Anotações órficas: criaturas de hábitos

Não existe atalho na vida e nem segredo revelado por guru. 

Se quiser progredir em qualquer coisa tem que ir lá e fazer a mesma coisa e repetir repetir repetir até ficar perfeito. Muitas vezes será tedioso e solitário. Os resultados expressivos demoram a aparecer e você vai ter a impressão de que não está saindo do lugar.

Quer melhorar de saúde, treine todo dia. Quer maestria em um instrumento, treine todo dia. Quer aumentar o patrimônio, corte gastos supérfluos e invista sempre de pouquinho em pouquinho em bens de valor a cada renda auferida. Quer aquela profissão tão almejada, estude e se credencie dia a dia. Quer manter um relacionamento sério e sadio, cuide dele todo dia e não apenas nos aniversários e dia dos namorados. Parece uma coisa tola, simples. E por isso mesmo é tão negligenciada. 

Progresso vem de atos do hábito. Do treinamento. Do cuidado diário. O talento invariavelmente amadurece no exercício. E o esforço e a prática ensinam para os diligentes sem o talento natural. Hábito. Exercício. Cuidado diário. Paciência. 

Foque no processo. O resultado é uma consequência. Foque no processo e esqueça se os passos estão sendo pequenos ou largos. Foque no processo e não se importe com as opiniões alheias. 

A idéia de que haverá um segredo mágico, uma paulada vencedora, um atalho dos espertos é apenas um canto de sereia para afogar os incautos e os preguiçosos.

Normalmente os perseguidores de atalhos e crentes em soluções mágicas terminam com nada nas mãos, invariavelmente destruindo o que possuem e frequentemente com inveja e sem entender as conquistas das criaturas diárias do hábito.

– Manuel Sanchez, “Criaturas de Hábitos”

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Anotações Órficas: afogados sem sabedoria

Existe um oceano imenso de conhecimentos e opiniões nos livros. Atuais e clássicos. Professores que estão ao alcance das mãos. Mestres de outras eras para nos iluminar muitos caminhos. Faróis para navios perdidos. Bálsamo para corações feridos. Fonte de resiliência para costas chicoteadas.

Triste ver um imenso número de pessoas dando-lhes as costas . Mergulhados em bolhas rasas. Perdidos em discussões estéreis das redes sociais. E usando bóias protetoras para não serem constrangidos por opiniões contrárias.

Tanto conhecimento. Tão pouca sabedoria e bom senso.

– Manuel Sanchez

Anotações Órficas: choffeur do próprio corpo

Tenho pensado sobre o eu. O ego. O princípio consciente. A alma. Chame como quiser, mas entenda que estou me referindo a esse bem intangível que a maior parte de nós entende ser o verdadeiro principio da individualidade. Algo imaterial que possuímos em algum impulso elétrico do cérebro, dentro dessa caixinha entre nossas orelhas e que com o qual gerimos nossa vida.

Pergunte por aí e a maioria responderá que nossa mente é como um motorista da matéria, uma espécie de choffeur do próprio corpo. A consciência sendo nosso verdadeiro eu e nosso corpo como algo que possuímos. Nós falamos em “meu corpo”, mas não em “meu eu”, justamente por confundirmos o “eu” como nossa própria essência e o corpo material como algo ocupamos como posseiros por um tempo mais ou menos longo.

A confusão é justificável. Afinal, nasça com uma deformidade física e sua consciência e personalidade terão desenvolvimento normal. Perca um braço ou uma perna em um acidente, fique cego com o passar tempo, desenvolva alguma dificuldade ou impossibilidade de mobilidade, e ainda assim sua consciência e personalidade estarão preservadas. Mas se alguém sofre um trauma sério na caixinha entre as orelhas ou uma degeneração de suas células, verifica-se que existe grande chance de perder a essência deste “eu”: um corpo são com uma mente doente, um carro sem choffeur.

Realmente parecemos ser uma força imaterial ocupando o corpo e lidando com suas vicissitudes. Motoristas passeando em seus veículos.

