Camus: evoluindo do rebelde solitário para a participação 

“A Peste, que eu quis que fosse lida em vários níveis, tem, porém, como conteúdo evidente a luta da resistência europeia contra o nazismo. 

Comparada com O Estrangeiro, A Peste marca, indiscutivelmente, a transição de uma atitude de revolta solitária para o reconhecimento de uma comunidade de cujas lutas é preciso compartilhar. 

Se há uma evolução de O Estrangeiro para A Peste, ela ocorreu no sentido da solidariedade e da participação.”

Albert Camus

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Albert Camus e o homem 

“A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.”

“Um homem é mais homem pelas coisas que silencia do que pelas coisas que diz. Vou silenciar muitas. Sabendo que não há causas vitoriosas, gosto das causas perdidas: elas exigem uma alma inteira, tanto na derrota quanto nas vitórias passageiras. Criar é viver duas vezes… Todos tentam imitar, repetir e recriar sua própria realidade. Sempre acabamos adquirindo o rosto das nossas verdades.”

Albert Camus

 

O absurdo da vida. A felicidade da vida. O destino é você quem faz.

(…) A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade […] toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão.

– Albert Camus no ensaio “O Mito de Sísifo” 

Albert Camus: aqueles que amo 

(…) Amo ou venero poucas pessoas. Por todo o resto, tenho vergonha da minha indiferença. Mas aqueles que amo, nada jamais conseguirá fazer com que eu deixe de amá-los, nem eu próprio e principalmente nem eles mesmos. São coisas que levei muito tempo para aprender; agora já sei. 

– Albert Camus, em “O Primeiro Homem”

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Nota pessoal: acho que poucas vezes eu publiquei uma frase nesse blog que eu concordasse tanto. E agora vou ter que comprar o livro.

Explicando os conceitos: A existência precede a essência (Sartre)

Para o filósofo Jean Paul Sartre, apenas no ser humano a existência precede a essência, o que constitui toda a angústia e a liberdade do homem.

Imagine uma faca, ou uma roda ou um veículo ou uma empresa química. Esses objetos, máquinas e construções da técnica humana foram idealizados antes de serem efetivamente construídos. Digamos, sua essência pré existia a sua efetivação no mundo físico. A idéia veio antes do corpo físico. A função veio antes da sua construção.  Portanto, a Essência precede a existência.

No caso dos demais seres vivos, desde a samambaia até a onça pintada, todos eles nascem equipados com os instintos e reflexos necessários para a sobrevivência no seu meio. A evolução natural capacitou vegetais, insetos e animais existentes para todos os atos de crescimento, sociabilidade, reprodução, caça ou fuga. Já vem inscrito no instinto. Eles possuem isso no seu software que vem de fabrica insculpido no cérebro ao nascerem. Toda tartaruga marinha vai agir igual. Assim como todo pombo migratório. Nenhum animal desses vai decidir agir como um tatu bola ou sair de sua rota de migração planetária inscrita no seu DNA para de repente largar o grupo e ser ermitão no Himalaia. Podemos ensinar muitos truques a um cachorro mas há um limite possivel pela sua espécie. Um cachorro pode aprender a farejar drogas quando estimulado por petiscos em caso de sucesso, mas nem o cão mais inteligente conseguirá compor uma sinfonia ou calcular matematicamente a órbita de um foguete. 

Não é possível porque isso não está inscrito no seu instinto e eles não são equipados para agir fora de um estrito limite de possibilidades. Nesses seres, a essência também precede a existência.

Para Sartre,  isso não ocorre no ser humano. Não existe uma essência humana que nos coagiria pelo instinto e programação básica a sempre agir de determinada forma. 

Obviamente somos animais inseridos na ordem natural e temos instintos que nos indicam no software de nosso cérebro como lutar , fugir , acasalar e nos dão um instinto gregário. Mas o ser humano não é limitado por eles. Não há uma essência pré programada que nos defina e limite.

