Bukowski : para os que aguentam o tranco

Não há nada para
discutir
Não há nada para
lembrar
Não há nada para
esquecer

É triste
e
não é
triste.

Parece que a
coisa mais
sensatas
que uma pessoa pode
fazer
é
se sentar com um drink na mão
enquanto as paredes
lançam sorrisos de despedida

Uns passam por
tudo isso
com uma certa
quantidade de
eficiência e
bravura
e então
vão embora

Alguns aceitam
a possibilidade de
Deus
os ajudar a suportar

Outros
aguentam o tranco

E para estes
Eu bebo esta noite.

– Bukowski

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Grandes frases grandes livros: O sonho de um homem ridículo

(…) esta melancolia sombria, acumulada em mim por um pensamento constante, um pensamento muito acima do meu alcance: que tudo na vida não tem importância.

Sim, este pensamento ocupa-me há já muito tempo, mas a convicção completa só apareceu em mim, no ano passado. Tudo é sem importância, eis a verdade.

Existirá o mundo? Ou não haverá nada em nenhuma parte? E tive a revelação de que não há nada à minha volta.

Parecia-me, no entanto, que até essa altura estive rodeado por seres estranhos a mim, mas compreendi que eram aparências infrutíferas. Nada existiu, nada existe, nada existirá. Deixei logo de me irritar com os outros e de me ocupar deles. Palavra!

Até chocava com os transeuntes, de tão alheado que estava. Contudo, alheado por quê? Tinha deixado de pensar. Tudo me era indiferente. Ainda se eu procurasse resolver os grandes problemas! Eu não resolvia nada, os problemas bloqueavam-me em vão; tudo se tornou para mim sem importância, e todos os problemas se dissiparam.

Fiodor Dostoievski, in ‘O Sonho de um Homem Ridículo’

Abaixo: Elektra Assassina

Van Gogh : prisões da alma

Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem.

Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.
“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”.

No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”.

E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.”
Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo…

E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.
Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.

Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.

Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?

Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso.

Mas aquele que não tem isto permanece na morte.
Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.”

Vincent Van Gogh, in: Cartas a Theó. — Trecho da carta de Julho de 1880

Dostoiévski: respeito às surpresas

Ser surpreendido por tudo é claro que é estupido, e não ser supreendido por nada é algo que é considerado muito melhor. Mas isso não é realmente verdade.

Na minha mente, não ser surpreendida por nada é muito mais estúpido do que ser surpreendido por tudo.

Além disso, não ser surpreendido por nada é quase igual a não se sentir respeito por nada. E é realmente um homem estúpido aquele que é incapaz de sentir respeito.

Fiodor Dostoievski, in “Bobok”

Acima: Gustav klimt, virgens

Fernando Pessoa: função da arte

A arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais.A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo.

Toda a arte deve dar prazer — o tipo de prazer é que varia. A arte inferior dá prazer porque distrai, liberdade porque liberta das preocupações da vida; a arte superior menor dá prazer porque alegra, liberdade porque liberta da imperfeição da vida; a arte superior dá prazer porque liberta, liberdade porque liberta da própria vida.

Fernando Pessoa

Acima: Gustav klimt, Diana