Zygmunt Bauman e a liquidez do mundo

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“Corremos sobre gelo fino. Se pararmos ou diminuirmos a velocidade, o gelo se rompe e nós morreremos. Então corremos. Não importa para onde, o importante é correr. E rápido. ”

Essa é a analogia que Zygmunt Bauman faz para os tempo atuais, que ele chama de pós-modernos ou da modernidade liquida.

livro-tempos-liquidos-de-zygmunt-bauman-novo_MLB-O-174100422_5843Vivemos em uma época de velocidade vertiginosa, com uma  profusão de conexões. Invejamos aqueles que não possuem posição fixa, que estão constantemente alterando sua posição, sem rotina, pairando sobre os pontos geográficos sem amarras. Sem passado que os prenda, sem memórias traumáticas ou tradições limitadoras à sua identidade pessoal.

Não existem mais papéis inalteráveis, identidades firmes, ideologias fixas, pré-condições estabelecidas. A segurança acabou. O mundo ficou flexivel, a realidade transformou-se em algo etéreo e escorregadio. As ideologias são liquidas, prontas para serem retiradas de qualquer recipiente e recolocadas em outro, independente da forma.

 

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Hoje em dia, tentamos quebrar todos os vínculos, todas as prisões. O que interessa é a liberdade de movimento, viajar leve. Sempre. O indivíduo sobre a idéia da comunidade. A história pessoal como valor maior do que a tradição.

Mas ao aumentarmos a esfera de liberdade, diminuimos na mesma proporção o lastro de segurança. Segurança esta que vinha da comunidade, da aldeia, dos valores em comum, de uma história dividida e respeitada. Cada um tinha o seu lugar e o seu papel.

Hoje não. Seu papel é decidido por você. E sozinho. Sua identidade é construída não pela, mas às vezes em oposição às tradições da comunidade.

 

E com essa responsabilidade vem a ansiedade. E com ela o mau-estar.

imagesE como curar o mau-estar? Mergulhamos no consumo. Essa maravilhosa terapia moderna, rápida e sem vinculos, com a qual nos atrelamos de forma instantânea a uma marca, a uma história, a uma tradição etérea construída para ser ingerida e processada sem lealdades e sem culpa. Prazeres instantâneos. Tradição e história que podemos rapidamente abandonar por uma nova marca, criando uma nova identidade. De novo: velocidade e liberdade. Experimentação constante.

Sem vinculos com a comunidade, abandonamos o local que nos incomoda na rapidez do crédito e do financiamento. Deixamos para traz o refugo. Degeneram-se os laços politicos com o próximo. Preocupar-se por quê? Problema de quem não consiga sair…

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Mas esse mundo novo gera seus descartes: pessoas inseridas de forma imperfeita nesse novo mundo de velocidade e consumo. Homens e mulheres que permanecem presos, atrelados a sua pobreza e às suas localidades que se estragam e degeneram; incapazes de realizar plenamente seus desejos de consumo. Párias. Refugos de países pobres que batem à porta dos vizinhos ricos em busca de emprego, em busca de movimento, de consumo. Imigrantes. Estrangeiros.

 

Por sua vez, as relações pessoais também vão se tornando descartáveis e passageiras. Bauman as chama de “amores líquidos”, havendo uma maior inconstância nas relações afetivas, que se tornam enfraquecidas e esgarçadas.
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As relações religiosas igualmente sofrem consequências com a perda de força da Tradição e da Comunidade. O sentimento religioso entra numa fase de supermercado-espiritual onde as pessoas adotam crenças e costumes mistos de diferentes seitas e segmentos e criam praticamente entendimentos próprios e individuais.

Esses temas são tratados a cada página nas obras do Bauman, sociológo polonês que tem sido um guru me abrindo a cabeça para muitas coisas. Recomendo tudo que ele escreve.

Assistam e leiam os livros. Mas leiam rápido. Em movimento. Porque se pararmos, o gelo quebra e você se afoga.

 

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