O Livro das Anotações Órficas

O Livro das Anotações Órficas

Capítulo  I – Sobre o Devir

Nossa tradição começou antes. Séculos antes da sua formulação escrita. De forma que a tradição oral é a base de muitos dos mistérios estudados a partir daqui.

Não por acaso, as primeiras tradições representavam o lançar ao chão de cada véu sob um nome. Uma palavra era pronunciada a cada mistério revelado. E não é coincidência que outras religiões no mesmo período – mas em outra região –  adoravam seu deus na forma de Discurso, sem forma, no Verbo daquele que É. Mas sobre estes, falarei no momento certo.

Nossa tradição começou antes. Na Trácia. Alguns recuam ainda um passo até a Frígia. Não se espante se estranhar os nomes. Fato é que foi antes da ocupação grega. Antes da incorporação dos modos dos invasores na terra de origem. Antes que os seus deuses fossem impostos como os verdadeiros deuses. Antes de Dionísio  ser incorporado como uma entidade menor nas hostes de divindades dos invasores.

Este tempo foi antes do assalto da razão praticado pela filosofia dos invasores. Antes do primado das certezas, da frieza e do controle das paixões nos homens. Quando aceitava-se o caos no coração como o calor do corpo da amada. Quando não havíamos capitulado nossos desejos e sombras para a servidão mansa de ovelhas passivas e castradas.

E o caos dançava em nossas festas.

E Dionisio reinava. Amparava a fertilidade. Estimulava a embriaguez, determinava o caos no gozo do corpo desejado. Dionisio nos visitava em carne através de Zagreu, seu avatar de escolha. Profeta de tempos antepassados. Nossa tradição começou antes. 

Apenas as mulheres ficavam na companhia de Zagreu. E a paixão as dominava. Orgias e bebidas. Seus detratores as chamavam de bacantes. Temidas. Invejadas. Odiadas. Noites inteiras nas colinas inebriadas pela cópula. Danças que estimulavam o êxtase. E o sacrifício. Sacrifícios humanos e de animais. Bebiam o sangue do escolhido. Comiam a carne crua dilacerada.

É o que nos dizem as antigas palavras. Como é ficar para a posteridade unicamente nos ditos de seus inimigos?

As bacantes nos  iniciaram nos mistérios. Proferiam as palavras. Eram visitadas por entidades e avatares. Em sonhos e em carne.  E geraram seres… que amedrontaram os que contadores de lendas.

As bacantes eram o signo do próprio caos no coração do ser humano. O desejo sem controle. O tesão pela própria vida sem limitações. O sexo orgiástico. A ausência de controle dos corpos. A liberdade da embriaguez ritualizada em sessões fechadas. O sacrifício dos fracos. A celebração mais bárbara e brutal da potência de viver.

Para muitos, o culto de Dionisio canalizado em Zagreu e em suas bacantes era hostil. Selvagem. Repulsivo. Sem dúvida era restritivo para os covardes. Como soam os mistérios do verbo, da música e da liberdade do corpo. Os tambores do mistério sempre assustaram os passivos e castrados.

Caída a Trácia. Dionisio foi incorporado sem dentes no panteão como uma entidade menor. A canalização por Zagreu virara uma longínqua  lembrança e as bacantes foram caçadas e escorraçadas.

Neste ponto da tradição nos chega Orfeu. Que ainda seguimos. 

As histórias são míticas. Elusivas. Não havendo sequer certeza se de fato existiu. Para alguns, Orfeu seria o filho de uma bacante violada e amaldiçoada, fugida para evitar a morte e que teria criado seu filho em segredo nos mistérios do verdadeiro Dionísio. Para outros, Orfeu era o novo avatar do próprio Dionisio,  desejoso de revitalizar sua crença para novos povos. Há quem diga que os ensinamentos foram passados aos homens de forma indevida e que Orfeu não seria uma pessoa, mas um movimento para retirar das bacantes o monopólio dos segredos revelados no êxtase.

Fato: Orfeu reestruturou os ensinamentos dionisíacos e retirou dos mesmos os caracteres mais violentos. Por que? Hoje eu vejo que a violência me protege.  

Orfeu manteve das bacantes originais a crença de que a alma vive em um corpo impuro em um mundo sujo. De que muitas vidas são necessárias para expurgar nossos males. Que a bebida e o sexo são canais para abrir o corpo e atingir a alma, entrando nos circulos dos mistérios.

