História Econômica do Brasil

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Documentário do Laboratório Brasil sobre um tema que a maioria das pessoas de hoje esqueceu ou não viveu: a hiperinflação dos anos 80 e 90, com seus sucessivos planos econômicos desastrosos e apocalípticos.

Neste período em que estamos com as contas públicas saindo dos eixos,  pacotes econômicos e reformas negociadas no Congresso Nacional, acredito que é relevante relembrar algumas coisas.

O filme traz entrevistas com diversos ex-presidentes do Banco Central, ministros da Fazenda e economistas de renome explicando a situação do país, as ideias mirabolantes de controle da inflação plano por plano até chegar ao Plano Real.

Muito interessante e didático.

 

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Dinheiro como Dívida: o Mundo da Matrix e o Sistema de Reserva Fracionada

 

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Você acha que sabe o que é o dinheiro? Você sabe quem cria o dinheiro? Entende por que os bancos são os principais alvos de todos os programas de resgate estatais por todo o mundo, pouco importa se o governo é de direita ou esquerda?

Respire fundo e prepare-se porque a maior parte das pessoas tem uma visão totalmente equivocada das respostas acima.

 

GOVERNOS SALVANDO BANCOS E OS PROTESTOS NAS RUAS

Acompanhando o noticiário nacional e internacional há bastante tempo, vejo sempre as mesmas notícias sobre a intervenção dos governos para salvar o sistema bancário de seus países, as enormes quantias que são retiradas do Poder Público (e por consequência, da população) para serem transferidas para instituições financeiras titânicas, a consequente revolta popular, os confrontos nas ruas, arrochos etc..

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Também gosto de ler os manifestos na Internet, desde os papéis dos ‘Indignados” da Espanha aos panfletos do grupo “Occupy Wallstreet” dos EUA: sempre com ataques ao “Sistema” mas sem explicar às pessoas quais são as roldanas e polias de funcionamento do “sistema” que tanto atacam.

Existe um motivo econômico palpável para a ação desesperada dos governos na salvação dos bancos mundo a fora.

Não é retoricamente empolgante, mas é uma verdade que absolutamente a maior parte das pessoas ignora de forma total os motivos destas ações.

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E a verdade se coloca a luz do dia, à mostra para ser estudada e compreendida por qualquer um que tenha disposição. Parece uma cabala, mas o maior segredo é aquele que é colocado às claras. Não é nenhum tipo de conspiração, nem de golpe das elites… simplesmente tem haver com a criação do dinheiro e de como caímos nessa arapuca.

 

A HISTÓRIA DO DINHEIRO

O cerne da resposta passa pela questão: de onde vem o dinheiro? Como ele é criado? Sem a compreensão deste fenômeno podemos nos digladiar verbalmente sobre a ajuda econômica a bancos de força planetária, mas não vamos chegar a uma resposta objetiva.

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Na minha opinião, é o maior sistema de controle psicológico de massas já inventado.  De forma resumida, para efeitos de um simples blog, podemos colocar as coisas da seguinte maneira.

Dinheiro é qualquer meio de troca aceito pela sociedade para mediar as transferências entre a produção e o consumo. A humanidade já usou diversos objetos como dinheiro: conchas, sal, animais, pedras polidas etc… Em determinado momento, ouro e prata se tornaram as ferramentas preferidas para a realização da mediação entre as pessoas e reinos.

Em uma fase posterior, quando os Estados Nacionais já estavam estruturados, de forma a controlar a economia e a disponibilidade financeira para consumo e crédito, as reservas de ouro/prata passaram a ser mantidas pelos governos; que emitiam papel moeda lastreado nas reservas possuídas dos metais.

As pessoas associavam que o papel moeda em suas mãos poderia a qualquer tempo ser trocado pela quantidade equivalente em ouro/prata dos cofres públicos.

Com o avanço da sociedade capitalista e industrial, os bancos privados vieram se juntar ou mesmo se agigantar em relação aos bancos públicos em diversos países e foram se tornando o centro das trocas econômicas da sociedade; o verdadeiro motor do crédito e investimento, a base da expansão econômica.

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A ideia mestre de que o dinheiro em circulação se lastreava nos metais em guarda pelo Estado, contudo, se mantinha.

Por comodidade, por segurança, todos nós nos acostumamos a bancarizar progressivamente nossas vidas.

Levamos nossas economias para serem guardadas em bancos, acreditando que a qualquer momento podemos retirar esse depósito e usá-lo.

