“Se” de Rudyard Kipling – poema da personalidade estóica

“Se” é provavelmente o  poema mais famoso de Kipling, dedicado ao seu filho de 12 anos de idade. O texto elenca uma série de conselhos de ternura e sabedoria, voltados para a construção moral de um homem em tudo seguidor dos preceitos estóicos.

O rapaz morreria poucos anos depois, assim que chegou ao front da 1a Guerra Mundial, provavelmente sem ter tido tempo de tornar-se o homem que seu pai sonhara.

 

Se és capaz de manter a tua calma quando 
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;  
De crer em ti quando estão todos duvidando,  
E para esses no entanto achar uma desculpa; 
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares, 
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar — sem que a isso só te atires, 
De sonhar — sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo,
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais — tu serás um homem, ó meu filho!

 

Divagações Estóicas: Marco Aurélio, “Meditações”

Meditações“ é um conjunto de 12 livros que trazem máximas a respeito do auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal do imperador romano Marco Aurélio (121-180 dC), líder do Império em seu momento de maior expansão e força, em um caderno de escritos pessoais que ele havia intitulado apenas como “Para Eu Mesmo” ; elaborado ao longo de sua vida com suas divagações sobre responsabilidade, desenvolvimento de resiliência, ordenação do caráter honrado e a manutenção da calma e serenidade ao lidar com as situações difíceis e doloridas da existência.

Tal obra seriam reunida postumamente, tornando-se um dos grandes livros com os ensinamentos e estilo de vida estóicos, a par com as cartas de Sêneca e os adágios de Epicteto.

Previne a ti mesmo ao amanhecer: “Vou encontrar um intrometido, um mal-agradecido, um insolente, um astucioso, um invejoso, um avaro”. (Livro II, 1)

“Não sejam tuas opiniões aquelas que o insolente adota ou quer que tu adotes, mas verifica se, em si mesmas, se conformam com a verdade”. (Livro IV, 11)

“És dotado de razão? – Sou. – Então, por que dela não usas? Se ela desempenha o seu papel, que mais queres?” (Livro IV, 13)

“Não procedas com se houvesses de durar dez milênios; o fim inevitável pende sobre ti; enquanto vives, enquanto podes, torna-te um bom”. (Livro II, 17)

Vê o fundo; não te passe despercebida, em coisa alguma, sua qualidade própria, nem seu valor. (livro VI, 3)

“A melhor maneira de arredá-los é não parecer com eles”. (Livro VI, 6)

“Se achas demasiado árdua para ti uma empresa, nem por isso a suponhas impossível ao homem; ao contrário, se algo é possível e próprio de homem, considera-o acessível também a ti”. (Livro VI, 19)

Eu cumpro o meu dever. Os outros seres não me inquietam; ou são inanimados, ou irracionais, ou vagantes que desconhecem o caminho”. (Livro VI, 22)

“Todos colaboramos numa única realização, uns consciente e inteligentemente, outros sem o perceberem. Isso, penso, significava Heráclito ao dizer que até os que dormem são obreiros e colaboradores dos acontecimentos do mundo.” (Livro VI, 42)

“O que não convém ao enxame não convém tampouco à abelha”. (VI, 54)

“Perto estás de esquecer tudo e de ser esquecido de todos”. (Livro VII, 21)

A arte de viver é mais semelhante à luta que à dança em nos mantermos eretos e preparados para os acontecimentos imprevistos. (Livro VII, 61)

“É cômico não fugir à própria maldade – o que é possível; e querer fugir à dos outros – o que é impossível”. (Livro VII, 71)

“Lembra-te de que mudar de opinião e seguir a quem te corrige são igualmente atos livres, pois é atividade tua, desenvolvida de acordo com um impulso ou julgamento teu e naturalmente também de acordo com a tua inteligência”. (Livro VIII, 16)

“… vendo tudo como é, trato cada coisa segundo o seu valor”. (Livro VIII, 29)

[Livro IV, 27 ] Ou um universo que é todo ele ordem, ou então uma balbúrdia atirada ao acaso, mas formando um universo. Mas, poderá subsistir alguma ordem em ti próprio e ao mesmo tempo a desordem no Todo mais amplo? E isso quando existe unidade de sentimentos entre todas as partes da natureza, apesar das suas divergências e dispersão?