O movimento aumentou a base de iniciados para aceitar homens e mulheres, sem proibições. Cessaram os sacrifícios humanos e os atos de violência pura durante os rituais. A refeição ritualizada abandonou a carne crua. O sangue ritual para a abertura dos mistérios passou a ser substituído pelo vinho. Abandonaram as orgias em florestas e fogueiras, mantendo os rituais sexuais em formas menos ostensivas.

As bacantes aceitavam a violência da vida, do sexo e das palavras de uma forma que os Órficos jamais o fizeram. E os grupos se separaram desde então. As poucas bacantes restantes, as que não foram caçadas, esconderam-se e reduziram-se para manter a sobrevivência. Acredita-se que sumiram no pó do tempo. É o que nos ensinaram as palavras. 

Sempre achei estranho. Porque a violência me protege.

Os órficos continuaram. Diluiram seus ensinamentos em escolas subsequentes, cada vez mais castradas, mais controladoras do corpo, que permitiram uma maior aceitação e aumentaram o  número dos crentes. Abdicaram da violência. Onde isto é uma vantagem?

Espalharam  os ensinamentos basilares da alma e da comunicação com o reino espiritual; mas guardando para si próprios os segredos principais da comunicação direta. 

Pitágoras era um iniciado nos ensinamentos órficos. E seus ensinamentos ganharam muitos gregos: a transmigração da alma, as reencarnações, a divisão da energia do sacrifício através de alimentos e bebidas ritualizadas ingeridos por todos, a existência de um mundo mais puro, ideal, local de vivência original das almas, a negação do mundo como uma sombra falsa. Os pitagóricos diluíram ainda mais as verdades reveladas pelo caos. Se os Órficos renegaram a violencia, os pitagóricos renegaram os segredos originais do sexo,  cultuando a razão e a matemática, criando novos ritos de iniciação mais serenos e castrados.

Pitágoras não deixou nenhum escrito sobre suas idéias de reinterpretação monástica dos ensinamentos órficos. Mas um dos iniciados no pitagorismo escreveu e escreveu muito: Platão. 

Ao leitor que folheia esse diário nao será surpresa que as idéias platônicas colocadas em seus  livros na boca de Sócrates a respeito do mundo das idéias, a dualidade do corpo e da alma, as reencarnações sucessivas, a busca pela razão e a negação dos impulsos do corpo são idéias pitagóricas.

Cada vez mais diminuindo-se a explosão de mistérios violentos e sangrentos das bacantes. Vejo um sangue definhando.  Um corpo enfraquecendo.  E dentro de mim comecei a sentir que a verdade não poderia ser comunicada pela paz. 

As linhas do tempo continuaram. O enfraquecimento do caráter também. Os eunucos dominavam as terras.  O platonismo entrou no imaginário das plebes  através do Cristianismo. A dualidade do reino espiritual das Almas contra o mundo de carne sujo e a ser evitado. A refeição sacrificial diluída no pão. O sangue do morto sacrificado bebido como vinho e, dessa vez apenas pelo celebrante, onde os participantes são chamados a compartilhar o morto sacrificado apenas pelo pensamento…. 

Um longo caminho de diluição de ritos e mistérios perambulou doente da antiga Trácia até os dias de hoje. Os Pitagóricos-Platonistas dominaram o palco. Cristo era sua máscara. 

Eles acreditam que os Órficos… que  não existimos mais. E essa crença nos protege. 

E a quase totalidade do meu grupo crê que as bacantes são apenas ilustrações antigas das origens violentas dos nossos mais puros ritos. Que se perderam no tempo, na névoa que apagou as verdades reveladas por meio da brutalidade. Mas alguns de nós, acreditamos no contrário…. que a  mesma névoa que nos protege também teria escondido as bacantes.  E com elas, verdades não reveladas. Verdades do caos. Verdades que almejamos. 

E nossa busca pelas bacantes não cessará.

Onde esconder-se na violência do mundo? Como continuar existindo e mantendo seus ritos em meio à barbárie?

A tradição não é serena, asséptica e limpa, como impuseram em sua mente.

A tradição é violenta, crua, sangrenta, abusiva, orgiástica e impulsiva.

Existem mistérios e ritos não revelados às tradições seguintes.

Muitas verdades são projetadas por meio de ritos. Ritos estão escondidos em palavras. Por símbolos nos conduzimos em mistérios.

Que enxerguem aqueles que possuem olhos.

Nossa tradição começou antes.

