Hunter Thompson: viva sua vida e faça sua própria escolha

tumblr_l4bn1m5E671qaejbao1_400 (1)

Hunter Thompson foi o pai do jornalismo gonzo. Ou seja, matérias onde o jornalista e o personagem da matéria são o mesmo, descrevendo as aventuras e desventuras de seu narrador nas mais estranhas, bizarras, perigosas,  escatológicas e mesmo criminosas situações.

Problemático, filho de pais alcoólatras, foi preso jovem por roubo e recebeu como parte da pena o alistamento militar, uma condição que marcaria toda sua vida em contestação à autoridade.

Seu primeiro livro de sucesso ainda nos anos 60 foi “Hell´s Angels – Medo e Delírio” , descrevendo o ano em que viveu com a gangue de motociclistas dos Hell´s Angels e seus crimes, rixas, conflitos com a policia e estilo de vida desregrado.

Anos depois escreveria o  emblemático “Medo e Delirio em Las Vegas” descrevendo em detalhes seu mergulho na sordidez da cidade, a prostituição, os barões criminosos do jogo e seu caminho pessoal e sem fim nas drogas e na bebida.

hells-angels-hunter-s-thompson1 Medo_e_delirio_em_LA

Sujeito intratável, decadente, arruaceiro, do tipo que é melhor manter distância. Mas escrevia bem feito o diabo!

De sua máquina de escrever saíram clássicos. Viveu a vida como quis. Nunca aceitou que as circunstâncias ditassem suas escolhas. Ao contrário, de suas escolhas conseguiu moldar sua vida (para o bem e para o mal).

Se matou em 2005, com um tiro de espingarda na cabeça. Sofria de depressão.

  

Documentário sobre Thompson

 

Mas no inicio de carreira, um jovem  Thompson  menos deprimido e menos desencantado com a vida, escreveu uma resposta para uma carta recebida de um amigo. 

Vale a pena para pensar.

Thompson: “ Dar um conselho para um homem que pergunta o que fazer com sua vida é alguma coisa muito próxima da egomania. Presumir que se possa colocar um homem na direção correta e em seu objetivo final – apontar na direção CORRETA. É algo que apenas um tolo assumiria fazer.

Ser ou não ser: eis a questão. Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? 

E sim, essa É a questão: flutuar e ser levado pela maré ou nadar em direção a um objetivo. É uma escolha que todos nós devemos fazer consciente ou inconscientemente ao menos uma vez em nossas vidas.

Tão poucas pessoas entendem isso! Pense em qualquer decisão que você já tenha feito que tenha tido influência em seu futuro: eu posso estar enganado, mas eu não vejo como isso pode ser outra coisa além de uma escolha, mesmo que indireta – entre essas duas coisas que eu mencionei: flutuar ou nadar.

hunterthompson-gun

A  resposta – e de certa forma, a tragédia da vida – é que nós procuramos entender o objetivo e não o homem.

Nós estabelecemos um objetivo que exige de nós certas coisas: e nós as fazemos. Nós nos adaptamos às exigências de um conceito que NÃO PODE ser válido. Quando você era mais jovem, digamos que você queria ser um bombeiro. Eu tenho uma razoável certeza que você não quer mais ser um bombeiro. Por que? Porque sua perspectiva se modificou. Não foi o bombeiro que mudou: foi você.

Todo homem é a soma de suas reações às experiências. Enquanto suas experiências diferem e se multiplicam, você se torna um homem diferente e, então, sua perspectiva se modifica. E continua assim para sempre. Toda reação é um processo de aprendizado: cada experiência significativa altera sua perspectiva.

Então, não seria tolo ajustar nossas vidas de acordo com as demandas de objetivos que nós vemos de diferentes ângulos a cada dia? Como podemos esperar atingir qualquer coisa que não seja uma neurose galopante?

