Nietzsche: o andarilho 

Nietzsche, F. “Humano, Demasiado Humano I §638: O Andarilho”

 

‘Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. 

Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem.

 Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar. 

Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia será quase pior do que a noite. 

Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos. 

Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: – eles buscam a filosofia da manhã’

Explicando os conceitos: Nietzsche e a religião vs. O super-homem 

 

Nietzsche tinha uma postura virulenta contra a religião, sobretudo a cristã, responsável pelo caldo cultural do Ocidente. Para ele, este era o símbolo maior do niilismo, lembrando que em Nietzsche o niilismo tem o significado oposto do que normalmente defini-se na filosofia. Aqui, o niilismo é a negação da vida, a entrega da própria vida e pulsões em nome de alguma crença transcendente à realidade (seja esta crença religiosa ou laica), como foi melhor explicado neste post.

Para o filósofo do martelo, a religião era uma forma de controle sobre o homem, sendo uma ferramenta usada para retirar de nós nossas vontades e pulsões. O homem religioso seria um cordeiro, um eunuco da própria potência que busca sempre um guru, pastor, mestre ou divindade para decidir por ele e em quem poderia recorrer para chorar suas fraquezas. 

Nietzsche acreditava que a filosofia e a moral religiosas eram a moral do escravo, do subserviente. É a criação dos homens reativos que se juntam em grupo por não terem força de cuidar das suas necessidades e vontades, opondo-se pelo maior número aos homens dominados por suas forças ativas.

O homem religioso – ou qualquer outro homem entregue ao niilismo (niiilismo segundo a definição de Nietzsche!) – buscaria uma resposta exterior a si próprio por não ter coragem de decidir sozinho  e viver com as consequências de suas escolhas.  O homem forte não necessitaria de qualquer auxílio psicológico ou metafísico  para gerir sua vida. E também não estaria jungido a qualquer moral de auxílio aos fracos. Este seria o super-homem.

O homem niilista em Nietzsche  – entregue a doutrinas externas, transcendentes da realidade – seria o oposto do super homem, última fase de nossa evolução pessoal. 

Para Nietzsche o super-homem é aquele que tem controle sobre a sua vida, luta pelos seus desejos, assume suas responsabilidades sem necessitar de apoios externos ou crenças metafísicos. É o homem que não recorre a pastores, divindades, autoajuda, respostas prontas, mandamentos exteriores ou tabelas pré moldadas de valores. O super-homem se basta por ter atingido um grau de autoconhecimento em que aceita sua vontade de potência e vive o mundo real, sem muletas metafísicas e criaturas ficcionais.

Ao mesmo tempo em que vemos o super-homem de Nietzsche como modelo a ser perseguido, a força ativa por natureza criando-se a si próprio sem subserviência; não se pode ficar cego para sua fácil inclinação a assumir uma postura fria e insensível para com os demais seres humanos. 

-Nietzsche e a religião vs o super-homem, introdução por  Manuel Sanchez 

 

 

 

 

Explicando os Conceitos: O Eterno Retorno em Nietzsche

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O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terá de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.

– Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”.

Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela”

– Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341

 

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Para inaugurar a seção “Explicando os Conceitos”, proponho a chave do eterno retorno exposta em diversas passagens da obra do filósofo Friedrich Nietzsche.

O conceito do eterno retorno é central na obra de Nietzsche. Trata-se de um um rigoroso critério de avaliação da própria vida.

Através do eterno retorno, o filósofo pergunta se  vida que você tem hoje é a vida que você quer viver. O conceito passa longe de qualquer interpretação metafísica e também não tem qualquer relação com a repetição da rotina ou a  passagem do tempo de forma cíclica e outras interpretações enviesadas que encontra-se em alguns textos.

O eterno retorno é uma régua de avaliação individual para a vida que você leva neste momento: agora. 

Nietzsche é um filósofo vitalista preocupado com a vida que se leva na completa imanência – neste mundo, o único possível –  sem qualquer tipo de muleta metafísica ou transcendental. Assim, seu critério de avaliação da vida só pode ser feito aqui, neste momento.  O emprego que você tem, o relacionamento em que você está, o tipo de vida que você leva…. se eles voltassem e voltassem e voltassem, você seria feliz? E se a resposta for negativa, o que te impede de mudar? A felicidade deve ser buscada e batalhada na criação de uma vida que se deseje que retorne, a cada dia, a cada momento, que pode ser repetir  sempre.

A régua de avaliação do eterno retorno é individual. Não se trata aqui de um conceito de autoajuda; não se fala de regras de condutas a serem copiadas e imitadas por todos. Cada um, por si e na mais desolada solidão, deve enxergar em seus gostos e inclinações aquilo que o deixa feliz e satisfeito. E colocá-los de maneira integral em sua vida.  E assim entendemos a pergunta do demônio de Nietzsche:  se essa vida que você tem agora tivesse que repetir de novo e de novo e de novo, você ajoelharia e rangeria os dentes ou responderia que nunca ouviu coisa mais linda?

– Manuel Sanchez

Nietzsche: a fragilidade dos valores 

A Fragilidade dos Valores

Todas as coisas «boas» foram noutro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original. 

O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprudência de se apropriar de uma mulher […] 

Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos suplícios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumeráveis mártires; por estranho que isto hoje nos pareça, já o demonstrei na Aurora, aforismo 18: 

«Nada custou mais caro do que esta migalha de razão e de liberdade, que hoje nos envaidece». 

Esta mesma vaidade nos impede de considerar os períodos imensos da «moralização dos costumes» que precederam a história capital e foram a verdadeira história, a história capital e decisiva que fixou o carácter da humanidade. Então a dor passava por virtude, a vingança por virtude, a renúncia da razão por virtude, e o bem-estar passivo por perigo, o desejo de saber por perigo, a paz por perigo, a misericórdia por opróbio, o trabalho por vergonha, a demência por coisa divina, a conversão por imoralidade e a corrupção por coisa excelente. 

Friedrich Nietzsche, in ‘A Genealogia da Moral’

Quadros de Henri Toulouse-Lautrec