombridade.  

Preferiu se juntar ao grupo crescente de adultos que vivem como adolescentes mimados em um mundo ilusório de festa. Frouxos. Querendo fugir das responsabilidades. Fracos que tentam se afastar das consequências de suas escolhas e atos. Olhando em volta… por que não se misturar com a maioria? É tão mais simples. A maioria parece tão despreocupada e feliz, ainda que se filiem nas falanges da vulgaridade, da pressa e da descortesia.  Seguir como uma manada. Repetir o que se escuta sem reflexão.

É cômodo culpar a família que não deu apoio. Ou as dificuldades que destruíram alguns planos nos seus nascedouros. A zona de conforto do vitimismo é ampla e macia. Um local cálido para repousar e culpar o mundo por tudo o que nos ocorreu; que recebe o fraco sempre mergulhado no mar de seus fracassos querendo apontar o dedo para um terceiro enquanto nada de braçadas no meio do estrume da falta de decisão.

Você nunca terá controle sobre todas as coisas que te acontecem; ninguém consegue. Isso é fato. Muitos problemas e rasteiras podem estar no caminho. Mas você é o único responsável pela maneira como vai reagir a elas. E entender isso é maturidade.

Não existe pensamento mágico. Nem tudo irá dar certo. Querer é uma mola propulsora para a ação; e sem ação não existirão conquistas. Mas não há garantias. Ver planos desfeitos faz parte. Aprender com os fracassos e saber recomeçar, isso é sabedoria.

Há que se ter força interior para lutar. E ao lutar podemos nos ferir. Não busque culpados pelos seus cortes. Não banque a vítima porque perdeu uma luta. Treine. Esforce-se. Treine mais. Temos uma guerra inteira para travar e o armistício só virá quando expelir o último ar quente de seus pulmões.

Ficamos calados pela próxima dose do Bourbon.

Os charutos terminaram.

Meu amigo me abraçou e entrou no táxi voltando para casa, sem falar muito depois da luta.

Não existem valores esculpidos na rocha. Éramos um bando de moleques quando decidimos escolher os valores pelos quais iríamos crescer e nos guiar. Escolhemos ser uma Ordem de Cavaleiros, mesmo que cercados  em uma terra de vulgaridade e frouxidão.

É difícil viver pela armadura e pela espada reta.

Os melhores cavaleiros tem seus dias de dúvida e de fraqueza. Atender ao chamado de socorro na hora mais negra é solidariedade.

Lutar lado a lado é amizade.

E as amizades verdadeiras são sinceras em sua dureza. Calejadas pelo tempo. Desde os tempos das Fortalezas. Irmãos de armas.

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Crônica  “Força e Honra”, de Manuel Sanchez

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Autor: Manuel Sanchez

Leitor compulsivo, amante das viagens e da boa mesa. Sou um sujeito que acredita no charme da simplicidade, que riqueza é ter tempo e que se esforça para passar longe da vulgaridade.

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