O ser humano sai de sua rota migratória e pode decidir ir viver como um ermitão no Himalaia se assim decidir. O ser humano pode decidir usar drogas por toda vida. Assim como pode aprender truques não apenas porque é chantageado com alimento, mas decidir por si próprio aprender a compor sinfonias ou calcular a matemática necessária para construir foguetes. 

Se temos instintos de acasalamento, há quem decida manter-se virgem por valores religiosos. E existem aqueles criados em estruturas gregárias e sociais estritamente asfixiantes e religiosas, mas que quebram o padrão familiar de gerações e decidem ser hippies ou cair na farra. Há quem tenha sido criado com valores simples mas decidiu romper com isso e ser executivo do setor de operações em bolsas de valores para ficar milionário. 

Não somos limitados por nossos instintos. Não existem valores pré ordenados eternos que condicionam nossa vida. 

Ou como diz o lema do existencialismo Sartreano “A existência precede a essência” .

Primeiro nascemos e depois vamos aprendendo a viver. Nosso software instalado no cérebro nos capacita para muita coisa mas não nos define. 

Nascemos em determinada cultura, somos preenchidos com certos valores desde a infância e orientados para agir da forma X,y ou z. Pode ser que ao longo da vida nós concordemos e reforcemos esses valores. Mas também podemos discordar e mudar de vida, valores e mesmo negar o corpo social no qual estamos inseridos. 

E isso ocorre porque não existe essência humana. Nem valores absolutos na espécie humana ou uma maneira única e certa de viver a vida. Não existe essência que antecede a existência humana.

Os valores são construídos por nós após a existência e ao longo da socialização. Decidimos no dia a dia com quais valores vamos aderir e de quais vamos nos afastar. E podemos refletir e alterar de opinião ao longo do caminho.

E fazemos isso individualmente e também como coletividade. O ser humano já aceitou na história recente  que negros eram inferiores e poderiam ser escravizados, que mulheres não tinham o direito de ocupar o espaço público, que homossexuais não tinham direito de ver reconhecidos direitos familiares e sucessórios básicos, que crianças poderiam ser objeto de violência com o objetivo de educação, que grupos raciais ou étnicos minoritários poderiam ser exterminados, que o embranquecimento da raça era desejável, que a eugenia era uma finalidade a ser perseguida, que a liberdade de opinião não cabe para todos os grupos, que certas religiões são mais benéficas do que outras e algumas podem ser caladas pela violência  etc etc etc…. 

E infelizmente nós sabemos que muitos dos exemplos citados acima ainda são defendidos por alguns grupos. E essa luta por valores e pela legitimidade do discurso que deságua na forma individual como levamos a nossa própria vida não terá fim. Ocorrerá com cada pessoa que andar sobre esse planeta. E isso ocorre porque no caso dos humanos o instinto não basta. Ele existe mas não dá conta do recado. Não existe essência humana que precede a existência.

E com isso vem a angústia de não termos caminhos pré decididos. Somos eternamente acompanhados pela liberdade de poder escolher e tomar um rumo que pode ser único. Albert Camus dizia que o entendimento dessa situação levava o homem ao que ele definiu como situação de absurdo.

Todos nascemos em determinada posição social e vivemos em um grupo com valores previamente sedimentados antes de nossa chegada. Sartre chama isso de “situação”. E a situação – tanto social quanto historicamente – traz para cada um de nós um rol de possibilidades e limites. Muitas vezes esses limites podem ser tão fortes e arraigados que romper com os mesmos pode levar a uma resposta violenta do grupo social dominante que acarrete o ostracismo, prisão ou morte daquele que tenta impor sua forma de viver. 

Mas a decisão de seguir adiante ou desistir por preguiça ou medo pela própria vida é nossa. E apenas nossa. Como nos alerta Sartre, mesmo na omissão existe decisão. E não vai nisso um julgamento moral mas uma simples constatação.

Valores são construídos historicamente. E individualmente aderimos ou os rechaçamos. Não existe forma correta prévia e absoluta de viver. Essa liberdade é nossa. E essa angústia também.

E assim resume Sartre nos lemas existencialistas : “a existência precede a essência” ou ” não existe essência antes da existência”.

– escrito por Manuel Sanchez