Anotações órficas: o rumo da manada

” Sempre que você se perceber andando ao lado da maioria, pare e reflita.”
– Mark Twain

O rumo da manada

As pessoas preferem a manada. A manada é simples. Protege no caso de erro. Poupa do pensamento crítico. Fornece paradigmas estabelecidos que não serão questionados. Dentro da manada o ser humano não precisa se justificar. Ela é confortável. Poupa energia. Preconceitos são chamados de tradição. Violências são chamadas de regras sociais.

Colocar -se contra a manada como opção padrão não te livrará desse ciclo. Aqueles que adotam o pensamento contrário como definição de seu estilo apenas criam uma segunda manada: um novo pelotão que se forma mugindo e distribuindo coices apenas para se opor à manada original.

Você deve viver à parte da manada. Independente dela. Pensando por si próprio. Raciocinando. Refletindo. Se andarem juntos, que seja por coincidência. Se seguirem caminhos opostos, que o faça sem atropelos. Se aproximarem-se, mantenha a sua individualidade. Se discordarem, que não abalem sua paz.

Assuma responsabilidade pelos seus atos. Aprenda com seus erros. Não busque culpados externos. Nunca banque a vítima. Compreenda, não repita. Corte o galho morto sem piedade.

E quando a manada passar, observe e cumprimente, mas não se curve.

– Manuel Sanchez, Anotações órficas: o rumo da manada

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Crônicas Pessoais e Afins: Filosofia de Cavalheiro

É uma filosofia simples a que incorporei, ainda que antiquada. Eu realmente não me importo com o que as pessoas falam ou pensam sobre mim. Eu sou aquilo que sou e vivo de acordo com aquilo em que acredito. Não espero nada de ninguém. Aceito com alegria o que a vida me oferece. Tento estar preparado para o pior cenário. Evito a mediocridade a todo custo. Não falo sobre a vida alheia. Não tento impor o meu modo de ser ou de pensar sobre ninguém, mas prefiro viver e me relacionar com os que tenho afinidade. Admito que sou rancoroso e trabalho isso em mim. Afasto-me de pessoas tóxicas. Desprezo o pensamento do perseguido mas sou respeitoso com os que sofrem. Sou atraído pela beleza. Acredito na polidez no trato pessoal. Depois de conhecer o mais, hoje advogo pelo menos. Aprendi a não me jogar em ondas que estouram em rochedos. Pago alegremente para comprar paz e tempo.E prefiro agir reto desde o início a ser retificado.

– Manuel Sanchez, “Filosofia de Cavalheiro”

Crônicas e Afins: continente de afetos

Meus olhos não enxergam bem. Desde pequeno uso óculos e nada me leva a lentes de contato. 

Bons olhos poderiam ter me colocado como um bom vigia que a tudo olha de longe. Observador externo. Lunetas de alma para o mundo. Existirá quem aplauda. Castradores dos demais  sentidos. Criadores de pecados. Há sempre um tirano olhando censor o prazer alheio.

Mas ao contrario do que me ensinaram, descobri que o mundo  exige o toque.

Olhos ruins me levaram a exercitar o toque e o cheiro. Contingências  da natureza. Animal que caça, que cheira e come. O toque pelo corpo. O cheiro no encontro. O gosto do sexo. De nada me adiantariam olhos bons quando quero a excitação do momento. O prazer da carne; farejando o corpo, manipulando as curvas, cheirando e comendo o prêmio.

Não confio nos olhos. Experiência da distancia. Por isso me aproximo. Cauteloso, sim. Sem recuar, tambem. Encontro de vidas na dinâmica dos afetos.

Às vezes, encontro uma presa pronta para o abate. De outras, descubro uma fera armada para o bote. Somos seres que se deliciam nos afetos. Criaturas que se afastam de vitrines frias de sentimentos.

Não confio nos olhos. Sou animal que fareja, abate e come. Um homem que devora a mulher amada  em banquete. Território de afetos.

Manuel Sanchez, “Continente de afetos”

 

Crônica: ” A Conquista Suave”

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Ela misturou o whiskey com o refrigerante exatamente na proporção que eu ensinei. E gelo. Muito gelo. 

Mas disse que achava um desperdício fazer aquilo com a bebida… Tudo bem, nada é perfeito.

O importante é que eu gostava assim. E assim ela fazia.

Ela se deixava conduzir e sussurrava nos meus ouvidos enquanto nos amávamos. Ela era obediente na cama.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

Depois de algumas vezes –  saciado –   peguei um charuto da caixa e acendi sorvendo as baforadas. Ela insistiu que queria experimentar também.

