Anotações Órficas: a ilusão

Anotações Órficas: A Ilusão

(por Manuel Sanchez)

 

Todo o sistema que criamos para movermos neste mundo é  uma ilusão. Todo o sistema: relações de sexualidade, formas de poder, estruturas de governo, controle monetário, relações de divisão de renda, estruturas religiosas, critérios de liberdade de pensamento, grau de independência de nossas ações, formas de punição, maneiras de humilhação e marginalização. Todo o sistema.

Inseridos que somos neste determinado emaranhado de relações sociais, com seus signos e significantes dados como verdades absolutas gerações antes do nascimento das gerações que nos antecederam , com comportamentos seletiva e arbitrariamente estabelecidos para beneficiar grupos específicos mas passados de geração em geração como normas inquestionáveis.  

Formados por nossos familiares e moldados pela vida social, os primeiros anos das nossas vidas são uma doutrinação diária. Aprendemos a ver e a reagir ao mundo como nos é imposto desde mesmo antes de formularmos as primeiras palavras.

A verdade de tal formulação social é tao reiterada e fortalecida pelas pessoas que amamos e instituições das quais fazemos parte que  – muitas vezes – torna-se incogitável a simples proposição de que o mundo e suas verdades são apenas uma das inúmeras configurações possíveis; tão arbitrária e casual como qualquer outra, apenas solidificada pela força do agir diário da maioria.

De fato, a maioria de nós permanecerá até o túmulo vivendo com esse código e sem questioná-lo. Pouco importa aqui que se tal código a fere, exclui ou humilha. É o código. É a estrutura. É a lei. É a palavra de Deus. São os valores familiares. É a tradição. Ensinamentos reiterados e fortalecidos pela família, amigos, empregadores, pastores, midia… em algum momento talvez a pessoa tenha uma ansiedade, uma dor, uma dúvida… mas a maioria não tem forças para sair dessa ilusão. A maioria sequer imagina que vive inserido em uma ilusão. E morrerá assim. 

 Mas alguns indivíduos desconfiam. 

Alguns olham ao seu redor e se questionam. 

Nem todos levarão essa questão para o plano das ações divergentes. Muitos irão perceber o holograma em que vivem e irão se proteger do conformismo com as armas do cinismo e do distanciamento. Juntos com as armas da visão crítica, perceberão as amarras arbitrárias. Criarão seus feudos, participarão de pequenas tribos.  Uma boa parte deles conseguirá manter a máscara no meio dos cegos, sabendo que sua vela não os deixará na escuridão. Lamentarão pela horda de zumbis. Seguirão com suas vidas. Às vezes encontrando um ou outro irmão de pensamento. 

Outros não conseguirão conviver com esse comportamento. Aos seus olhos isto seria um egoísmo. Sua chama os obrigará a levar a luz para os zumbis presos na ilusão do holograma.  Precisam fazer isso pelos outros mas sobretudo por si mesmos. Desejam tão ardentemente modificar as regras estabelecidas na pedra que, não raro, irão arriscar-se a serem marginalizados e agredidos.   

Estes últimos sofrerão mais. Mas sem eles a manada nunca evolui. Um passo de cada vez, para fora do holograma.   

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Bukowski: Meu vício eu sei qual é

– Quer tomar um drinque no bar?
– Você me transformou numa alcoólatra, Hank; Tô tão fraca que mal consigo andar.
– Foi só o bebum?
– Não, claro – disse ela, com um sorrisinho.
– Então, vamos lá beber alguma coisa.
– Beber, beber, beber! Você só pensa nisso?
– Não, mas é um bom jeito de atravessar espaços como esse aqui.
– Você não consegue encarar as coisas sóbrio?
– Posso, mas prefiro não.
– Isso é escapismo.
– Tudo é: jogar golfe, dormir, comer, andar, brigar, fazer cooper, respirar, trepar…”

Bukowski, no livro Mulheres 👠

Grandes frases grandes livros: notas de um velho safado

Eu sabia que tinha alguma coisa de errado comigo, mas eu não me considerava insano.

Era simplesmente que eu não conseguia compreender como é que outras pessoas tornavam-se tão facilmente irritadas, para em seguida com a mesma facilidade esquecer a sua ira e se tornarem alegres, e como é que eles podiam ser tão interessados por tudo, quando tudo era tão chato.

– Bukowski

Império das imagens

Nunca a tirania das imagens e a submissão alienante ao império da mídia foram tão fortes como agora.

Nunca os profissionais do espetáculo tiveram tanto poder: invadiram todas as fronteiras e conquistaram todos os domínios – da arte à economia, da vida cotidiana à política – passando a organizar de forma consciente e sistemática o império da passividade moderna.”

– Guy Debord, em “A Sociedade do Espetáculo”.