As religiões reforçam esse entendimento com sua dualidade entre alma e corpo. O discurso de que somos uma alma encarnada provisoriamente no interior de um corpo aguardando o momento de sua libertação. A filosofia também não fica atrás, defendendo que nosso elemento racional é a essência a ser glorificada em luta contra apetites e decrepitudes do corpo. O argumento do piloto de corpos em sua versão laica e religiosa.

Mas existe algo estranho nisto. Mais uma ilusão confortável na qual nos estabelecemos sem pensar muito. Não temos controle sobre nosso corpo.

Neste exato momento, uma infinidade de processos estão ocorrendo em nossos corpos dos quais não temos qualquer percepção consciente. No plano da mente, inúmeros processos estão ocorrendo no nível abaixo da consciência quando estamos despertos ou desligados pelo sono. As células de todos os órgãos do corpo estão passando por destruição e recriação constante sem qualquer escolha consciente de nossa parte e – na média – a cada 7 anos nosso corpo é reconstruído, ainda que preso em um processo de envelhecimento. Nossa mente abandona no lixo da perda da memória a maior parte do que ocorre no nosso dia, ainda que contra nossa vontade consciente. Não escolhemos esquecer as memórias da primeira infância, mas é um processo mental bem catalogado. Apagamos memórias devido a traumas. Recriamos versões e memórias ao contar como ocorreram catástrofes, perdas e separações. Somos surpreendidos com a volta de lembranças a muito esquecidas nas caixas da memória quando colocados em determinadas situações, sem que tivéssemos qualquer previsão disto.

Em todos esses exemplos, muito pouco ou mesmo nada controlamos. Sequer percebemos. Nossa consciência é um item menor no avançar do corpo neste mundo. Nossa mente, consciência, eu, ego… apenas estruturas que se desenvolvem, calam, adoecem ou apagam no corpo. Fruto do corpo. Indissossiável do corpo. Assim como o pulmão, o coração, as pernas ou a orelha não existem como um bem autônomo andando pelo mundo sem a presença do corpo.

Já postulava Demócrito que nossa mente não era separada do corpo, mas apenas uma das muitas demonstrações e interações do corpo no mundo. Mente e corpo apresentados não como elementos separados, em uma relação de hierarquia; mas como um uníssono. Sem plano das Idéias. Sem Mundo das Formas. Sem razão absoluta. Sem corpo inferior. Não por acaso, Platão defendeu que todos os livros de Demócrito – contemporâneo seu e de Sócrates – fossem queimados.

Quase dois mil anos passaram-se para Espinoza surgir advogando que os afetos e reações do corpo determinam nossas ações; e que nossa razão chega depois, atrasada, apenas para justificar para a consciência aquilo que decidimos na inconsciência de processos mentais afetados por desejos, apetites, medos, constrangimentos, recalques, vontades e paixões. Depois vem Nietzsche demonstrar que nosso eu consciente é apenas um farol iluminando rapidamente uma pequena porção de um oceano tormentoso, à noite. Sendo nossa mente e os processos do corpo o oceano sob o véu da noite, em dia de chuva, e nossa consciência um pequeno farol de ilha tentando tatear algo discernível no meio das ondas. Algo pensa em mim, disse ele. O que os outros escreveram em insights, Freud descreve através de análises de seus pacientes. E termina da mesma forma que os demais: não somos senhores em nosso próprio castelo.

O eu estaria assim longe de ser motorista. Seríamos mais um passageiro. Com vislumbres do caminho. Assumindo algumas mudanças de marcha e apontando no GPS alguns destinos.

Tal pensamento recoloca a mente como função do corpo e nos afasta do ideal dualista (mente/corpo – alma/corpo – alto/baixo – pensamento superior/matéria), retirando a supremacia da razão.

Contudo, existe uma imensa pedra neste caminho que se transforma em uma montanha de determinismo. Onde estaria o livre arbítrio? Existiria o livre arbítrio? E como sair do vitimismo se não tivermos o controle das decisões?

Uma conversa para a próxima anotação.