Quase todas as pessoas acreditam que o dinheiro é criado unicamente pela Casa da Moeda, com autorização e lastro Estatal, entrando em circulação. Fazemos os depósitos da quantia de dinheiro que nos cabe nos bancos e que as instituições financeiras irão realizar empréstimos a terceiros com esse dinheiro. Assim movimenta-se a economia.

Essa é a verdade aceita por 99% das pessoas.

Nesse exemplo, bem simples, TODO o dinheiro em circulação vem da criação do estado. Os bancos seriam intermediários sem poder de criação financeira; atuariam apenas como agentes de custódia e fonte de empréstimos.

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Nada mais longe da realidade.

Agora vem o segredo da cabala…..

Preparado?

 

O DINHEIRO DO MUNDO É QUASE TODO VIRTUAL

A maior parte do dinheiro em circulação não existe fisicamente e é criada pelos bancos (não pelo Estado) através do fenômeno que na teoria monetária é descrito como  sistema de reserva fracionada.

O sistema de reserva fracionada veio sendo gestado desde a origem dos primeiros bancos modernos, em pequena escala, mas definitivamente entrou em escala planetária no séc. XX.

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Não existe país moderno que não o utilize como base do sistema bancário, havendo acordos e tratados internacionais que regulamentam suas premissas básicas.

Em primeiro lugar, temos que entender que o dinheiro não se estrutura mais em lastro metálico.

O dinheiro moderno é fiduciário, ou seja, baseado na confiança da sociedade nas leis do Estado que determinam que aquele dinheiro é legítimo e que tem curso forçado, não se de podendo negá-lo como meio de troca e fonte de pagamento.

Uma parte pequena do dinheiro em circulação existe fisicamente, em notas ou moedas, impressas ou cunhadas pela instituição determinada pelo Estado (Casa da Moeda). Mas é apenas uma pequena parte.

Nos EUA, estima-se que apenas 5% do dinheiro circulante é físico (notas e moedas) e criado por órgãos estatais. Ou seja, 95% da massa do dinheiro em circulação é meramente virtual ou contábil e criada pelos bancos. Os valores no Brasil não são muito diferentes.

 

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MAS COMO OS BANCOS CRIAM O DINHEIRO ?

O sistema de reserva fracionada é o método pelo qual os atores do sistema bancário/financeiro podem legalmente emprestar um numero X de vezes do dinheiro fisicamente existente em caixa nas instituições.

O limite da permissão de gerar novo dinheiro a partir de reservas que efetivamente já existam em caixa é variável de país para país e também pode ser modificado pelo governo ao longo do tempo, dependendo de razões de política econômica e de uma intenção de expandir ou restringir o crédito.

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Por exemplo: em um determinado país que utilize a razão 9 : 1 estipulada em suas leis de regramento do sistema de reserva fracionada, se o banco possui em caixa efetivamente $ 1 bilhão; então ele pode EMPRESTAR $ 9 bilhões.

Esses $ 9 bilhões que o banco possui permissão legal para emprestar, em princípio não existem fisicamente.

Eles são criados pelo banco – virtualmente do ar – quando alguém deseja realizar um empréstimo.

Eles passam a existir no mundo contábil e financeiro, mas não necessariamente como papel moeda uma vez que as pessoas utilizam-se de outras formas de transferência de valores (cheques, promissórias, cartões magnéticos, transferências eletrônicas etc).

Ou seja, a partir de uma quantia pequena efetivamente em depósito no banco; quando alguém toma um crédito (isto é,  faz uma dívida) neste banco, o banco passa a ter autorização legal para CRIAR DINHEIRO, aumentando a base financeira do país.

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Em um sistema em que o dinheiro é criado a partir da dívida assumida,

o limite de dinheiro em circulação é determinado pela pujança do

mercado de tomadores e pela expansão do crédito;

ou seja, pela criação de novas dívidas junto às instituições financeiras.

 

A cada empréstimo, os bancos passam a ter autorização legal de gerar mais dinheiro em sua contabilidade financeira. Dinheiro – repito –  que não existe como papel físico, mas apenas como anotação virtual nos livros/sistema eletrônicos.

A medida que os empréstimos são pagos, realiza-se a atividade contábil de retirar essa quantidade da massa de dinheiro circulante na economia. Desta forma, para manter a atividade de geração e expansão da massa monetária torna-se necessário o fortalecimento do sistema de crédito do país; ou em outras palavras, a criação de novas dívidas e a bancarização exponencial da economia.

Em resumo:

bancos não emprestam dinheiro pré-existente em seus depósitos,

na verdade eles CRIAM dinheiro a partir de dívidas tomadas

por devedores em suas agências.