– Você não vai gostar.

Mas ela pedia igual uma criança. Passei o robusto.

Ela tinha curiosidade. E coragem. Tudo de novo que eu queria, ela queria também ou aceitava experimentar.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

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Os olhinhos dela se encheram de lágrimas quando a fumaça invadiu a sua boca. Começou a tossir e a engasgar e por fim me perguntou como eu podia gostar de me matar dessa forma.

– Existem formas piores de morte. Eu gosto das de tipo lento.

Ficamos ali naquela madrugada, enroscados no meio da cama, conversando. Por horas. Há muito tempo não conversava tanto com alguém. Existe um prazer na conversa que une um casal tanto quanto o sexo. Talvez até mais.

Ela dizia que gostava de me ouvir falar sobre os assuntos mais loucos. Ela achava meus interesses meio inusitados. Eu adorava o timbre da sua voz. E o som das risadas. A maneira como tudo se iluminava.   

Rindo, ela disse que meu estilo era curioso:  um retrô-psicodélico, meio cavalheiresco antiquado misturado com um bruto dispensável, totalmente perdido no tempo.

Lembrei que haviam me chamado de coisas muito piores recentemente: falso, cretino, covarde, duas caras… uma coleção de impropérios justamente quando havia me decidido pela mudança.

Larguei tudo para trás: casa, conforto, hábitos, rotina…na verdade, a primeira me largou, a segunda eu deixei. A terceira me colheu. Acho que para bom entendedor, isto basta.

Sua voz calma preencheu o quarto naquela madrugada que já virava uma  manhã rubra. Ela me convidou ao seu corpo novamente.

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Ela veio sobre mim obediente e receptiva, me amando a galopes e sem pudores, fazendo com que eu me sentisse sempre o mais vigoroso e potente.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

Fazia parte das suas Artes Mágicas criar a fantasia onde eu acreditava que estava no comando: que era ela a seduzida e eu o suposto conquistador.  

Nós dois sabíamos que eu nunca estive no comando de coisa alguma. Perdido e à deriva. Eu precisava de um farol e de um porto. 

Ela sabia que de forma suave, me conquistava. Ela sentia que se deixando conduzir, na verdade determinava meus passos. Se fingia obedecer, ela era quem mandava. Perguntando para onde eu queria ir, ela me guiou os passos.

Conseguiu de mim coisas que neguei por anos. Eu nem percebi quando aconteceu.

Calma e silenciosamente, com o Poder que só o comando exala,  ela mantinha a Ilusão de que o responsável pela conquista sempre havia sido eu.

Ela sabia que eu gostava assim. E assim ela fazia.

( Manuel Sanchez – ” A Conquista Suave”)

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Anotações órficas: criaturas de hábitos

Não existe atalho na vida e nem segredo revelado por guru. 

Se quiser progredir em qualquer coisa tem que ir lá e fazer a mesma coisa e repetir repetir repetir até ficar perfeito. Muitas vezes será tedioso e solitário. Os resultados expressivos demoram a aparecer e você vai ter a impressão de que não está saindo do lugar.

Quer melhorar de saúde, treine todo dia. Quer maestria em um instrumento, treine todo dia. Quer aumentar o patrimônio, corte gastos supérfluos e invista sempre de pouquinho em pouquinho em bens de valor a cada renda auferida. Quer aquela profissão tão almejada, estude e se credencie dia a dia. Quer manter um relacionamento sério e sadio, cuide dele todo dia e não apenas nos aniversários e dia dos namorados. Parece uma coisa tola, simples. E por isso mesmo é tão negligenciada. 

Progresso vem de atos do hábito. Do treinamento. Do cuidado diário. O talento invariavelmente amadurece no exercício. E o esforço e a prática ensinam para os diligentes sem o talento natural. Hábito. Exercício. Cuidado diário. Paciência. 

Foque no processo. O resultado é uma consequência. Foque no processo e esqueça se os passos estão sendo pequenos ou largos. Foque no processo e não se importe com as opiniões alheias. 

A idéia de que haverá um segredo mágico, uma paulada vencedora, um atalho dos espertos é apenas um canto de sereia para afogar os incautos e os preguiçosos.

Normalmente os perseguidores de atalhos e crentes em soluções mágicas terminam com nada nas mãos, invariavelmente destruindo o que possuem e frequentemente com inveja e sem entender as conquistas das criaturas diárias do hábito.

– Manuel Sanchez, “Criaturas de Hábitos”