A  resposta deveria ser não lidar com objetivos de qualquer tipo, ou ao menos com objetivos tangíveis. Gastaria resmas de papel para desenvolver esse assunto inteiramente. Deus sabe quantos livros foram escritos sobre “o sentido da vida” e esse tipo de coisa, e Deus sabe quantas pessoas se dedicaram ao assunto (eu uso o termo ‘Deus sabe…” apenas como uma expressão). Não há muito sentido em tentar entregar a resposta para você; porque eu sou o primeiro a admitir minha absoluta falta de qualificações para reduzir o sentido da vida em um ou dois parágrafos.

hunter_s_thompson_1449481c

Colocar nossa fé em objetivos tangíveis seria, na melhor das hipóteses, pouco sábio.

Nós não nos esforçamos para sermos bombeiros, ou banqueiros, ou policiais ou doutores. NÓS LUTAMOS PARA SERMOS NÓS MESMOS.

Mas não me entenda mal. Eu não quero dizer que nós não possamos SER bombeiros, banqueiros ou doutores – mas sim que nós devemos adequar esses objetivos em conformidade com o indivíduo; ao invés de fazer o individuo se adequar ao objetivo.

Em cada homem, hereditariedade e meio se combinaram para produzir uma criatura de certas habilidades e desejos – incluindo uma profunda necessidade  de agir de forma que sua vida TENHA SENTIDO. Um homem tem que SER alguma coisa: ele tem que ter significado.

rum

É assim que eu vejo: um homem deve escolher um caminho que permita que suas habilidades funcionem no máximo de sua eficiência em direção à gratificação de seus desejos.

Ao fazer isso, ele está preenchendo uma necessidade (dando a ele mesmo identidade ao funcionar em um padrão em direção a um objetivo designado), evitando a frustração de seu potencial (escolhendo um caminho que não coloque limites ao seu autodesenvolvimento) e evitando o terror de ver seu objetivo fraquejar ou perder o charme à medida que  se aproxima. Ao invés de se contorcer  para atingir as demandas do que ele procura, ele forçou seu objetivo para se adequar às suas habilidades e desejos.

Em resumo, ele não dedicou sua vida para alcançar um objetivo pré-definido. Ao contrário, escolheu um modo de vida que ele SABE que irá apreciar. O objetivo é absolutamente secundário: é o agir em direção a esse  objetivo que é importante.

Parece até ridículo ter que falar que um homem PRECISA agir de uma forma que seja da sua própria escolha. Porque permitir que outro homem defina seus próprios objetivos é abrir mão de um dos aspectos mais significativos da vida – o ato definitivo que transforma um homem em um indivíduo.

Um homem que atrasa SUA ESCOLHA, a verá inevitavelmente feita pelas circunstâncias. Logo, se hoje você se coloca entre os desencantados, então você não tem outra escolha a não ser aceitar as coisas como elas são; ou então buscar seriamente outra coisa.

tumblr_inline_nc0bj3wEAC1qb0ozi

Mas cuidado ao buscar por objetivos! Busque por um estilo de vida. Decida como você quer viver e então veja o que você pode fazer para ganhar a vida DENTRO desse estilo de vida.

Mas você diz: “Eu não sei onde procurar. Eu não sei o que procurar.”

E aí está a encruzilhada: vale a pena abandonar o que eu já tenho para procurar por outra coisa melhor? Eu não sei. Vale a pena? Quem poderia tomar essa decisão além de você?

Mas mesmo se decidindo por procurar, você já andou um longo caminho no próprio ato de decidir.

Eu não estou tentando te colocar “na estrada” em busca de um Valhalla, mas apenas mostrando que não é necessário aceitar as escolhas que te foram dadas pela vida.

Existe mais do que isso. Ninguém é obrigado a fazer algo que não deseja pelo resto de sua vida.”

 

Anúncios

Nelson Rodrigues, um filósofo brasileiro

frase-sou-um-menino-que-ve-o-amor-pelo-buraco-da-fechadura-nunca-fui-outra-coisa-nasci-menino-hei-de-nelson-rodrigues-132118

A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: – o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.

