Anotações órficas: sobrevivente da caverna de Platão.

Todo mundo conhece a alegoria da caverna de Platão. Mas quando converso sobre ela verifico que muitos não sabem como a história termina.

O prisioneiro que foge da caverna de sombras e imagens bruxuleantes entra no mundo exterior e verifica que a realidade é muito mais complexa. Após o difícil período de adaptação com a luz, o ex-prisioneiro se dá conta do sol, dos objetos reais e percebe que o mundo onde havia sido criado e educado era formado apenas por sombras e afirmações dúbias e falsas.

Tão encantado com a nova verdade descoberta, o ex-prisioneiro volta para a caverna que tanto o iludiu. Seu objetivo era informar e ensinar sobre a realidade aos seus antigos companheiros de cativeiro. Essa é a parte bonita que quase todos conhecem.

Mas continue a ler a história na República e Platão nos informa que o ex-prisioneiro que volta com o conhecimento é mal recebido, hostilizado e por fim morto dentro da caverna por seus antigos companheiros; que preferem viver tranquilos, ainda que presos, vendo apenas as sombras. Muitos preferem matar o mensageiro a encarar a verdade.

Ao sair da caverna, dê -se um tempo para se acostumar com o sol. E se quiser voltar para ajudar outros, cuidado com os ataques. Nem todos estão prontos para verdades inconvenientes.

– Manuel Sanchez

Anúncios

Anotações órficas: cegueiras

Algumas pessoas insistem em buscar culpados externos. A culpa é do chefe, dos pais, do cônjuge castrador, das demais pessoas e sua inveja e seus rancores... vivem em um ciclo reencarnacionista de vitimizações. Eterno. Onde cada morte acarreta o retorno do mesmo rosário de culpados.

Há que se colocar novos óculos para visões tão míopes. O único culpado pelos seus atos e suas consequências é você mesmo: suas escolhas, suas decisões, sua impaciência, sua incapacidade em analisar uma situação, sua dificuldade em reconhecer seus erros e sobretudo seu medo de mudar.

Reflita.

– Manuel Sanchez

Anotações órficas: o rumo da manada

” Sempre que você se perceber andando ao lado da maioria, pare e reflita.”
– Mark Twain

O rumo da manada

As pessoas preferem a manada. A manada é simples. Protege no caso de erro. Poupa do pensamento crítico. Fornece paradigmas estabelecidos que não serão questionados. Dentro da manada o ser humano não precisa se justificar. Ela é confortável. Poupa energia. Preconceitos são chamados de tradição. Violências são chamadas de regras sociais.

Colocar -se contra a manada como opção padrão não te livrará desse ciclo. Aqueles que adotam o pensamento contrário como definição de seu estilo apenas criam uma segunda manada: um novo pelotão que se forma mugindo e distribuindo coices apenas para se opor à manada original.

Você deve viver à parte da manada. Independente dela. Pensando por si próprio. Raciocinando. Refletindo. Se andarem juntos, que seja por coincidência. Se seguirem caminhos opostos, que o faça sem atropelos. Se aproximarem-se, mantenha a sua individualidade. Se discordarem, que não abalem sua paz.

Assuma responsabilidade pelos seus atos. Aprenda com seus erros. Não busque culpados externos. Nunca banque a vítima. Compreenda, não repita. Corte o galho morto sem piedade.

E quando a manada passar, observe e cumprimente, mas não se curve.

– Manuel Sanchez, Anotações órficas: o rumo da manada

Anotações órficas: criaturas de hábitos

Não existe atalho na vida e nem segredo revelado por guru. 

Se quiser progredir em qualquer coisa tem que ir lá e fazer a mesma coisa e repetir repetir repetir até ficar perfeito. Muitas vezes será tedioso e solitário. Os resultados expressivos demoram a aparecer e você vai ter a impressão de que não está saindo do lugar.

Quer melhorar de saúde, treine todo dia. Quer maestria em um instrumento, treine todo dia. Quer aumentar o patrimônio, corte gastos supérfluos e invista sempre de pouquinho em pouquinho em bens de valor a cada renda auferida. Quer aquela profissão tão almejada, estude e se credencie dia a dia. Quer manter um relacionamento sério e sadio, cuide dele todo dia e não apenas nos aniversários e dia dos namorados. Parece uma coisa tola, simples. E por isso mesmo é tão negligenciada. 

Progresso vem de atos do hábito. Do treinamento. Do cuidado diário. O talento invariavelmente amadurece no exercício. E o esforço e a prática ensinam para os diligentes sem o talento natural. Hábito. Exercício. Cuidado diário. Paciência. 

Foque no processo. O resultado é uma consequência. Foque no processo e esqueça se os passos estão sendo pequenos ou largos. Foque no processo e não se importe com as opiniões alheias. 

A idéia de que haverá um segredo mágico, uma paulada vencedora, um atalho dos espertos é apenas um canto de sereia para afogar os incautos e os preguiçosos.

Normalmente os perseguidores de atalhos e crentes em soluções mágicas terminam com nada nas mãos, invariavelmente destruindo o que possuem e frequentemente com inveja e sem entender as conquistas das criaturas diárias do hábito.

– Manuel Sanchez, “Criaturas de Hábitos”

Anotações Órficas: afogados sem sabedoria

Existe um oceano imenso de conhecimentos e opiniões nos livros. Atuais e clássicos. Professores que estão ao alcance das mãos. Mestres de outras eras para nos iluminar muitos caminhos. Faróis para navios perdidos. Bálsamo para corações feridos. Fonte de resiliência para costas chicoteadas.

Triste ver um imenso número de pessoas dando-lhes as costas . Mergulhados em bolhas rasas. Perdidos em discussões estéreis das redes sociais. E usando bóias protetoras para não serem constrangidos por opiniões contrárias.

Tanto conhecimento. Tão pouca sabedoria e bom senso.

– Manuel Sanchez