Anotações órficas: coração de templário

O segredo é não ser reativo. Manter-se no seu “frame”. Código estóico no agir e ações espartanas na alma. Não podemos controlar muitas coisas, mas podemos sempre ser donos de nós mesmos e de nossas reações. Existem tempestades que não passam mas nunca incorpore o discurso de vítima. Foco no pensar. Retidão no agir. Mantenha um pequeno veneno por perto para adoçar. Coração de Templário. Respire.
Manuel Sanchez

Crônicas e afins: O demônio levantou ao meio-dia (manadas)

Seguir a manada é a norma. Mas opor -se à manada cria apenas um segundo rebanho de comportamento previsível e igualmente programado. Apenas afaste-se. Afaste-se das manadas e não determine-se seguindo-as ou opondo-se a qualquer tipo de rebanho. Todos são programados: os prós e os contras. Afaste-se e pense por si.

– trecho de ” O demônio levantou ao meio-dia” , Manuel Sanchez

Crônicas e afins: Sacrifício ao Deus Sol

Sacrifício ao Deus Sol
(Manuel Sanchez)

Choveu na noite anterior. Choveu forte e os planos do fim de semana ficaram em suspenso. Eles sonharam com aqueles dias juntos… chuva….

Na madrugada ele buscou seu corpo pequeno na cama. Puxou-a para perto de si e montado sobre seu corpo a beijou profundamente.

Dizem que em tempos remotos as tribos faziam sacrifícios para o Deus Sol afastar o mau tempo.

Ela era a mulher mais linda que vira. O ser mais delicado que tocara. Seu calor o inundava de alegria.

E naquela madrugada chuvosa ele fez o seu sacrifício ao Deus sol. Com ela. Com seu corpo. Com sua paixão.

Sacrificou seu medo de se aproximar. Sacrificou seus receios de dividir uma vida a dois. Sacrificou sua pose distante. Sacrificou sua autosuficiência e seus silêncios.

Entregou todo o seu ser à ela. Sua consciência e seus planos. Em sacrifício ao Deus sol. Chovia naquela madrugada.

Amanheceu o dia. Um dia de sol esplendoroso. O astro rei havia aceito as oferendas.

Foi o melhor dos dias de sua vida. E nunca mais se separaram. Faça chuva ou faça sol.

Crônicas e afins: o demônio levantou ao meio-dia

Enquanto tomava seu café quente tudo o que pensava era em como se manter funcional. Era uma vitória minuto a minuto. Trabalho, academia, a atenção diária à sua menina… ele mantinha o padrão; mas cada vez mais longe. Os músculos doíam pelo esforço de manter a normalidade. O trabalho não o importava. A academia era como escovar os dentes. E sua menina o alertava em como odiava situações mornas. As vezes ela o xingava, raivosa com a situação. E ele pensava em como se manter funcional. Minuto a minuto. Por dentro sentia -se morto. Se um acidente ocorresse… Deus, se um acidente ocorresse seria um ato de misericórdia. Porque nada mais fazia sentido. Correr na avenida principal do bairro a 200 km/h e esquecer de frear. Um erro na limpeza da pistola… Um ato simples resolveria. Ela falava todos os dias que estaria ali com ele. Apoiando. Um apoio que virava desabafo e discussão porque a resposta não vinha… ele queria abraça-la. Sentir o calor do corpo dela. Ela tinha os olhos mais sorridentes que ele já vira. Linda como a noite que tanto amava. Por ela havia esperança. Com seu humor aberto. Rosto de criança. Ele sabia que estava doente. Por dentro. Nos pensamentos. O que um homem faz quando seus dias ficam amargos?

– trecho de “O demônio levantou ao meio-dia” , Manuel Sanchez

Crônicas e Afins: Catatau, o sábio

Crônica “Catatau, o sábio”

(de Manuel Sanchez)

 

Catatau tinha 1,20m e era o menor menino na sua sala. Menino quieto, tranquilo, aprumado com seus mangás e videogames, lia um livro por semana. Seu avô achava que ele era veado. Os livros eram um objeto mágico, Catatau pensava, com quem podia conversar com pessoas falecidas há tantos séculos: uma espécie de sessão espírita daquelas que sua mãe ia para falar com gente morta e pedir conselhos. Catatau tinha seus conselhos a cada página. No quesito gente morta, cada um escolhe o seu lote.

Um dia a professora chamou todos os alunos e mandou que fizessem uma apresentação: diga o que você pretende ser quando crescer. Exercicio clássico: como beber whiskey vendo meninas seminuas no pole dance ou comer queijo com goibada. Cada um escolhe seu lote.

A menina gorda queria ser modelo. O garoto magrelo queria ser jogador ou halterofilista. A garotinha bonita queria ser executiva de empresas internacionais. O menino com cara de tarado queria ser policial militar  e o melhor amigo dele queria ser black block. Uma menina queria ser freira. Outra, uma aeromoça. Um deles queria ser rico. Só rico. Outro desejava ser famoso. Só famoso. A menina de cabelo afro: cantora.  Tinha um menino efeminado que queria ser operador da bolsa. Cada um escolhe o seu lote.

Catatau foi na frente da sala e disse que queria ser sábio.

O risos explodiram. As ironias também. Os bullies marcaram o pequeno Catatau. Lembre-se disso, pois a chave da história está aqui. Os bullies marcaram o pequeno Catatau. Catatau, o sábio, falavam rindo do pequeno e raquítico.

Tudo bem querer ser famoso. O mundo estimula querer ser famoso. Ser rico é o alvo de todos. Dinheiro é bom e ser operador da bolsa é um charme yuppie. Ser religioso é legal nas palavras e todos respeitam. Quem não quer proteção divina? A transcendência nos tira tantas responsabilidades. Ser black block também parece legitimado porque violência dá ibope em um mundo que estupra a paz de espírito. Mas querer ser sábio é ridículo.

O sábio tenta apreender as relações em um mundo que quer o automatismo. Olha todos os segmentos e pondera em um mundo de memes em redes sociais e frases sem contexto. Não é veloz em um mundo que quer a obsolescência ligeira. O sábio escuta e deixa cada um seguir seu caminho em paz. O sábio não quer impor porque entende que cada um está em seu estado evolutivo. Nem todos que escutam,  entendem. Nem todos que veem, enxergam. É paciente. Está disposto a ouvir o contrário. Opta primeiro pelo diálogo. Não vê problema em mudar de opinião. Não é uma questão de ofensa pessoal.

Catatau queria ser sábio. Não tinha pressa. Era um objetivo. Ele sabia que não era sábio. Era burro feito uma porta. Não sabia nada. Mas sabia que nada sabia. Fazia perguntas. Estava no ponto mais distante da sabedoria. Mas seu objetivo era esse.

E por que não? Quanta gente preconceituosa, castradora e egoísta se diz religiosa… Talvez eles precisem da religião para sair de seu casulo de maldade, incompreensão  e estupidez. Perseguir um valor é um destino. Ter fé em algo que achamos importante não nos apruma para que já consigamos realizar todos os seus atos. É uma viagem. Não significa que já estejamos no final da jornada. É um objetivo. E temos uma vida inteira para seguir o caminho. Caminho que não tem mapa. Não tem regra. Não tem dez mandamentos. Fodam-se as transcendências.

No final da aula, no caminho para casa, Catatau apanhou feito boi ladrão.

Os bullies o jogaram em uma caçamba de lixo no primeiro dia.

Depois pegaram sua mochila e jogaram em um lixão perto da escola.

Na semana seguinte, Catatau correu toda a avenida mas quando cansou os bullies o pegaram. Ele apanhou. De novo.

A mãe de Catatau foi ao colégio reclamar.

No final da aula, Catatau apanhou.

O pai de Catatau foi reclamar. Pegaram Catatau no futebol e deram tanto carrinho que o menino foi ao médico.

Catatau queria ser sábio. Catatau era humilhado diariamente no colégio.

Mas o sábio não vive no mundo das idéias. Transcedências tolas e valores absolutos? Não para ele.

O sábio é Aristóteles. O homem virtuoso que sabe como agir no caso concreto, no dia a dia, adaptando-se.

O sábio é Zé Pilintra. O malandro que sobrevive sendo perseguido: terno completo branco, gravata grená e chapéu panamá.

O sábio é malandro.

O sábio vive na fresta e se adapta.  O sábio é grego e clássico. O sábio entende o catimbó do nordeste.  O sábio vive no seu tempo.

Catatau queria ser sábio.

Na semana seguinte, um dos bullies estava sozinho na rua. E gente covarde só anda em bando. Mas esse bullie estava sozinho. Fraqueza a ser explorada.

Catatau era Zun Tzu. Catatau era Maquiavel. Catatau queria ser sábio. Sabia o valor do diálogo mas não se iludia. Catatau era filho de Ogum. Criado na realidade da periferia sabia que a violência tinha o seu valor. Tem ebó que é branco. Tem ebó que tem sangue. Existe quem vê e existe quem enxerga. São Jorge era guerreiro e matou centenas. Cada um escolhe seu lote.

O bullie estava de costas quando Catatau explodiu a barra de ferro em suas costas.

Ele já ficou paraplégico ali, no primeiro golpe.

Mas Catatau bateu. E continuou batendo. Barra de ferro triturando vértebras. Barra de ferro que não tem moral. Barra de ferro que se vinga de covardes. Barra se ferro que violenta os abusos. Barra de ferro de Ogum. Barra de ferro de quem escuta.  Barra de ferro de quem não perdoa.

Paraplégico no primeiro golpe.

Catatau queria ser sábio.

O colégio caiu. Reunião. Pais reclamando. Processos. Um menino violento feito um bicho colocando todos em risco. Um garoto perigoso. Criatura sem Deus. O psicólogo do colégio fez sessões especiais.

Na semana seguinte o colégio preparou uma expiação. Bode de sacrifício. Ebó de sangue para quem entende. Catatau tinha que pedir perdão na frente de pais, alunos e professores.

Microfone instalado. Um metro e vinte acima do solo.

Bullies ouvindo.

Pais horrorizados.  O menino paraplégico. Meninos que queriam ser bombeiro, policiais militares, ricos, famosos, modelos.

Catatau queria ser sábio.

O menino pequeno se aproximou do microfone.

Silêncio.

Sun Tzu. Maquiavel. Aristóteles. Ogum.

O colégio queria um pedido de desculpas. Que ele implorasse o perdão. Que se humilhe o sábio.  Menino paraplégico.

Catatau olhou alunos, pais e professores. Pegou o microfone.

– Eu quero agradecer. Agradecer a todos o que me mostraram o ódio, a perseguição e a falta de diálogo. Quero agradecer a violência com que me receberam. A humilhação. Quero agradecer a manada e o senso comum. A vida sem contemplação que estranha aqueles que perguntam. Quero bendizer os que aceitam as respostas simples. Quero agradecer o colégio e a tradição.

Ninguém entendeu nada. Onde estava a expiação? Onde a aceitação dos comuns? Onde estava a ode pela paz  e simplicidade?

– Mas existem grupos diferentes. Existe a diferença. Existem os que aceitam apanhar e seguir as normas cândidas do dever imposto por quem manda. E existe o meu grupo.

Nietzsche batendo palmas. Freud e sua pulsão de violência e morte.

– Eu não vou aceitar calado. E aviso na frente de todos: pais, alunos e professores. Eu só quero viver quieto. Mas se eu apanho depois eu vou atrás. E eu pego. E eu arrebento. Eu caço cada um. Cada. Um. De. Vocês.

Catatau foi vaiado.

– Eu não me arrependo de nada.

A mãe de Catatau chorou em público.

O pai do menino de um metro e vinte pegou o filho no colo e o tirou dali entre xingamentos e ameaças. A mãe, arrassada. O pai submisso, viveu um momento de orgulho. A família do bullie paraplégico, revoltada.

Catatau foi expulso do colégio.

Catatau queria ser sábio.

E talvez ele já fosse. Não o sábio do dever puro. Não o sábio de branco incólume. De conto de fadas. Platônico e que vive em um mundo de idéias perfeitas afastado da realidade.

Ele era o sábio das sete liras. O sábio da brecha. O sábio criado pelos olhos do subúrbio, da periferia. Pobre criado para ser ebó mas que fala o não. O virtuoso que avalia a virtude no caso concreto.

Existe sabedoria na revolta.

E existe revolta na vida.

E vida nos dias.

E nós só  vivemos os dias.

Um depois do outro.

Cada um que escolha o seu lote.

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Crônica, “Catatau, o sábio” de Manuel Sanchez