O Existencialismo de Sartre e o Sentido da Vida

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As correntes tradicionais filosóficas colocam que há uma essência humana, podendo ser acessível através de uma conexão religiosa ou laica. As linhas religiosas entendem como Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino que temos uma essência transcendente acessível pela Alma. Linhas laicas entendem que a Razão nos diferencia do restante dos demais seres e que através dela – razão – também podemos isolar e apontar uma essência humana, algo que nos define e que determina o que é ser um “ser humano”. Ou seja, antes mesmo de existirmos, existe uma essência. Linha, aliás, seguida pela filosofia desde Sócrates e Platão, com o estabelecimento de sua teoria do mundo das Idéias, local acessível apenas pela razão e no qual estariam as verdades essenciais de tudo o que existe no mundo material.   

Em suma: a essência antecede a existência.

Desta forma, haveria uma Essência Humana antes mesmo da evolução histórica das civilizações e a  Humanidade estaria indo em direção a valores mais nobres e mais iluminados, na esperança de um dia igualarmos nosso dia a dia com os valores de tal Essência anteriormente prevista. Existiria um sentido para a Vida, mesmo que não o entendêssemos a principio e nossos dias deveriam perseguir o véu deste sentido para descortiná-lo de alguma forma. Viver seria buscar esse sentido anterior e maior da própria Vida.

Para outros pensadores,  como Jean Paul Sartre essa explicação não convence.

Não haveria nada a ser considerado como uma essência humana a priori, nenhum sentido prévio da Vida que seja passível de ser atingido pela experiência religiosa ou pela razão pura.

Para Sartre, a existência antecede a essência.

Como explicava Sartre em seu opúsculo “O Existencialismo é um Humanismo”  :  

  “(…)… se Deus não existe, há pelo menos um ser, no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significa então que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente é nada. Só depois será, e será tal como a si próprio se fizer.”

Ou seja, a essência humana é sempre a posteriori e criada pelo próprio indivíduo. Somos nós próprios, individualmente, o único elemento responsável por criar e dar significado à nossa própria vida.

sartre existencialismo humanismoOs valores a seguir, a interpretação dos laços afetivos, culturais e históricos que nos ligam e nos separam, todo o longo e amplo espectro de elementos do que chamamos de Vida ganham significado apenas dentro de nós e de acordo com o caminho que decidimos seguir de forma livre e autônoma, sem qualquer Essência anterior a servir de molde.

A Vida seria a rota, nunca o destino.

Mesmo que nos alinhemos a uma fileira de pensamento mais ampla e nascida gerações antes de nosso nascimento, deveríamos fazê-lo de forma livre e apenas após processar de forma crítica se tais formatações e paradigmas estão de acordo com o sentido que NÓS queremos incluir em nossa vida por escolha própria.

Vivemos em um contexto histórico e social preciso e pré-determinado que Sartre denomina “situação”. Assim, vivemos sempre em situação; ou seja, nascemos em um ambiente aleatório, não escolhido por nós e muitas vezes constrangidos por circunstâncias de difícil superação. Mas somos NÓS que decidimos – sempre – como digerir e processar esse ambiente e, por fim, as escolhas que darão sentindo às nossas próprias vidas.

Fazemos isso do ponto de vista individual e também como corpo social. Para o existencialismo Sartreano, o ser humano e a sociedade são processos históricos. Não existe essência anterior. As decisões são nossas e a responsabilidade pela manutenção ou modificação da sociedade como ela é hoje, também.

Os existencialistas colocam a liberdade nas escolhas da Vida como o elemento máximo e inalienável do individuo, algo que nunca poderia ser inteiramente tomado por parte do tecido social, apesar das determinações pré determinadas da situação. O indivíduo, mesmo constrangido por regras, normas e preconceitos sociais,  sempre poderá encontrar algum escopo de escolha e liberdade para inserir-se  ou romper com os valores históricos e culturais do tempo e da sociedade onde vive. A cada situação – de cada tempo e de cada sociedade – caberiam obviamente uma gama de escolhas possíveis.

Para Sartre, seríamos então condenados a escolher sempre: mesmo que fosse escolher a  omissão e aceitação do status quo.  

Mas até onde as forças sociais da cultura onde nascemos se constituem em verdadeiras algemas que nos limitam e retiram a possibilidade de escolha? Até onde podemos criar o sentido de nossa própria vida em contradição com os valores do tecido social sem receber uma carga de ataque que venha a destruir a própria essência do que se tenta viver? O poder de escolha  entendido por Sartre é de fato verdadeiro ou seria a própria escolha uma ilusão?

Esse temas são abordados na segunda parte do post. Uma análise da desumanidade como construção histórica também pode ser encontrada na parte três clicando neste post.

 

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Explicando os Conceitos: O Existencialismo e as Limitações da Liberdade – o conceito de situação

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 I – O Existencialismo e a Liberdade

Para Sartre, a existência precede a essência humana; ou seja, não haveria uma essência humana a priori, seja ela determinada por uma alma transcendente ou pela razão. Com isso, ele rompe com uma tradição filosófica que colocava a existência humana como uma criação especial, definida por critérios superiores e transcendentes, seja por uma interpretação religiosa ou puramente racional.