– Nelson Rodrigues

Nelson é o melhor teatrólogo que o Brasil já teve.

Suas peças são fantásticas, cativantes, bombásticas e politicamente incorretas. Ele é absurdamente superior nas peças do que nos romances e crônicas, em minha opinião. 

Várias poderiam ser lembradas, mas pinço aqui “Vestido de Noiva” para simbolizar o conjunto da obra e também por ser uma das mais impactantes.

Atenção especial para a linguagem moderna, o estilo debochado e o destino que delineia todas as ações dos personagens que rumam céleres e cegos para a tragédia iminente.

E faço questão de lembrar da biografia “Anjo Pornográfico” do Ruy Castro sobre a vida do Nelson Rodrigues e todo o caldeirão cultural da época. Simplesmente uma das mais interessantes biografias publicadas.

64349   nelson

 

Grandes Frases, Grandes Livros: Hamlet, Shakespeare

Eugène_Ferdinand_Victor_Delacroix_018

Traição.  Assassinatos. Intrigas. Vingança. Mas acima de tudo, uma profunda reflexão sobre o papel das decisões pessoais no destino de qualquer  homem. Esta é a peça Hamlet, de Shakespeare, provavelmente o texto mais encenado no mundo.

Não se trata de um texto original. São encontradas muitas fontes históricas e literárias que influenciaram Shakespeare na sua leitura da história de Hamlet, o príncipe dinamarquês levado a vingar a morte de seu pai em meio a suas próprias dúvidas sobre sua sanidade e sobre seus dilemas morais.  

Hamlet é apresentado pelos estudiosos como o primeiro personagem moderno da literatura. Apesar da existência de fantasmas na peça e de referências ao sobrenatural, Hamlet não se movimenta por obra de maldições, oráculos, deuses, simpatias ou misticismo. Hamlet move-se por decisão própria. Suas dúvidas, hesitações e ações são frutos de seu pensamento e suas próprias reflexões.

O personagem é o protótipo do humanismo,  no sentido de que ganha ao longo da peça a clara percepção de que o seu destino é moldado unicamente por suas decisões e que a liberdade de agir é seu maior prêmio e sua maior maldição. Omitindo-se a respeito do homicidio de seu pai ou decidindo-se a vingar-se, a decisão tomada por Hamlet é própria; apenas sua e não há sentindo em apontar familia, sociedade ou religião como impeditivos. Ser ou Não ser, eis a questão.

A seguir, uma palestra do professor Leandro Karnal sobre Shakespeare e sua obra Hamlet, fazendo um arco comparativo com nossos tempos modernos de internet, facebook e a busca incessante da aparência da felicidade. 

 

Hamlet:

“Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor”.

“Acima de tudo sê fiel a ti mesmo,
Disso se segue, como a noite ao dia,
Que não podes ser falso com ninguém”.

“O hábito, esse demônio que devora todos os sentimentos”

“O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.”

“Ser ou não ser, essa é a questão: será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema: pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar. Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida”.

11212692_859860634105583_9036363090154738144_o

 

Zygmunt Bauman e a liquidez do mundo

bauman

 

“Corremos sobre gelo fino. Se pararmos ou diminuirmos a velocidade, o gelo se rompe e nós morreremos. Então corremos. Não importa para onde, o importante é correr. E rápido. ”

Essa é a analogia que Zygmunt Bauman faz para os tempo atuais, que ele chama de pós-modernos ou da modernidade liquida.

livro-tempos-liquidos-de-zygmunt-bauman-novo_MLB-O-174100422_5843Vivemos em uma época de velocidade vertiginosa, com uma  profusão de conexões. Invejamos aqueles que não possuem posição fixa, que estão constantemente alterando sua posição, sem rotina, pairando sobre os pontos geográficos sem amarras. Sem passado que os prenda, sem memórias traumáticas ou tradições limitadoras à sua identidade pessoal.