(fim da parte 1)

– por Manuel Sanchez 

 

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Crônicas e Afins: Quarenta Mistérios

Quarenta Mistérios

(Manuel Sanchez)


Subindo a montanha

As marcas do meu rosto

assinalam quarenta anos

 

Idade de reflexão. Número de Julgamento

Caminho trilhado com seu quinhão de curvas

e retas. Fossos e Cumes. Dádivas e Ausências.

 

Se o Dilúvio durou quarenta noites,

Moisés passou quarenta anos no Deserto

E por quarenta dias permaneceu no topo da montanha

 

Ao descer,  Moisés destruiu

a primeira Tábua dos Mandamentos.

Com raiva.

 

Se Elias passou quarenta dias jejuando no deserto,

Jesus ficou por quarenta noites com o Demônio

Deveres a honrar.  Tentações a resistir.

 

Jesus implorou para que afastassem Dele

o amargo cálice

Com medo.

 

Quarenta são as cartas numeradas do Tarô

Quarenta volumes possui

O Códice do Destino do Mundo.

 

Sonhos. Filhos. Amores.

Mágoas. Frustrações. Deveres.

Amigos. Família. Nós.

 

O que fazer quando atinge-se o meio-dia da vida?

Quando já passou larga a aurora

Mas longo dia resta até o fim da luz

 

Subo a montanha

Com tentações e delícias

Cálices e deveres

 

Inteiro.

Desperto.

Por quarenta anos.

Crônicas Pessoais e Afins: impaciências 

Impaciências

(Manuel Sanchez)

 

Frequentemente somos impacientes.

Queremos velocidade para atingir o sucesso profissional ou a fortuna. Muitos decidem-se por atalhos que, às claras,  sentem vergonha de nomear. Outros se gabam das facilidades torpes que usaram como caminho mais rápido. Relativismos morais empesteiam nossa época.

Algumas pessoas acreditam que relacionamentos afetivos são construídos na batida mais acelerada do coração e pronto, tudo resolvido. A idéia de liberdade tornou-se descolada de qualquer responsabilidade.

Queremos um fast-food de sentimentos, o resumo do livro, a notícia pelo meme de Internet. 

E o modo como desejamos cria o mundo em que vivemos. Estranho é que quando os pilares frágeis se esfacelam, reclamamos da brevidade das obras.

Poderíamos ter antevisto o fim do roteiro se tivéssemos tido um pouco mais de atenção ao contemplar o caminho.

Mas somos todos impacientes. Sem perceber que muitas vezes chamamos de destino apenas o resultado de nossas precipitações.

Crônicas e Afins: cavaleiros do Apocalipse 

Manifestações para que se  fechem exposições, manifestações para cancelar  debates em universidades, volta do ensino religioso confessional na base curricular , proposta de emenda constitucional  para proibir a realização de abortos até em casos de estupro, flexibilização do trabalho escravo, discussão recorrente para diminuir a grade de história na base curricular, manifestações pela volta da ditadura e do regime militar , criminosos manifestos liderando as pesquisas eleitorais, quadrilhas organizadas nos governando, restrição crescente de direitos,  vaquinhas para defender “meu político bandido do coração” , slogans raivosos na tv bradando que “é tudo culpa dos direitos humanos ” , ministros aristocráticos zombando da nossa cara comparando-se aos escravos,  garotos passando de fuzil ao meu lado em rodovias centrais de minha cidade , roleta russa de assaltos enquanto estamos  parados no trânsito, consumo alienado, diversões alienadas, vulgaridades como símbolos incontestáveis de sucesso. 

Só mesmo uma força que venha do alto pode nos salvar. 

Ando torcendo para que caia logo um novo meteoro.

– Manuel Sanchez 

Anotações Órficas: alimentos da mente 

Já parou para pensar no que exatamente você está consumindo para alimentar seu cérebro? E como processa essas informações nas suas ações? Com que pessoas você divide seus pensamentos?

Acredito que jamais conseguiremos apreender a realidade do mundo.  Tudo o que temos são recortes.  Por doutrinação, tradição cultural ou escolha, fazemos um recorte da realidade e olhamos o mundo por essa janela.

E essa visão é só nossa ainda que as demais pessoas do nosso entorno pareçam estar olhando na mesma direção. Cada um processará o recorte de forma única. É um grande equívoco assumir que, a partir das mesmas informações, os outros chegarão às mesmas conclusões que nós.

Filtramos nossos sentimentos e realizamos nossas escolhas por uma régua de valores que podem até ser divididos com um grande número de pessoas, desde há muito tempo, mas que essencialmente são apenas uma de muitas lentes possíveis.