Assim, não existe limite para a criação de dinheiro:

a cada dívida, novo dinheiro é criado.

 

Em compensação, a verdade também funciona no sentido inverso: sem que pessoas e empresas fiquem endividadas, não existe criação de dinheiro. O suprimento de dinheiro depende da constante renovação do crédito bancário.

Ou em outras palavras:

o suprimento de dinheiro novo depende que as pessoas

e empresas estejam sempre se endividando.

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ISTO É O “SISTEMA”!

Em um mundo em que mais de 90% do dinheiro em circulação não existe fisicamente mas é mera criação virtual dos bancos (públicos e privados), baseado exclusivamente na assunção de dívidas; torna-se crucial para a saúde do sistema que os bancos estejam constantemente irrigados e que possuam toda a ajuda governamental possível.

Essa é a arapuca: se um grande banco nacional ou internacional afunda, corre-se o risco de detonar uma corrida bancária onde todos – com medo de seu banco ser o próximo –  rapidamente pedirem o saque de suas quantias depositadas.

Mas simplesmente não existe dinheiro (fisicamente falando, notas e moedas) que corresponda aos valores virtualmente anotados nas contas de cada um de nós.

Vamos repetir: não existe dinheiro físico suficiente

para igualar os valores virtualmente existentes

nos sistemas eletrônicos bancários.

 

Ou seja, as pessoas e empresas simplesmente não vão receber seu dinheiro. Multiplique esse desastre por dezenas ou centenas de bancos de um país. Agora multiplique esse apocalipse financeiro por todo o globo, uma vez que vivemos em um mundo os bancos e bolsas de valores se conectam umbilicalmente e que o pânico se espalha pelo mundo em questão de minutos.

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Esta é a arapuca.

Acreditamos no valor de um dinheiro que não tem lastro real, apenas fiduciário, baseado na palavra/leis do governo.

A parte majoritária do dinheiro é criada não pelo estado, mas pelos bancos (com autorização legal), a partir do momento em que as pessoas tomam dívidas junto a estes bancos.

E assim, os bancos se tornam a peça fundamental na estruturação de todo o tecido da sociedade.  

Neste mundo que criamos, dinheiro é igual a dívida. E são as dívidas que movem a economia capitalista mundial uma vez que a cada dívida, autoriza-se a criação de dinheiro novo.

Bem vindo à Matrix!

O mundo é bem mais complicado do que você imagina.

Zygmunt Bauman e a liquidez do mundo

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“Corremos sobre gelo fino. Se pararmos ou diminuirmos a velocidade, o gelo se rompe e nós morreremos. Então corremos. Não importa para onde, o importante é correr. E rápido. ”

Essa é a analogia que Zygmunt Bauman faz para os tempo atuais, que ele chama de pós-modernos ou da modernidade liquida.

livro-tempos-liquidos-de-zygmunt-bauman-novo_MLB-O-174100422_5843Vivemos em uma época de velocidade vertiginosa, com uma  profusão de conexões. Invejamos aqueles que não possuem posição fixa, que estão constantemente alterando sua posição, sem rotina, pairando sobre os pontos geográficos sem amarras. Sem passado que os prenda, sem memórias traumáticas ou tradições limitadoras à sua identidade pessoal.

Não existem mais papéis inalteráveis, identidades firmes, ideologias fixas, pré-condições estabelecidas. A segurança acabou. O mundo ficou flexivel, a realidade transformou-se em algo etéreo e escorregadio. As ideologias são liquidas, prontas para serem retiradas de qualquer recipiente e recolocadas em outro, independente da forma.

 

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Hoje em dia, tentamos quebrar todos os vínculos, todas as prisões. O que interessa é a liberdade de movimento, viajar leve. Sempre. O indivíduo sobre a idéia da comunidade. A história pessoal como valor maior do que a tradição.

Mas ao aumentarmos a esfera de liberdade, diminuimos na mesma proporção o lastro de segurança. Segurança esta que vinha da comunidade, da aldeia, dos valores em comum, de uma história dividida e respeitada. Cada um tinha o seu lugar e o seu papel.

Hoje não. Seu papel é decidido por você. E sozinho. Sua identidade é construída não pela, mas às vezes em oposição às tradições da comunidade.

 

E com essa responsabilidade vem a ansiedade. E com ela o mau-estar.

imagesE como curar o mau-estar? Mergulhamos no consumo. Essa maravilhosa terapia moderna, rápida e sem vinculos, com a qual nos atrelamos de forma instantânea a uma marca, a uma história, a uma tradição etérea construída para ser ingerida e processada sem lealdades e sem culpa. Prazeres instantâneos. Tradição e história que podemos rapidamente abandonar por uma nova marca, criando uma nova identidade. De novo: velocidade e liberdade. Experimentação constante.

Sem vinculos com a comunidade, abandonamos o local que nos incomoda na rapidez do crédito e do financiamento. Deixamos para traz o refugo. Degeneram-se os laços politicos com o próximo. Preocupar-se por quê? Problema de quem não consiga sair…

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Mas esse mundo novo gera seus descartes: pessoas inseridas de forma imperfeita nesse novo mundo de velocidade e consumo. Homens e mulheres que permanecem presos, atrelados a sua pobreza e às suas localidades que se estragam e degeneram; incapazes de realizar plenamente seus desejos de consumo. Párias. Refugos de países pobres que batem à porta dos vizinhos ricos em busca de emprego, em busca de movimento, de consumo. Imigrantes. Estrangeiros.

 

Por sua vez, as relações pessoais também vão se tornando descartáveis e passageiras. Bauman as chama de “amores líquidos”, havendo uma maior inconstância nas relações afetivas, que se tornam enfraquecidas e esgarçadas.
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As relações religiosas igualmente sofrem consequências com a perda de força da Tradição e da Comunidade. O sentimento religioso entra numa fase de supermercado-espiritual onde as pessoas adotam crenças e costumes mistos de diferentes seitas e segmentos e criam praticamente entendimentos próprios e individuais.

Esses temas são tratados a cada página nas obras do Bauman, sociológo polonês que tem sido um guru me abrindo a cabeça para muitas coisas. Recomendo tudo que ele escreve.

Assistam e leiam os livros. Mas leiam rápido. Em movimento. Porque se pararmos, o gelo quebra e você se afoga.

A perda da noção de História e os ensinamentos de Eric Hobsbawm

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Eu sou obsessivo com certos temas. Chego a ser chato.

Um desses temas é o sentimento de completo distanciamento em relação à história que domina a sociedade. A noção de passado só alcança, na maioria das vezes, o passado imediato do individuo; isso quando não abrange apenas os últimos anos de sua própria vida. Percebo isso constantemente em conversas com amigos e alunos, o que sempre me enche de apreensão e espanto. E tristeza, devo acrescentar.

A estupidificação acarretada por esse fenômeno é vista de maneira clara por todo o tecido social. Vivemos um tempo de homogeneização de pensamento, de falta de critica em relação ao presente acarretado, em grande parte, pelo desconhecimento absoluto das condições do passado. Não existe liame. Não são feitas as ligações mentais entre os ponto A e B até C. Parece que as coisas são como são: uma situação dada e já determinada, sem que se encontrem forças para mudar.

A bovinização das idéias se aprofunda pelo fato de que o parco conhecimento dividido vem através das ondas de TV, seletivas e tendenciosas em ouvir apenas uma das muitas vozes possíveis.

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Esse sentimento de perda constante da noção de passado e diluição de pertencimento a uma história e tradições coletivas, é um dos muitos temas abordados pelo historiador Eric Hobsbawm, um dos mais influentes do sec. XX e um dos autores que leio e releio e indico.  As forças econômicas e políticas que impulsionaram e trituraram o mundo nos últimos séculos são descritas e explicadas em detalhes por esse professor de escrita fácil e jargão simples, mas de conteúdo profundo que consegue explicar desde as molas propulsoras da Revolução Francesa até a história social do Jazz, ao fenômenos dos bandoleiros mexicanos, passando pela criação deliberada dos Estados Nacionais de ritos e imposições disfarçadas de antigas tradições.

 

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Suas obras historiográficas além de clássicas, transformaram-se rapidamente em Best Sellers mundiais.. Livros como “A Era das Revoluções” , “a Era do Capital” e “A Era dos Impérios” e  “A Era dos Extremos” venderam muito bem no Brasil, traçando um painel preciso da história mundial do século XVIII até o  fim do século XX.

Entrevista com Zygmunt Bauman

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Segue uma entrevista com Zygmunt Bauman, legendada, com algumas considerações do guru  🙂

 

E aqui um blog com extratos de alguns textos do mestre. Vale a pena conferir seus livros.

http://julianamendessvete.wordpress.com/tag/frases-de-zygmunt-bauman/

Em especial, eu gosto muito destes dois. Merecem uma resenha em um post futuro.

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