Crônicas e Afins: Sobre Paixões e Charutos

Chego em casa depois do trabalho e minha mulher ainda não está. Nossa cachorra se joga em minha direção da mesma forma escandalosa que faz todas as vezes, mas comigo é sempre menos intenso do que quando ela recebe minha esposa. Com ela é sempre uma festa. Não esconde a preferência. Cachorros são sinceros nos seus afetos.

Não é que tenha ciúmes, mas o elo entre as fêmeas parece ser muito mais intenso do que comigo. Nossa cachorra é um bichinho simples mas absurdamente temperamental. Se chego e não brinco com ela pelo tempo que ela mesma estipulou como necessário, começa a me seguir pela casa latindo alto e reclamando.

Vou andando e fazendo as minhas coisas e lá vem ela pulando e rosnando e latindo e brigando até ter minha atenção indivisa.

Tenho que parar tudo e rolar no chão com ela por alguns minutos. Os pêlos na roupa nunca são opcionais.

Depois que ela mata as saudades,  eu acho que tenho o direito de relaxar e  pego uma dose de whiskey. Vou acender meu charuto na varanda. O primeiro gole é sempre o mais saboroso. Assim como a primeira baforada. Vícios e prazeres são sempre melhores no ineditismo das sensações. O encontro original e nunca repetido dos afetos.

Existe alguma coisa no hábito que consome a gente. Como o o fogo lento que consome a bucha do charuto. Por melhor que seja o bouquet do tabaco, do melhor tabaco, a repetição gera um certo descomprometimento com a atenção. Rotina que amorna. Congela. E peças frias se quebram.

No que serve para charutos e bebidas há um paralelo com relacionamentos. Todos eles. Qualquer um deles.

Paixões explodem na ignorância do corpo. Na falta de referências. Nas estréias. Ineditismo de pele e do tom de voz. Esperança de orgasmos ainda não vividos. Pontos de vista expressos por uma boca que você pouco conhece. Paixões surgem equilibristas nas cordas do precário. Pertencem à imaginação. Artistas de um circo que se conhecem dando saltos sem redes. Adrenalina no ar. Adrenalina do corpo. Como a fumaça de um bom charuto baforado ao vento. Aquela fumaça dançarina que sobe pelas narinas e fica impregnada na barba e nos cabelos. Cheiro que cola no corpo igual uma tatuagem.

Minha cachorra detesta o cheiro do meu charuto. Quando fumo na varanda ela fica de longe e briga. Late e rosna até eu acabar e entrar em casa novamente. De nada adianta falar de ineditismos e das paixões do precário. Ela não quer fumaças dançarinas.

E eu também. Quero o carinho talhado no hábito. A brincadeira do dia a dia. Os cuidados que pertencem à realidade. O compromisso de todo dia chegar e rolar no chão. Rotinas do solo. O tom de voz que traz segurança e conforto. Amor com referência.  Amor que cuida. Que escuta. Apoia. Perdoa. Amor que não se desfaz como fumaça. Amores do corpo.

Paixões que pertencem à imaginação me deixam irritado.

Abandonei as precariedades. Me amarrei em cordas firmes.

Carinhos do dia a dia.

Mas eu tenho um vício em charutos. E em fumaças. Dançarinas.

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Crônica “Sobre Paixões e Charutos”, de Manuel Sanchez

 

Crônica: Amor de Menino

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Até o momento em que a viu, suas maiores preocupações eram os desenhos animados e as revistas em quadrinhos. Era um mundo simples que depois daquele olhar, nunca mais foi. Aquele sentimento abriu seu peito, tomou posse e fez morada como um invasor que chega na noite.

Tudo foi jogado ao chão como um terremoto. Um vulcão que entra em erupção. Algo estava diferente.

Eles estudavam juntos e ele via aquela menina todos os dias. Mas havia alguma coisa modificada no jeito que ela andava, nos seus gestos, na maneira que mexia no cabelo. Ela era leve. Flutuava. E tirou a firmeza sob seus pés.

Sentiu como se fosse a primeira vez que a tinha visto. Ela não era assim até ontem! Quem era aquela menina, agora? Alguma coisa na sua pele. Ou talvez nos seus olhos. Não sabia muito bem. Mas era uma hipnose que irradiava de seu corpo.

Ele acompanhava os movimentos para onde quer que ela fosse dentro da sala de aula, no pátio e após o soar do sinal.

Durante os dias seguintes, ele apenas olhou de longe. Também não entendia.

Era ela que havia se alterado ou era ele? Tinha que chegar a uma conclusão. Depois de um tempo pensando com aquela tempestade que trovejava dentro de si, concluiu que era ele próprio. Devia estar doente. Como explicar aquele suor frio, o coração acelerado quando ela se aproximava e o nó que estrangulava sua garganta? O pior era esse maldito calor que só aparecia quando ela estava por perto. Alguém pode abrir a janela?

Sentiu uma irresistível vaga que arrastava seu corpo para perto do dela. Não importava se era maré baixa ou maré alta. Ela o arrastava para o mar alto e pronto. Não havia escapatória.

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Buscou resposta nos seus oráculos. As revistas em quadrinhos e os desenhos o ensinaram como viajar no tempo, como derrotar alienígenas mas não não não…. não havia nada ali sobre o que fazer se estivesse apaixonado.

Mudou de lugar dentro da sala para ficar próximo dela. Ensaiou puxar assunto. Tudo em vão.

Aquela menina nem mesmo olhava em sua direção. Ele era invisível para ela. E justo ela, que havia se tornado um arco íris: impossível não notar.

Mas o garoto não iria desistir tão fácil. Se estava sentindo algo que nunca havia experimentado dentro do peito, decidiu fazer o que nunca havia realizado para chamar sua atenção.

Primeira missão: o endereço. Seguiu a menina por meio bairro após a saída do colégio até seu prédio e conseguiu o número do apartamento com o porteiro. Essa foi fácil.

Depois leu páginas e páginas e páginas atrás de um poema que exprimisse exatamente o que estava sentindo na alma agitada. Surgiu a dúvida: será que alguma outra pessoa no mundo já havia se sentido assim? Ele duvidou. Tudo o que ele fazia era pensar nela dia e noite. Era um fogo que ardia na sua pele e que ninguém mais via.

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Imaginou se todo mundo se sentia apaixonado assim por alguém. Como o mundo iria continuar? Era tudo muito confuso e cada caminho parecia incerto. