Anotações Órficas: choffeur do próprio corpo

Tenho pensado sobre o eu. O ego. O princípio consciente. A alma. Chame como quiser, mas entenda que estou me referindo a esse bem intangível que a maior parte de nós entende ser o verdadeiro principio da individualidade. Algo imaterial que possuímos em algum impulso elétrico do cérebro, dentro dessa caixinha entre nossas orelhas e que com o qual gerimos nossa vida.

Pergunte por aí e a maioria responderá que nossa mente é como um motorista da matéria, uma espécie de choffeur do próprio corpo. A consciência sendo nosso verdadeiro eu e nosso corpo como algo que possuímos. Nós falamos em “meu corpo”, mas não em “meu eu”, justamente por confundirmos o “eu” como nossa própria essência e o corpo material como algo ocupamos como posseiros por um tempo mais ou menos longo.

A confusão é justificável. Afinal, nasça com uma deformidade física e sua consciência e personalidade terão desenvolvimento normal. Perca um braço ou uma perna em um acidente, fique cego com o passar tempo, desenvolva alguma dificuldade ou impossibilidade de mobilidade, e ainda assim sua consciência e personalidade estarão preservadas. Mas se alguém sofre um trauma sério na caixinha entre as orelhas ou uma degeneração de suas células, verifica-se que existe grande chance de perder a essência deste “eu”: um corpo são com uma mente doente, um carro sem choffeur.

Realmente parecemos ser uma força imaterial ocupando o corpo e lidando com suas vicissitudes. Motoristas passeando em seus veículos.

As religiões reforçam esse entendimento com sua dualidade entre alma e corpo. O discurso de que somos uma alma encarnada provisoriamente no interior de um corpo aguardando o momento de sua libertação. A filosofia também não fica atrás, defendendo que nosso elemento racional é a essência a ser glorificada em luta contra apetites e decrepitudes do corpo. O argumento do piloto de corpos em sua versão laica e religiosa.

Mas existe algo estranho nisto. Mais uma ilusão confortável na qual nos estabelecemos sem pensar muito. Não temos controle sobre nosso corpo.

Neste exato momento, uma infinidade de processos estão ocorrendo em nossos corpos dos quais não temos qualquer percepção consciente. No plano da mente, inúmeros processos estão ocorrendo no nível abaixo da consciência quando estamos despertos ou desligados pelo sono. As células de todos os órgãos do corpo estão passando por destruição e recriação constante sem qualquer escolha consciente de nossa parte e – na média – a cada 7 anos nosso corpo é reconstruído, ainda que preso em um processo de envelhecimento. Nossa mente abandona no lixo da perda da memória a maior parte do que ocorre no nosso dia, ainda que contra nossa vontade consciente. Não escolhemos esquecer as memórias da primeira infância, mas é um processo mental bem catalogado. Apagamos memórias devido a traumas. Recriamos versões e memórias ao contar como ocorreram catástrofes, perdas e separações. Somos surpreendidos com a volta de lembranças a muito esquecidas nas caixas da memória quando colocados em determinadas situações, sem que tivéssemos qualquer previsão disto.

Em todos esses exemplos, muito pouco ou mesmo nada controlamos. Sequer percebemos. Nossa consciência é um item menor no avançar do corpo neste mundo. Nossa mente, consciência, eu, ego… apenas estruturas que se desenvolvem, calam, adoecem ou apagam no corpo. Fruto do corpo. Indissossiável do corpo. Assim como o pulmão, o coração, as pernas ou a orelha não existem como um bem autônomo andando pelo mundo sem a presença do corpo.

Já postulava Demócrito que nossa mente não era separada do corpo, mas apenas uma das muitas demonstrações e interações do corpo no mundo. Mente e corpo apresentados não como elementos separados, em uma relação de hierarquia; mas como um uníssono. Sem plano das Idéias. Sem Mundo das Formas. Sem razão absoluta. Sem corpo inferior. Não por acaso, Platão defendeu que todos os livros de Demócrito – contemporâneo seu e de Sócrates – fossem queimados.

Quase dois mil anos passaram-se para Espinoza surgir advogando que os afetos e reações do corpo determinam nossas ações; e que nossa razão chega depois, atrasada, apenas para justificar para a consciência aquilo que decidimos na inconsciência de processos mentais afetados por desejos, apetites, medos, constrangimentos, recalques, vontades e paixões. Depois vem Nietzsche demonstrar que nosso eu consciente é apenas um farol iluminando rapidamente uma pequena porção de um oceano tormentoso, à noite. Sendo nossa mente e os processos do corpo o oceano sob o véu da noite, em dia de chuva, e nossa consciência um pequeno farol de ilha tentando tatear algo discernível no meio das ondas. Algo pensa em mim, disse ele. O que os outros escreveram em insights, Freud descreve através de análises de seus pacientes. E termina da mesma forma que os demais: não somos senhores em nosso próprio castelo.

O eu estaria assim longe de ser motorista. Seríamos mais um passageiro. Com vislumbres do caminho. Assumindo algumas mudanças de marcha e apontando no GPS alguns destinos.

Tal pensamento recoloca a mente como função do corpo e nos afasta do ideal dualista (mente/corpo – alma/corpo – alto/baixo – pensamento superior/matéria), retirando a supremacia da razão.

Contudo, existe uma imensa pedra neste caminho que se transforma em uma montanha de determinismo. Onde estaria o livre arbítrio? Existiria o livre arbítrio? E como sair do vitimismo se não tivermos o controle das decisões?

Uma conversa para a próxima anotação.

(Manuel Sanchez – Anotações Órficas: choffeur do próprio corpo)

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Anotações Órficas: a ilusão

Anotações Órficas: A Ilusão

(por Manuel Sanchez)

 

Todo o sistema que criamos para movermos neste mundo é  uma ilusão. Todo o sistema: relações de sexualidade, formas de poder, estruturas de governo, controle monetário, relações de divisão de renda, estruturas religiosas, critérios de liberdade de pensamento, grau de independência de nossas ações, formas de punição, maneiras de humilhação e marginalização. Todo o sistema.

Inseridos que somos neste determinado emaranhado de relações sociais, com seus signos e significantes dados como verdades absolutas gerações antes do nascimento das gerações que nos antecederam , com comportamentos seletiva e arbitrariamente estabelecidos para beneficiar grupos específicos mas passados de geração em geração como normas inquestionáveis.  

Formados por nossos familiares e moldados pela vida social, os primeiros anos das nossas vidas são uma doutrinação diária. Aprendemos a ver e a reagir ao mundo como nos é imposto desde mesmo antes de formularmos as primeiras palavras.

A verdade de tal formulação social é tao reiterada e fortalecida pelas pessoas que amamos e instituições das quais fazemos parte que  – muitas vezes – torna-se incogitável a simples proposição de que o mundo e suas verdades são apenas uma das inúmeras configurações possíveis; tão arbitrária e casual como qualquer outra, apenas solidificada pela força do agir diário da maioria.

De fato, a maioria de nós permanecerá até o túmulo vivendo com esse código e sem questioná-lo. Pouco importa aqui que se tal código a fere, exclui ou humilha. É o código. É a estrutura. É a lei. É a palavra de Deus. São os valores familiares. É a tradição. Ensinamentos reiterados e fortalecidos pela família, amigos, empregadores, pastores, midia… em algum momento talvez a pessoa tenha uma ansiedade, uma dor, uma dúvida… mas a maioria não tem forças para sair dessa ilusão. A maioria sequer imagina que vive inserido em uma ilusão. E morrerá assim. 

 Mas alguns indivíduos desconfiam. 

Alguns olham ao seu redor e se questionam. 

Nem todos levarão essa questão para o plano das ações divergentes. Muitos irão perceber o holograma em que vivem e irão se proteger do conformismo com as armas do cinismo e do distanciamento. Juntos com as armas da visão crítica, perceberão as amarras arbitrárias. Criarão seus feudos, participarão de pequenas tribos.  Uma boa parte deles conseguirá manter a máscara no meio dos cegos, sabendo que sua vela não os deixará na escuridão. Lamentarão pela horda de zumbis. Seguirão com suas vidas. Às vezes encontrando um ou outro irmão de pensamento. 