Não existem mais papéis inalteráveis, identidades firmes, ideologias fixas, pré-condições estabelecidas. A segurança acabou. O mundo ficou flexivel, a realidade transformou-se em algo etéreo e escorregadio. As ideologias são liquidas, prontas para serem retiradas de qualquer recipiente e recolocadas em outro, independente da forma.

 

baumann

Hoje em dia, tentamos quebrar todos os vínculos, todas as prisões. O que interessa é a liberdade de movimento, viajar leve. Sempre. O indivíduo sobre a idéia da comunidade. A história pessoal como valor maior do que a tradição.

Mas ao aumentarmos a esfera de liberdade, diminuimos na mesma proporção o lastro de segurança. Segurança esta que vinha da comunidade, da aldeia, dos valores em comum, de uma história dividida e respeitada. Cada um tinha o seu lugar e o seu papel.

Hoje não. Seu papel é decidido por você. E sozinho. Sua identidade é construída não pela, mas às vezes em oposição às tradições da comunidade.

 

E com essa responsabilidade vem a ansiedade. E com ela o mau-estar.

imagesE como curar o mau-estar? Mergulhamos no consumo. Essa maravilhosa terapia moderna, rápida e sem vinculos, com a qual nos atrelamos de forma instantânea a uma marca, a uma história, a uma tradição etérea construída para ser ingerida e processada sem lealdades e sem culpa. Prazeres instantâneos. Tradição e história que podemos rapidamente abandonar por uma nova marca, criando uma nova identidade. De novo: velocidade e liberdade. Experimentação constante.

Sem vinculos com a comunidade, abandonamos o local que nos incomoda na rapidez do crédito e do financiamento. Deixamos para traz o refugo. Degeneram-se os laços politicos com o próximo. Preocupar-se por quê? Problema de quem não consiga sair…

zahar_capitalismo_parasitario1

Mas esse mundo novo gera seus descartes: pessoas inseridas de forma imperfeita nesse novo mundo de velocidade e consumo. Homens e mulheres que permanecem presos, atrelados a sua pobreza e às suas localidades que se estragam e degeneram; incapazes de realizar plenamente seus desejos de consumo. Párias. Refugos de países pobres que batem à porta dos vizinhos ricos em busca de emprego, em busca de movimento, de consumo. Imigrantes. Estrangeiros.

 

Por sua vez, as relações pessoais também vão se tornando descartáveis e passageiras. Bauman as chama de “amores líquidos”, havendo uma maior inconstância nas relações afetivas, que se tornam enfraquecidas e esgarçadas.
amorliquido

As relações religiosas igualmente sofrem consequências com a perda de força da Tradição e da Comunidade. O sentimento religioso entra numa fase de supermercado-espiritual onde as pessoas adotam crenças e costumes mistos de diferentes seitas e segmentos e criam praticamente entendimentos próprios e individuais.

Esses temas são tratados a cada página nas obras do Bauman, sociológo polonês que tem sido um guru me abrindo a cabeça para muitas coisas. Recomendo tudo que ele escreve.

Assistam e leiam os livros. Mas leiam rápido. Em movimento. Porque se pararmos, o gelo quebra e você se afoga.

 

O Poder dos Quietos

Vivemos em um período onde a extroversão é supervalorizada e as pessoas mais quietas e introvertidas são usualmente vistas como portadoras de algum problema.

Nessa ótima palestra, Susan Cain nos lembra que os introvertidos e serenos também são sujeitos realizadores e dotados de forte capacidade de análise, além de plenamente capazes de realizar qualquer trabalho em grupo e mesmo chefiar equipes e empresas.

Apenas preferimos nos manter quietos quando a única opção a mão é a participação na vulgaridade.

Particularmente me identifiquei com a palestra.

10458376_748856881838126_8390991584969118535_n