O que chamamos de humanidade seria uma criação passo a passo, fruto das nossas deliberações e  que moldariam a cultura; e nela, os conceitos e valores que prezamos e/ou perseguimos. O indivíduo tem uma função histórica. E a sociedade é também fruto dessa sucessão de escolhas e deliberações.

Afastam-se os conceitos religiosos e místicos de que haveria uma essência humana anterior à existência, ou algum tipo de natureza humana básica e imutável acessível pela razão.

Somos o que criamos de nós mesmos, tanto no plano individual como no corpo social.

No cerne da questão, Sartre coloca então a liberdade. Somos livres para decidir o rumo de nossas vidas e criarmos o ser humano que desejamos nos tornar. Ou até mesmo somos livres para sermos omissos e covardes, engolindo nossos desejos e cedendo às expectativas da família e da sociedade. 

Sartre lida com a liberdade como a liberdade do sujeito, consciente e autônomo para escolher. Ou seja, seu conceito de liberdade é intencional, voltado para uma finalidade.

O filósofo assim se expressa em o “Existencialismo é um Humanismo”:

(…)   Como ponto de partida não pode existir outra verdade senão esta: penso, logo existo; é a verdade absoluta da consciência que apreende a si mesma. Qualquer teoria que considere o homem fora desse momento em que ele se apreende a si mesmo é, de partida, uma teoria que suprime a verdade pois, fora do cogito cartesiano, todos os objetos são apenas prováveis e uma doutrina de probabilidades que não esteja ancorada numa verdade desmorona no nada; para definir o provável temos de possuir o verdadeiro (…) 

 Ou seja, para o filósofo, o ser humano só se torna humano quando livre. O homem faz-se exercendo sua liberdade, pois é na ação livre que o homem escolhe seus atos e toma suas decisões.

existencialismo-140203213046-phpapp02-thumbnail-4É famosa a passagem do livro em que um jovem pergunta a Sartre se deveria ir para as forças de resistência francesa durante a guerra ou permanecer em casa e ajudar nos cuidados de sua mãe doente. Lembremos que Sartre escreve no contexto da segunda guerra mundial e nos anos do pós-guerra.

Afinal, qual seria a conduta mais valorosa para esse jovem? Recebeu como resposta de que não haveria uma solução certa, uma regra, um parâmetro e nenhuma iluminação exterior que o pudesse guiar em suas escolhas. O jovem era livre para erigir seus próprios valores e com base neles tomar a melhor decisão que fosse conveniente para sua vida.  Não existiriam valores éticos universais que servissem para decodificar a vida, mas somente a construção real e diária de valores pessoais de acordo com situações históricas concretas.

  

II – As Limitações da Liberdade

 O exercício da liberdade possui contudo suas limitações.

A primeira limitação e reiteradamente trabalhada por Sartre é o Outro. Minha liberdade encontra como primeiro limite a liberdade do Outro.

LV270064_NNenhuma ação torna-se inteiramente livre pois a realização dos meus desejos encontra como barreira a existência do Outro na tentativa de realização de seus próprios desejos, no uso de sua própria liberdade. Temos então a questão da alteridade colocada em Sartre.

Minha paz de espirito também pode ser diuturnamente desafiada pelas atitudes do Outro no exercício de sua liberdade. Afinal, o inferno são os outros.

A segunda limitação para a liberdade é o medo.

Sendo incondicionalmente livre, o homem é livre para agir à vontade e criar seu estilo de vida de acordo com seus valores pessoais. Para Sartre, podemos abdicar dessa liberdade pelo medo da reação estatal, familiar ou social. Mas mesmo nestes casos a liberdade estaria presente e se deixarmos o medo de lado poderíamos agir como quiséssemos.

Obviamente, Sartre considera em seu pensamento que o nascimento é um evento aleatório. Nascemos em uma sociedade, em um tempo e em condições sociais que não escolhemos. Mas a partir daí, somos obrigados a viver com tais contingências e e circunstâncias. Tais elementos são denominados por Sartre como “situação”. Vivemos em situação, ou seja, condicionados por símbolos, regras, leis, normas costumeiras que determinam e limitam o escopo e a profundidade de muitas de nossas escolhas. Somos livres para escolher, mas nossas escolhas são contingenciadas pela situação em que vivemos. Tais limitações, contudo, não ignoram a existência de pessoas que encontram forças para romper tais circunstâncias. Normalmente apenas para si, mas às vezes para romper barreiras para grupos ou sociedades inteiras.

A liberdade de escolha, portanto, é sempre um elemento presente e é isto que nos faz humanos. As escolhas, contudo, não são absolutas já que o elemento “situação” – elemento este que é histórico e socialmente diferente para cada um de nós – traz uma carga de limitações que nas possibilidades. Mas sempre existirão escolhas. E nelas, a liberdade de agir, lutar, mentir, contribuir para a manutenção do status quo ou omitir-se.   

Em nenhum momento, Sartre deixa escapar o conceito da construção histórica do ser humano, sem dúvida sua principal lição e o significado do seu célebre slogan existencialista: a existência precede a essência. 

 

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Veja mais em Sartre e o sentido da vida e o nosso post sobre Sartre a noção de desumanidade.