Platão em tempos de informação por whatsapp

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Nietzsche: torna-te cinzas

Mas o pior inimigo que podes encontrar será sempre tu mesmo; espreitas a ti mesmo nas cavernas e florestas.

Ó solitário, tu percorres o caminho para ti mesmo! E teu caminho passa diante de ti mesmo e dos teus sete demônios.

Herege serás para ti mesmo, e feiticeira, vidente, tolo, ímpio e malvado.

Tens de querer queimar em tua própria chama: como te renovarias, se antes não te tornasses cinzas?

Assim Falou Zaratustra
Do caminho do criador
Friedrich Nietzsche

Explicando os conceitos: maquiavelismo político

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Realpolitik é um termo alemão que faz menção à politica ou diplomacia baseada em considerações de ordem prática, abandonando-se quaisquer noções ideológicas. Trata-se de um termo usado normalmente de forma pejorativa, mas que se lastreia, em última análise em puro realismo político.

Historicamente, o termo foi usado pela primeira vez por escritores alemães do séc. XIX, mas  teóricos em história política apontam que o primeiro escritor a tratar de forma extensa do tema teria sido o florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527).

Normalmente vinculado à sua obra mais famosa “O Principe” , Maquiavel também foi poeta, escritor de peças teatrais ( “Mandrágora” ainda é considerada um ponto alto das peças de comédia apesar de engenhosamente tratar de política) , diplomata, historiador e músico. 

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Ao contrário de outros escritores que se debruçaram sobre a descrição de Estados idealizados (podemos citar Platão em “A República” e Thomas More em “Utopia”, por exemplo), Maquiavel está preocupado em descrever o mundo tal qual ele é, com suas costuras políticas violentas e mesmo impiedosas. Não há qualquer tentativa de criação de um exemplo mais puro ou mais nobre a ser seguido ; nem  julgamentos sobre a moralidade da realidade que nos cerca.

Vídeo “O Príncipe” de Maquiavel

Maquiavel está preocupado em estabelecer normas de conduta para o agir do governante na vida real, sem idealizar estados perfeitos ou utópicos. Para tanto, considera e estuda diversos exemplos de governantes da antiguidade e de seu próprio tempo, mostrando onde agiram bem ou mal e o que poderiam ter feito de diferente no objetivo de conquistar e manter o poder.

Olhando ao redor, analisando a politica nacional e internacional, verificamos que nenhum desses conceitos são novos e, ao contrário, são praticados diuturnamente pela classe politica de todos os espectros.

Também não foram uma invenção do autor florentino, em que pese seu nome estar vinculado inexoravelmente ao cometimento de atos imorais ou de crueldade fria. Maquiavel  escreveu seu livro como um médico realizando uma autópsia. Não expôs suas inclinações morais ou seus conceitos de estado perfeito; apenas trouxe luz para um tema em que outros autores antes dele apenas tergiversavam. Por isso, é considerado o pai da teoria política moderna.

A virtude do governante está em agir de acordo com as exigências das circunstâncias para alcançar ou manter-se no poder, sem dar ouvidos às noções comuns da moral.

Maquiavel declara que a astúcia, a mentira, a má-fé, a troca de favores, o abandono de aliados que não são mais úteis, todos os meios são válidos para manutenção do poder do Estado. Os fins justificam os meios, conforme explicita literalmente.

Não existe um objetivo maior para se alcançar o poder. Não se fala em bem comum, servir ao próximo, felicidade geral etc… apenas luta-se para ter o poder; para estar-se na posição de vantagem na sociedade.

Contudo, é necessário aparentar sempre comportamentos da virtude comum, de boa-fé, de religiosidade e moral para não perder o sentimento de respeitabilidade com o restante da população.

O autor entende que os homens não são bons, portam-se com violência e trairão o governante se as circunstâncias assim o permitirem. Contudo, apesar de não serem bons, os homens (súditos ou aliados) valorizam a imagem de boa-fé e honradez que deve ser cuidadosamente cultivada quando for de interesse.

Em nenhuma circunstância o governante deve abrir mão do comando. O poder detesta o vácuo e qualquer vacilo no exercício do poder será aproveitado por outrem. É necessário que os súditos tenham exata noção do poder e autoridade do governante de forma que em momentos de dificuldade ou guerra, este comando não venha a ser ameaçado ou contestado.

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É clássica a explanação do autor sobre o amor ou temor dos súditos. O ideal seria ser amado e ao mesmo tempo manter o temor entre os seus súditos, contudo, como manter ambas qualidades é dificil, é melhor ser temido do que ser  amado. O temor possui meios mais eficientes para a manutenção do poder.

Quando ações duras ou maléficas se fazem necessárias, o governante deve realizá-los de uma só vez e de forma rápida, de forma a maximizar seus efeitos de terror e sem manter a sociedade eternamente atemorizada (o que ocorreria se as maldades do governo fossem feitas aos poucos e em intervalos constantes), pois tal situação levaria à revolta e a rebelião. Mas as eventuais bondades devem ser sempre feitas aos poucos, de forma seletiva e protraindo-se no tempo,  mantendo sempre a necessidade e a gratidão do povo.

  • Manuel Sanchez, Explicando os conceitos: Maquiavelismo