Outros não conseguirão conviver com esse comportamento. Aos seus olhos isto seria um egoísmo. Sua chama os obrigará a levar a luz para os zumbis presos na ilusão do holograma.  Precisam fazer isso pelos outros mas sobretudo por si mesmos. Desejam tão ardentemente modificar as regras estabelecidas na pedra que, não raro, irão arriscar-se a serem marginalizados e agredidos.   

Estes últimos sofrerão mais. Mas sem eles a manada nunca evolui. Um passo de cada vez, para fora do holograma.   

Dia de São Sebastião. Dia de Oxóssi

O Padroeiro do Rio de Janeiro é um santo católico flechado. São Sebastião. Derrotado em martírio.

O Rio de Janeiro foi o maior Porto de venda de escravos da história. Nem no período do império Romano existiu cidade que tratasse maior quantidade de pessoas escravizadas. O rio de janeiro foi a maior cidade escravocrata da história da humanidade.

Os negros escravizados do Rio de Janeiro cultuavam Oxóssi na figura de São Sebastião. Oxóssi nunca foi derrotado. Oxóssi defendia as matas e seu povo com o arco e flecha. Oxóssi é o orixá que está sempre pronto para a defesa e resistência.

Podem quebrar o seu corpo. Mas nunca irão conquistar sua alma.

Deve ser um dos grandes eventos de processo de ressignificação de símbolos no sincretismo brasileiro.

Oke Aro! para quem é da flecha.

– Manuel Sanchez

A Filosofia explicada através do Pão 

A Filosofia explicada através do pão: 

(Manuel Sanchez)

 

Heráclito: você não pode comer o mesmo pão duas vezes

Parmenides: a receita do pão nunca muda

Sócrates: o que é um pão?

Platão: todos os pães remetem à idéia perfeita da ‘pãozidade’ presente no pão

Aristóteles: todo pão é e contém inteiramente a própria “pãozidade”

Epicuro: o pão é prazeroso mas coma apenas o suficiente de pão. Sem ostentação.  Sem manteiga também.

Epicteto: não tenha prazer ou desprazer ao comer um pão

Sêneca: nunca se angustie ou fique com raiva ao esperar pelo seu pão

Marco Aurélio: nunca deixe-se impressionar por um pão

Santo Agostinho: o pão necessita da graça divina para atingir sua pãozidade

Descartes: eu penso no pão, logo o pão existe

Locke: o pão me agrada, eu como pão.

Spinoza: o pão é um atributo da natureza e a alegria de comer pão, um afeto.

Berkeley: só posso garantir que o pão existe enquanto eu olho para o pão 

Kant: faça de tal forma que o seu pão possa ser transformado em um pão universal

Stuart Mill: o pão é bom se deixar a maior parte das pessoas  felizes

Hegel: todos os pães são compostos de não pãozidade em contraposição

Kierkegaard: eu tenho fé que o pão é bom

Schopenhauer: Pão te deixará gordo

Karl Marx: todos merecem pão. Lute pelo seu pão! Tire o pão de quem te vende pão explorando o seu trabalho!

Nietzsche: não permita que nada diminua sua vontade de potência em busca de comer pão

Camus: a revolta do homem deve ser em direção ao pão

Freud: as vezes um pão é apenas um pão

Bakhtin: você entende o significado do vocábulo  “pão” porque compartilhamos uma palavra moldada socialmente 

Jung: a idéia de pão é um arquétipo existente na mente de todos os seres humanos 

Deleuze: o pão é uma máquina destinada a atrair o seu desejo

Zizek: sua vontade de comer pão é fruto do lixo ideológico implantado na sua mente e etc etc e etc e etc

Zen Budismo: não existe  pão 

 

(na mente ociosa de Manuel Sanchez, que adora pão )

O Livro das Anotações Órficas

O Livro das Anotações Órficas

Capítulo  I – Sobre o Devir

Nossa tradição começou antes. Séculos antes da sua formulação escrita. De forma que a tradição oral é a base de muitos dos mistérios estudados a partir daqui.

Não por acaso, as primeiras tradições representavam o lançar ao chão de cada véu sob um nome. Uma palavra era pronunciada a cada mistério revelado. E não é coincidência que outras religiões no mesmo período – mas em outra região –  adoravam seu deus na forma de Discurso, sem forma, no Verbo daquele que É. Mas sobre estes, falarei no momento certo.