Lentes que podem ser  regionais ou cosmopolitas, cruéis ou solidárias, preconceituosas ou compreensivas, atualizadas ou fincadas no passado emoldurado pela tradição da sua tribo. Ou da sua igreja.

Então nesse recorte, como você está fazendo? Em quais  tipos de discursos você está aderindo? Quais livros você escolhe para alimentar sua mente? Quais tipos de programas você procura no seu tempo livre? Com quais pessoas você decidiu manter contato? Quem você cortou de forma fulminante ? Largar também é escolher.

Tudo isso em conjunto irá formar um caldo  no qual você está mergulhando sua mente.

E sua mente, por fim, é quem você se torna na direção de um corpo material que envelhece dia a dia. Atravessando o mundo.  Com seus recortes.

Eu por mim tento hoje entender os recortes de mundo nos quais fui criado. Com alguns eu concordo plenamente. De outros eu me afastei por entender que não foram escolhas minhas, mas que repetia por hábito ou treinamento vindo da infância, da igreja ou da família.

Decidi há muito tempo ter uma postura mais libertária em relação à vida e às pessoas.

Com isso, mesmo que pessoalmente não pratique certas condutas ou não sejam do meu gosto, decidi que devo fazer um esforço ativo de tolerância para deixar cada um viver sua vida em paz, com suas escolhas.

Não acredito que seja meu papel impor aos demais qualquer conduta ou escolha que tenha feito para mim. Posso explicar porque ajo da maneira que eu ajo, mas me policio diariamente para não querer proibir ou criticar hábitos, escolhas e decisões distintas das minhas. E aqui me refiro às escolhas que incomodam e escandalizam  porque estilos inodoros não desafiam a tolerância de ninguém. 

Fujo da vulgaridade. E vivemos afogados em um mundo inundado de vulgaridade, preconceito  e maledicência. Pior: habitado por indivíduos e congregações que tentam nos impor suas escolhas preconceituosas e arbitrárias, crendo e justificando-se que o fazem pelo nosso bem e proteção.

Nao é fácil, mas existem caminhos e escolhas. Com o tempo, aprendi alguns atalhos para evitar o vulgar e separar-me dos tiranos da vida alheia que teimam em proibir atos e condutas dos outros unicamente porque “sua tradição” ou “seu deus” assim desgostam. Fuja desses cretinos que querem impor seus recortes para salvar o mundo.

Alimento minha mente com tudo aquilo que me leve à reflexão. Gosto de ler os clássicos, de frequentar  museus, de ouvir músicas e concertos. Reconheço que a base da cultura está nas manifestações mais sinceras do gosto popular. E os dois mundos transitam muito bem em mim.

Valorizo cada vez mais minhas raízes. Vindo de uma família simples, tenho  por natureza um gosto cosmopolita. E foi dificil entender o meu espaço. Gosto de rodar o mundo.  Gosto de conhecer povos.  De provar comidas e bebidas diferentes. De subir pirâmides. De andar no deserto. De explorar cidades estrangeiras. E deixo cada qual escolher a vida que desejou.

Não me junto com pessoas vis ou vulgares. Retirei da minha convivência os indivíduos preconceituosos, homofóbicos e racistas. E isso fez com que nos últimos tempos eu cortasse antigos conhecidos, pessoas com quem  convivia desde os tempos de colégio mas que atualmente não reconheço como amigos. Não foi agradável. Muitos dizem que fui grosseiro e mesmo cruel. 

Às vezes precisamos entender o valor dos atos violentos e dos términos. Quem nos olha com os olhos de antigos hábitos não conseguirá compreender. Precisamos ser cruéis com a estupidez daqueles que insistem.

Eu sou do diálogo. Mas carrego uma arma. Passei a ver caminhos paralelos.

Alimento minha mente com decisões próprias . Não tenho roteiros para ninguém. Não sigo gurus. Não acredito em normas Divinas. Não confio em regras impostas pela tradição e que não façam sentido racional. Faço questão de andar no terreno contrário ao do politicamente correto que me soa como um novo déspota.  Odeio o vitimismo, evito pessoas que só reclamam e vivem encravadas em suas frustrações.

Creio na bondade. Acredito no silêncio, no respeito, no esforço  individual, no estudo e no dever. E esses são valores com os quais me alimento. 

São as minhas lentes.  Os meus recortes. E os filtros de tudo o que coloco em minha mente hoje.

– Manuel Sanchez