Grandes frases grandes livros: Sidarta – o destino

Sidarta

O pássaro que antigamente cantava em meu peito não morreu ainda. Mas que jornada extraordinária!

Careci passar por tamanha insensatez, por tantos vícios e erros, por um sem-números de desgostos, desilusões, tristezas, só para voltar a ser criança e para começar de novo. E apesar de tudo isso, fiz bem agindo dessa forma.

Meu coração está de acordo e meus olhos enxergam aquilo com prazer. Coube-me em sorte o pior desespero. Foi necessário que me degradasse até o mais estúpido dos propósitos e pensasse no suicídio, para que me acontecesse a graça, para que eu ouvisse novamente o Om, para que me fosse dado dormir com calma e acordar refeito. Tive de pecar para que pudesse tornar a viver.

Aonde me levará agora o meu destino? meu caminho parece louco; faz curvas, talvez me conduza num círculo fechado.

Seja como for, vou segui-lo!

— Hermann Hesse, no livro Sidarta.

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Última foto de Machado de Assis

Machado de Assis em imagem publicada na revista argentina ‘Caras y Caretas’, em seu nº 486, de 25 de janeiro de 1908; a foto pode ser considerada o último retrato do autor (Foto: Caras y Caretas/Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional de España). Fonte G1.

Fernando Pessoa: em meio aos símbolos

O caminho dos símbolos é perigoso, porque é fácil e sedutor, e é particularmente fácil e sedutor para os de imaginação viva que são precisamente os mais fáceis de induzir-se em erro e, também, de romancear para os outros, formando fraudes por vezes inocentes, por vezes um pouco menos que isso. Nada há mais fácil que interpretar qualquer coisa simbolicamente; é ainda mais fácil que interpretar profecias.

Sucede, ainda, que os grandes símbolos são relativamente simples, prestando-se assim a uma série infinita de interpretações.

Figure-se o leitor, imaginando, quantos valores simbólicos se não poderão atribuir às duas colunas no átrio do Templo de Salomão, ou, aliás, a quaisquer duas colunas em qualquer parte. Tudo quanto, na vida ou no sonho, é composto de uma dualidade — e quase tudo na vida ou no sonho envolve uma dualidade qualquer —, tudo isso se pode supor simbolizado por aquelas duas colunas.

Elas, porém, não podem destinar-se a simbolizar tudo quanto se queira. Algum, ou alguns, hão-de ser os veros sentidos íntimos delas. O que se pergunta, pois, é isto: que critério temos nós para determinar, entre tantos símbolos possíveis, quais são os que são deveras aplicáveis, os verdadeiros?

Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética

Abaixo: William Blake, O grande dragão vermelho e a Virgem vestida de Sol

Machado de Assis: filosofia de vida

Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.

— Machado de Assis, no livro “Memórias póstumas de Brás Cubas”

Os Ensaios de Montaigne: frases e reflexões (com gravuras de Salvador Dalí)

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Michel de Montaigne foi um humanista francês do século XVI, considerado o criador do gênero literário do ensaio pessoal, onde abordou a sociedade, seus costumes e instituições em textos de ordem moral e ética.

Criticava a educação livresca e repetitiva – que continua tão em voga até hoje – e pregava que o ensino deveria ser voltado para a ação, para a experiência dos fatos naturais e para o discernimento da moral nas relações humanas.

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Sua obra mais famosa são “Os ensaios” em que apresenta-se em toda a sua complexidade e variedade humanas, tentando encontrar em si o que é singular e também pensando sobre o Homem de uma maneira geral.  Montaigne é assim um livre pensador, um pensador sobre o humano, sobre as suas inconsistências, diversidades e características. 

Se por um lado se interessa sobremaneira pela Antiguidade Clássica, esta não é totalmente passadista ou saudosista. O que lhe interessa nos autores antigos  é encontrar máximas e reflexões, que o ajudem na sua vida diária e na sua auto-descoberta. Montaigne tenta assim compreender-se, através da introspecção, e tenta assim compreender os homens.

No fundo, Montaigne está naquele grupo de pensadores que estão a perguntar em vez de responder, e é na sua incerteza em dar respostas, que surge um certo ceticismo. Como não está interessado em dar respostas apriorísticas tem uma certa reserva em relação a misticismos e crenças. É de notar um certo alheamento em relação ao Cristianismo e às lutas de religião que se viviam em França na época.

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O fato de ter introduzido uma outra forma de pensar através de ensaios, fez com que o próprio pensamento humano encontrasse uma forma mais legítima de abordar o real. A verdade absoluta deixa de estar ao alcance do homem, sendo doravante, possível tão-somente a aproximação.