Nossa tradição começou antes. Na Trácia. Alguns recuam ainda um passo até a Frígia. Não se espante se estranhar os nomes. Fato é que foi antes da ocupação grega. Antes da incorporação dos modos dos invasores na terra de origem. Antes que os seus deuses fossem impostos como os verdadeiros deuses. Antes de Dionísio  ser incorporado como uma entidade menor nas hostes de divindades dos invasores.

Este tempo foi antes do assalto da razão praticado pela filosofia dos invasores. Antes do primado das certezas, da frieza e do controle das paixões nos homens. Quando aceitava-se o caos no coração como o calor do corpo da amada. Quando não havíamos capitulado nossos desejos e sombras para a servidão mansa de ovelhas passivas e castradas.

E o caos dançava em nossas festas.

E Dionisio reinava. Amparava a fertilidade. Estimulava a embriaguez, determinava o caos no gozo do corpo desejado. Dionisio nos visitava em carne através de Zagreu, seu avatar de escolha. Profeta de tempos antepassados. Nossa tradição começou antes. 

Apenas as mulheres ficavam na companhia de Zagreu. E a paixão as dominava. Orgias e bebidas. Seus detratores as chamavam de bacantes. Temidas. Invejadas. Odiadas. Noites inteiras nas colinas inebriadas pela cópula. Danças que estimulavam o êxtase. E o sacrifício. Sacrifícios humanos e de animais. Bebiam o sangue do escolhido. Comiam a carne crua dilacerada.

É o que nos dizem as antigas palavras. Como é ficar para a posteridade unicamente nos ditos de seus inimigos?

As bacantes nos  iniciaram nos mistérios. Proferiam as palavras. Eram visitadas por entidades e avatares. Em sonhos e em carne.  E geraram seres… que amedrontaram os que contadores de lendas.

As bacantes eram o signo do próprio caos no coração do ser humano. O desejo sem controle. O tesão pela própria vida sem limitações. O sexo orgiástico. A ausência de controle dos corpos. A liberdade da embriaguez ritualizada em sessões fechadas. O sacrifício dos fracos. A celebração mais bárbara e brutal da potência de viver.

Para muitos, o culto de Dionisio canalizado em Zagreu e em suas bacantes era hostil. Selvagem. Repulsivo. Sem dúvida era restritivo para os covardes. Como soam os mistérios do verbo, da música e da liberdade do corpo. Os tambores do mistério sempre assustaram os passivos e castrados.

Caída a Trácia. Dionisio foi incorporado sem dentes no panteão como uma entidade menor. A canalização por Zagreu virara uma longínqua  lembrança e as bacantes foram caçadas e escorraçadas.

Neste ponto da tradição nos chega Orfeu. Que ainda seguimos. 

As histórias são míticas. Elusivas. Não havendo sequer certeza se de fato existiu. Para alguns, Orfeu seria o filho de uma bacante violada e amaldiçoada, fugida para evitar a morte e que teria criado seu filho em segredo nos mistérios do verdadeiro Dionísio. Para outros, Orfeu era o novo avatar do próprio Dionisio,  desejoso de revitalizar sua crença para novos povos. Há quem diga que os ensinamentos foram passados aos homens de forma indevida e que Orfeu não seria uma pessoa, mas um movimento para retirar das bacantes o monopólio dos segredos revelados no êxtase.

Fato: Orfeu reestruturou os ensinamentos dionisíacos e retirou dos mesmos os caracteres mais violentos. Por que? Hoje eu vejo que a violência me protege.  

Orfeu manteve das bacantes originais a crença de que a alma vive em um corpo impuro em um mundo sujo. De que muitas vidas são necessárias para expurgar nossos males. Que a bebida e o sexo são canais para abrir o corpo e atingir a alma, entrando nos circulos dos mistérios.

O movimento aumentou a base de iniciados para aceitar homens e mulheres, sem proibições. Cessaram os sacrifícios humanos e os atos de violência pura durante os rituais. A refeição ritualizada abandonou a carne crua. O sangue ritual para a abertura dos mistérios passou a ser substituído pelo vinho. Abandonaram as orgias em florestas e fogueiras, mantendo os rituais sexuais em formas menos ostensivas.