(Manuel Sanchez – Anotações Órficas: choffeur do próprio corpo)

Anotações Órficas: a ilusão

Anotações Órficas: A Ilusão

(por Manuel Sanchez)

 

Todo o sistema que criamos para movermos neste mundo é  uma ilusão. Todo o sistema: relações de sexualidade, formas de poder, estruturas de governo, controle monetário, relações de divisão de renda, estruturas religiosas, critérios de liberdade de pensamento, grau de independência de nossas ações, formas de punição, maneiras de humilhação e marginalização. Todo o sistema.

Inseridos que somos neste determinado emaranhado de relações sociais, com seus signos e significantes dados como verdades absolutas gerações antes do nascimento das gerações que nos antecederam , com comportamentos seletiva e arbitrariamente estabelecidos para beneficiar grupos específicos mas passados de geração em geração como normas inquestionáveis.  

Formados por nossos familiares e moldados pela vida social, os primeiros anos das nossas vidas são uma doutrinação diária. Aprendemos a ver e a reagir ao mundo como nos é imposto desde mesmo antes de formularmos as primeiras palavras.

A verdade de tal formulação social é tao reiterada e fortalecida pelas pessoas que amamos e instituições das quais fazemos parte que  – muitas vezes – torna-se incogitável a simples proposição de que o mundo e suas verdades são apenas uma das inúmeras configurações possíveis; tão arbitrária e casual como qualquer outra, apenas solidificada pela força do agir diário da maioria.

De fato, a maioria de nós permanecerá até o túmulo vivendo com esse código e sem questioná-lo. Pouco importa aqui que se tal código a fere, exclui ou humilha. É o código. É a estrutura. É a lei. É a palavra de Deus. São os valores familiares. É a tradição. Ensinamentos reiterados e fortalecidos pela família, amigos, empregadores, pastores, midia… em algum momento talvez a pessoa tenha uma ansiedade, uma dor, uma dúvida… mas a maioria não tem forças para sair dessa ilusão. A maioria sequer imagina que vive inserido em uma ilusão. E morrerá assim. 

 Mas alguns indivíduos desconfiam. 

Alguns olham ao seu redor e se questionam. 

Nem todos levarão essa questão para o plano das ações divergentes. Muitos irão perceber o holograma em que vivem e irão se proteger do conformismo com as armas do cinismo e do distanciamento. Juntos com as armas da visão crítica, perceberão as amarras arbitrárias. Criarão seus feudos, participarão de pequenas tribos.  Uma boa parte deles conseguirá manter a máscara no meio dos cegos, sabendo que sua vela não os deixará na escuridão. Lamentarão pela horda de zumbis. Seguirão com suas vidas. Às vezes encontrando um ou outro irmão de pensamento. 

Outros não conseguirão conviver com esse comportamento. Aos seus olhos isto seria um egoísmo. Sua chama os obrigará a levar a luz para os zumbis presos na ilusão do holograma.  Precisam fazer isso pelos outros mas sobretudo por si mesmos. Desejam tão ardentemente modificar as regras estabelecidas na pedra que, não raro, irão arriscar-se a serem marginalizados e agredidos.   

Estes últimos sofrerão mais. Mas sem eles a manada nunca evolui. Um passo de cada vez, para fora do holograma.   

Dia de São Sebastião. Dia de Oxóssi

O Padroeiro do Rio de Janeiro é um santo católico flechado. São Sebastião. Derrotado em martírio.

O Rio de Janeiro foi o maior Porto de venda de escravos da história. Nem no período do império Romano existiu cidade que tratasse maior quantidade de pessoas escravizadas. O rio de janeiro foi a maior cidade escravocrata da história da humanidade.

Os negros escravizados do Rio de Janeiro cultuavam Oxóssi na figura de São Sebastião. Oxóssi nunca foi derrotado. Oxóssi defendia as matas e seu povo com o arco e flecha. Oxóssi é o orixá que está sempre pronto para a defesa e resistência.

Podem quebrar o seu corpo. Mas nunca irão conquistar sua alma.

Deve ser um dos grandes eventos de processo de ressignificação de símbolos no sincretismo brasileiro.

Oke Aro! para quem é da flecha.

– Manuel Sanchez