[ Livro IV, 36 ] Vê como todas as coisas estão sempre a nascer da mudança; ensina-te a ti próprio a ver que a mais elevada felicidade da Natureza reside em mudar as coisas que existem e formar novas coisas da mesma espécie. Tudo aquilo que existe é, em certo sentido, a semente do que irá nascer de si. Não há nada menos próprio de um filósofo do que imaginar que a semente só pode ser alguma coisa que se deita à terra ou no útero.

[ Livro IV, 44 ] Tudo o que acontece é tão normal e já esperado como a rosa na primavera ou o fruto no verão; isto é verdade para a doença, para a morte, para a calúnia, para a intriga e para todas as outras coisas que deliciam ou incomodam os tolos.

[ Livro IV, 45 ] O que acontece a seguir está sempre intimamente relacionado com aquilo que o precedeu; não é um desfile de acontecimentos isolados que obedecem simplesmente às leis da sequência, mas uma continuidade racional. Além disso, tal como as coisas que já existem, estão todos coordenados harmoniosamente, os que se encontram em processo de nascimento exibem a mesma maravilha de concatenação, e não o facto nu e cru da sucessão.

[ 48 ] Lembra-te sempre de todos os médicos, já mortos, que franziam as sobrancelhas perante os males dos seus doentes; de todos os astrólogos que tão solenemente prediziam o fim dos seus clientes; dos filósofos que discorriam incessantemente sobre a morte e a imortalidade; dos grandes chefes que chacinavam aos milhares; dos déspotas que brandiam poderes sobre a vida e a morte com uma terrível arrogância, como se eles próprios fossem deuses que nunca pudessem morrer; de cidades inteiras que morreram completamente, Hélice, Pompeia, Herculano e inúmeras outras. Depois, recorda um a um todos os teus conhecidos; como um enterrou o outro, para depois ser deposto e enterrado por um terceiro, e tudo num tão curto espaço de tempo. Repara, em resumo, como toda a vida mortal é transitória e trivial; ontem, uma gota de sémen, amanhã uma mão cheia de sal e cinzas. Passa, pois, estes momentos fugazes na terra como a Natureza te manda que passes e depois vai descansar de bom grado, como uma azeitona que cai na estação certa, com uma bênção para a terra que a criou e uma ação de graças para a árvore que lhe deu a vida.

Trechos retirados do livro Meditações de
Marco Aurélio , imperador romano e filósofo estóico.

Guia rápido do Blog: Explicando os Conceitos

Para facilitar a vida dos leitores, tenho uma lista da série “Explicando os Conceitos”, onde tento destrinchar conceitos chave no entendimento da obra de alguns autores. 

Espero que ajude,

Manuel Sanchez

  1. Amor Fati em Nietzsche
  2. Ética da Virtude v. Ética do Dever (Aristóteles v. Kant)
  3. Hobbes: O Homem é Lobo do próprio Homem
  4. Nietzsche e a Religião v. Super-Homem
  5.  O Eterno Retorno em Nietzsche
  6. Sartre: A Existência Precede a Essência
  7. Kant e o Imperativo Categórico
  8. O Estado de Natureza em Hobbes e em Rosseau
  9. Descartes: Penso, Logo Existo
  10. Nietzsche: Deus está Morto
  11. O Totalitarismo em Platão
  12. O Homem como Ser Político e o Estado Aristotélico
  13. David Hume: paixão determinística vs livre-arbítrio
  14. Epicuro e o Paradoxo do Mal na existência humana
  15. Maquiavelismo Político
  16. Sartre e os limites da liberdade de escolha: conceito de situação
  17. A percepção em Berkley
  18. A Linguagem em Wittgenstein
  19. Bakthin e os Limites do Eu e da Linguagem
  20. Pitágoras e Juvenal: Mente Sã em Corpo São
  21. Por que Sócrates foi julgado?
  22. Explicando o Niilismo em Nietzsche
  23. O mundo das Idéias Platônico
  24. A alegoria da Caverna Platônica

Schopenhauer e a mosca

A Mosca

Como símbolo da ousadia e da impertinência, dever-se-ia escolher a mosca. Pois, enquanto todos os animais temem o homem mais do que tudo e voam antes mesmo que este se aproxime, a mosca pousa em seu nariz.

— Arthur Schopenhauer, em A Arte de Insultar.

Abaixo:filme A Mosca (1986) de David Cronemberg

Sêneca e o Viajante ou o ser à deriva

Enquanto ignorares a distinção entre o evitável e o desejável, o necessário e o supérfluo, o justo e o injusto, o moral e o imoral — nunca serás um viajante, mas apenas um ser à deriva.”
(Sêneca)

Abaixo: cena do filme O Livro De Eli