Esse texto é inteiramente ilustrado com gravuras realizadas pelo mestre catalão Salvador Dalí, especialmente encomendadas para uma edição dos Ensaios de Montaigne publicada em 1947. As marcas do surrealismos dão um toque mágico às frases do filósofo francês.

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FRASES DOS ENSAIOS DE MONTAIGNE

“Se fosse para buscar os favores do mundo, teria me enfeitado de belezas emprestadas. Quero que me vejam aqui em meu modo simples, natural e corrente, sem pose nem artifício: pois é a mim que retrato.”

“Ensinar os homens a morrer é ensiná-los a viver”.

“Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e coação.”

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“Cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra.”

“Não é uma alma que se forma, não é um corpo que se forma, é um homem. Não se deve separa-los.”

“O verdadeiro espelho de nossos discursos é o curso de nossas vidas.”

“Quero que as coisas dominem e encham a imaginação de quem escuta, de tal modo que o ouvinte não tenha nenhuma lembrança das palavras.”

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“Os apressados que têm um desejo frenético de encontrar a cura se deixam levar por todo tipo de conselho.”

“Quantas coisas pouco verossímeis existem, testemunhadas por pessoas de fé; se não podemos convencermos, ao menos devemos deixa-las em suspenso; pois condena-las como impossíveis é pretender conhecer, por uma temerária presunção até onde vai a possibilidade.”

“Existem derrotas mais triunfantes que as vitórias”.

“O que deveis procurar não é mais do que o mundo fala de vós, mais como deves falar de vós mesmo.”

“Fastidiosa enfermidade, a de se crer tão forte a ponto de persuadir-se de que não é possível acreditar no contrário.”

“A covardia é a mãe da crueldade.

Parece a cada homem que ele é a melhor forma da natureza humana: todos os outros devem ser regulados de acordo com ele.”

“Todas as tendencias que nascem em nós sem razão são viciantes: é uma espécie de doença que se deve combater.”

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“É o temor da morte e da dor, a impaciência com o mal, uma furiosa e irreprimível sede de cura que nos cegam assim: é pura covardia o que torna nossa crença tão frouxa e manipulável.”

“Não detesto as opiniões contrárias as minhas. Estou muito distante de me assustar ao ver discordâncias entre meus julgamentos e os dos outros e não me torna incompátivel com a sociedade por terem outra opinião e partido que não o meu.”

“Nunca houve no mundo duas opiniões iguais, nem dois fios de cabelo ou grãos. A qualidade mais universal é a diversidade.”

“Tenho minhas leis e meu tribunal para julgar a mim mesmo, e a eles me dirijo mais que a outro lugar. Restrinjo minhas ações em função dos outros, mas só as entendo em função de mim. Só vós é que sabeis se sois covarde e cruel, ou leal e devotado: os outros não nos veem, advinham-vos por conjecturas incertas; vem não tanto vossa natureza como vossa arte. Por isso, não confiais em sua sentença, confiais na vossa.”

“Prezo pouco minhas opiniões, mas prezo igualmente a dos outros.”

“Se me coubesse formar-me do meu jeito, não haveria nenhum feitio tão bom em que desejasse me fixar a ponto de não poder me desprender dele.”

“Quando jovem estudava por ostentação; depois, um pouco para tornar-me sábio; agora para me divertir, nunca pelo proveito.”

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“Para eles, não há explicação mais convincente do que suas conclusões.”

“Do que digo não garanto outra certeza se não que é o que naquele momento o que eu tinha no pensamento.”

“[Sobre os prazeres] não devemos persegui-los nem fugir deles, devemos aceita-los.”

“A palavra é a metade de quem a pronuncia, metade de quem escuta”.

“Eu sei bem do que eu estou fugindo, mas não o que eu estou buscando”.

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“Os homens tendem a acreditar, sobretudo, naquilo que menos compreendem”. 

“Não me encontro onde procuro, mas de repente, quando menos espero”. 

“Nós podemos chegar a ser cultos com conhecimento de outros homens, mas nós não podemos ser sábios com sabedoria de outros homens”.

“É uma presunção perigosa e fútil, além de uma absurda temeridade, ter desprezo pelo que nós não compreendemos”. 

“O que sou eu sou para mim mesmo importa mais do que eu significo para os outros”. 

“Só os loucos têm certeza e não mudam de opinião.”

Quem aplica um castigo quando está irritado, não corrige, vinga-se.” 

“Os homens têm tal apego à própria miserável vida que aceitam as mais duras condições para conservá-la.” 

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