Nietzsche e a função da arte 

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Nietzsche: os erros dos homens 

Os Quatro Erros

A educação do homem foi feita pelos seus erros: em primeiro lugar, ele nunca se viu senão imperfeitamente; em seguida, atribuiu-se qualidades imaginárias; em terceiro, sentiu-se em relações falsas diante da natureza e do reino animal; em quarto, nunca deixou de inventar tábuas do bem sempre novas e tomou cada uma delas durante um certo tempo como eterna e absoluta, de tal maneira que o primeiro lugar foi ocupado sucessivamente por este ou aquele instinto ou este ou aquele estado que enobrece esta apreciação. 

Ignorar o efeito destes quatro erros é suprimir a humanidade, o humanitarismo e a «dignidade humana». 

Friedrich Nietzsche, in ‘A Gaia Ciência’

Nietzsche e os mistérios  

“A verdadeira questão é: Quanta Verdade consigo Suportar?”

Em Ecce Homo.


“O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.”

 Em Assim Falou Zaratustra
” Os povos só são tão enganados porque procuram sempre um enganador, isto é,um vinho excitante para seus sentidos.”

Em Aurora
 “Nenhum vencedor acredita no acaso.”                                                    Friedrich Nietzsche           

Nietzsche: o andarilho 

Nietzsche, F. “Humano, Demasiado Humano I §638: O Andarilho”

 

‘Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. 

Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem.

 Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar. 

Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia será quase pior do que a noite. 

Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos. 

Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: – eles buscam a filosofia da manhã’

Explicando os conceitos: Nietzsche e a religião vs. O super-homem 

 

Nietzsche tinha uma postura virulenta contra a religião, sobretudo a cristã, responsável pelo caldo cultural do Ocidente. Para ele, este era o símbolo maior do niilismo, lembrando que em Nietzsche o niilismo tem o significado oposto do que normalmente defini-se na filosofia. Aqui, o niilismo é a negação da vida, a entrega da própria vida e pulsões em nome de alguma crença transcendente à realidade (seja esta crença religiosa ou laica), como foi melhor explicado neste post.

Para o filósofo do martelo, a religião era uma forma de controle sobre o homem, sendo uma ferramenta usada para retirar de nós nossas vontades e pulsões. O homem religioso seria um cordeiro, um eunuco da própria potência que busca sempre um guru, pastor, mestre ou divindade para decidir por ele e em quem poderia recorrer para chorar suas fraquezas. 

Nietzsche acreditava que a filosofia e a moral religiosas eram a moral do escravo, do subserviente. É a criação dos homens reativos que se juntam em grupo por não terem força de cuidar das suas necessidades e vontades, opondo-se pelo maior número aos homens dominados por suas forças ativas.

O homem religioso – ou qualquer outro homem entregue ao niilismo (niiilismo segundo a definição de Nietzsche!) – buscaria uma resposta exterior a si próprio por não ter coragem de decidir sozinho  e viver com as consequências de suas escolhas.  O homem forte não necessitaria de qualquer auxílio psicológico ou metafísico  para gerir sua vida. E também não estaria jungido a qualquer moral de auxílio aos fracos. Este seria o super-homem.

O homem niilista em Nietzsche  – entregue a doutrinas externas, transcendentes da realidade – seria o oposto do super homem, última fase de nossa evolução pessoal. 

Para Nietzsche o super-homem é aquele que tem controle sobre a sua vida, luta pelos seus desejos, assume suas responsabilidades sem necessitar de apoios externos ou crenças metafísicos. É o homem que não recorre a pastores, divindades, autoajuda, respostas prontas, mandamentos exteriores ou tabelas pré moldadas de valores. O super-homem se basta por ter atingido um grau de autoconhecimento em que aceita sua vontade de potência e vive o mundo real, sem muletas metafísicas e criaturas ficcionais.

Ao mesmo tempo em que vemos o super-homem de Nietzsche como modelo a ser perseguido, a força ativa por natureza criando-se a si próprio sem subserviência; não se pode ficar cego para sua fácil inclinação a assumir uma postura fria e insensível para com os demais seres humanos. 

-Nietzsche e a religião vs o super-homem, introdução por  Manuel Sanchez