Notas sobre a falta de ouvidos

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Fernando Pessoa: Os deuses e os nossos cacos 

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.

Caiu pela escada excessivamente abaixo.

Caiu das mãos da criada descuidada.

Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!

Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.

Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.

Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.

E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zangam com ela.

São tolerantes com ela.

O que eu era um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,

Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.

Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.

Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?

Um caco.

E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.

Fernando Pessoa

Crítica de cinema: Liga da Justiça 

Após assistir o filme fui ler as críticas e o filme tornou-se uma quase unanimidade na rede. Particularmente, minha opinião é diferente e esse post é dedicado para isso.

Liga da Justiça é  um bom filme de sessão da tarde.  É muito animado, mas também é a capitulação de qualquer tentativa de originalidade dos filmes DC e o reconhecimento de que o “estilo Marvel” é o dominante. Mas a DC ainda não sabe copiar direito o estilo do estúdio concorrente e a diferença de visões artísticas entre os diretores responsáveis não auxilia.

O filme pode ser visto como uma continuação direta de Batman versus Superman (BvS), que mesmo com suas falhas teve o mérito de tentar criar uma atmosfera própria e uma assinatura particular aos filmes da DC. O filme foi muito atacado pela crítica e mesmo por muitos fãs que preferiam assistir uma obra menos pesada e com um estilo mais esperançoso. Particularmente, eu sou um fã de BvS e acredito que em boa parte isso me colocou em uma situação de desconforto com as mudanças de ritmo e caracterização presentes em Liga da justiça. 

Tudo o que existia em BvS e que era uma tentativa de diferenciação foi descartado: o estilo dark, a caracterização dos personagens, o passado arrebentado do Batman, as cenas de luta no estilo videogame do Arkham, as subtramas e a falta de linearidade no roteiro. 

O filme da Liga é direto, linear, sem surpresas, sem subtramas, focado em ação e muito animado com boas piadas.

O Batman é um ponto baixo da trama , retratado agora em um estilo  tiozao que apanha o filme inteiro e nada lembra BvS. O personagem Flash retrata o novato deslumbrado e isso o coloca de forma muito interessante no filme em uma boa quimica com o outro novato Ciborg. O Aquaman foi totalmente redesenhado em relação aos quadrinhos e parece promissor em um futuro filme.

As melhores  cenas de ação são as que  tem participação da mulher maravilha. O superman retorna de forma interessante e recoloca a caracterização do personagem em seu lugar de líder inspirador após momentos iniciais de fúria.

Infelizmente o vilão Lobo das Estepes não convence. Parece um  típico vilão de episódios do Power Rangers. Dos episódios ruins do Power Rangers. Mas ele faz o seu papel para criar as inevitáveis cenas de luta. Sua motivação é rasa e não há qualquer tratamento adicional além do usual “eu vim dominar o mundo”.

Os pós-creditos do filme são excelentes. No primeiro existe a recriação de uma capa clássica dos quadrinhos e no segundo a preparação de futuras tramas para um próximo filme.

No geral o filme diverte. Mas logo depois você o esquece.