Bukowski: dias cinzentos

“Levantei-me e fui ao banheiro. Me dava raiva olhar o espelho, mas olhei assim mesmo. Vi depressão e derrota. Bolsas escuras caídas sob os olhos. Olhinhos covardes, os olhos do rato acuado pelo puto do gato. A pele parecia que nem tentava. Que odiava fazer parte de mim. As sobrancelhas caíam retorcidas, pareciam dementes, dementes pêlos de sobrancelhas. Horrível. Uma aparência repugnante. E eu não estava nem querendo evacuar.”

“Sempre havia alguma coisa querendo pegar a gente. Não dava folga. Sem descanso, nunca.”

“Tomei um trago de saquê, frio. As orelhas saltaram e eu me senti um pouco melhor.
Sentia o cérebro começando a pegar. Ainda não morrera, só estava em estado de rápida decomposição. Quem não estava? Estávamos todos na mesma canoa furada, tentando nos alegrar. Como, por exemplo, no Natal. É, tira essa merda toda daqui. O homem que inventou isso nunca teve que carregar excesso de bagagem. O resto de nós tem de jogar fora todo o seu lixo só para saber onde está. Bem, não onde estamos, mas onde não estamos. Quanto mais porcaria a gente joga fora, mais encontra para jogar. Tudo funcionava ao contrário. Ande para trás que o nirvana lhe salta no colo. Claro.”

– Bukowski, no livro Pulp

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Cartas de Sêneca. Um roteiro estóico.

“Alguns homens vivem em atos tão escuros, que só enxergam o breu mesmo durante o dia.”
– Sêneca

Projeto começando neste momento: ler todas as cartas de Sêneca.

A série de livros está dividida em 3 volumes, nos quais o filósofo estóico discorre sobre temas práticos da vida como o dinheiro, infortúnios, dores, amizades, família, morte, doença etc sempre defendendo a postura de autocontrole, rigor e serenidade face ao destino e às coisas que não temos condição de controlar.

A filosofia estóica nos deu obras maestras nas mãos de Marco Aurélio, Sêneca e Epicteto. A variedade social da penetração de tal pensamento mostra-se na condição de cada um dos autores mencionados: o primeiro um imperador romano; o segundo um senador e diplomata e o terceiro um escravo.

Apesar de serem escolas de pensamento que formalmente se diziam opostas, o estoicismo e o epicurismo possuíam muitos traços em comum, como não escapou às observações de Sêneca, no trato sereno com as dificuldades da vida e na defesa de valores maiores como honestidade, distanciamento das multidões e ruídos do mundo, focando-se no desenvolvimento da fortitude de caráter sob qualquer pressão ou circunstância.

Não era uma filosofia preocupada com grandes temas sociais ou a descrição de grandes sistemas para o mundo ou o Estado. O estoicismo focava no indivíduo e em seu caráter, em como agir perante os fatos do dia a dia e em como organizar a própria razão e os sentimentos. Usando de termos contemporâneos – e por isso totalmente anacrônicos – podemos dizer que o estoicismo é um estudo de inteligência emocional e de controle das pulsões mais violentas e animalescas de nossa psique.

Mantenha-se forte.

Mantenha-se bem.

Bukowski: diálogo socrático

Stirkoff, você é um covarde?
É claro, senhor.

Qual é a sua definição de covarde?
Um homem que pensaria duas vezes antes de lutar com um leão com as
mãos nuas.

E qual é a sua definição de um homem corajoso?
Um homem que não sabe o que é um leão.

Qualquer homem sabe o que é um leão.
Qualquer homem pensa que sabe.

E qual é a sua definição de um tolo?
Um homem que não se dá conta que o Tempo, a Estrutura e a Carne em sua
maior parte se desgastam.

Então quem é que é sábio?
Não existe nenhum sábio, senhor.

Então não pode haver nenhum tolo. se não existe noite não pode existir dia;
se não existe branco não pode existir preto.”

– Bukowski, Notas de um velho Safado

Abaixo: Van Gogh, paisagem noturna

Shakespeare: o Menestrel

“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes, não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam… E aceita que não importa quao boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que leva-se anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem da vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa – por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a ultima vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.

Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.

Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai, é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.

Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar… que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!
Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar”

-Willian Shakespeare, poema ” O menestrel”

Abaixo: Roda da Vida no hinduísmo