As bacantes aceitavam a violência da vida, do sexo e das palavras de uma forma que os Órficos jamais o fizeram. E os grupos se separaram desde então. As poucas bacantes restantes, as que não foram caçadas, esconderam-se e reduziram-se para manter a sobrevivência. Acredita-se que sumiram no pó do tempo. É o que nos ensinaram as palavras. 

Sempre achei estranho. Porque a violência me protege.

Os órficos continuaram. Diluiram seus ensinamentos em escolas subsequentes, cada vez mais castradas, mais controladoras do corpo, que permitiram uma maior aceitação e aumentaram o  número dos crentes. Abdicaram da violência. Onde isto é uma vantagem?

Espalharam  os ensinamentos basilares da alma e da comunicação com o reino espiritual; mas guardando para si próprios os segredos principais da comunicação direta. 

Pitágoras era um iniciado nos ensinamentos órficos. E seus ensinamentos ganharam muitos gregos: a transmigração da alma, as reencarnações, a divisão da energia do sacrifício através de alimentos e bebidas ritualizadas ingeridos por todos, a existência de um mundo mais puro, ideal, local de vivência original das almas, a negação do mundo como uma sombra falsa. Os pitagóricos diluíram ainda mais as verdades reveladas pelo caos. Se os Órficos renegaram a violencia, os pitagóricos renegaram os segredos originais do sexo,  cultuando a razão e a matemática, criando novos ritos de iniciação mais serenos e castrados.

Pitágoras não deixou nenhum escrito sobre suas idéias de reinterpretação monástica dos ensinamentos órficos. Mas um dos iniciados no pitagorismo escreveu e escreveu muito: Platão. 

Ao leitor que folheia esse diário nao será surpresa que as idéias platônicas colocadas em seus  livros na boca de Sócrates a respeito do mundo das idéias, a dualidade do corpo e da alma, as reencarnações sucessivas, a busca pela razão e a negação dos impulsos do corpo são idéias pitagóricas.

Cada vez mais diminuindo-se a explosão de mistérios violentos e sangrentos das bacantes. Vejo um sangue definhando.  Um corpo enfraquecendo.  E dentro de mim comecei a sentir que a verdade não poderia ser comunicada pela paz. 

As linhas do tempo continuaram. O enfraquecimento do caráter também. Os eunucos dominavam as terras.  O platonismo entrou no imaginário das plebes  através do Cristianismo. A dualidade do reino espiritual das Almas contra o mundo de carne sujo e a ser evitado. A refeição sacrificial diluída no pão. O sangue do morto sacrificado bebido como vinho e, dessa vez apenas pelo celebrante, onde os participantes são chamados a compartilhar o morto sacrificado apenas pelo pensamento…. 

Um longo caminho de diluição de ritos e mistérios perambulou doente da antiga Trácia até os dias de hoje. Os Pitagóricos-Platonistas dominaram o palco. Cristo era sua máscara. 

Eles acreditam que os Órficos… que  não existimos mais. E essa crença nos protege. 

E a quase totalidade do meu grupo crê que as bacantes são apenas ilustrações antigas das origens violentas dos nossos mais puros ritos. Que se perderam no tempo, na névoa que apagou as verdades reveladas por meio da brutalidade. Mas alguns de nós, acreditamos no contrário…. que a  mesma névoa que nos protege também teria escondido as bacantes.  E com elas, verdades não reveladas. Verdades do caos. Verdades que almejamos. 

E nossa busca pelas bacantes não cessará.

Onde esconder-se na violência do mundo? Como continuar existindo e mantendo seus ritos em meio à barbárie?

A tradição não é serena, asséptica e limpa, como impuseram em sua mente.

A tradição é violenta, crua, sangrenta, abusiva, orgiástica e impulsiva.

Existem mistérios e ritos não revelados às tradições seguintes.

Muitas verdades são projetadas por meio de ritos. Ritos estão escondidos em palavras. Por símbolos nos conduzimos em mistérios.

Que enxerguem aqueles que possuem olhos.

Nossa tradição começou antes.

(fim da parte 1)

– por Manuel Sanchez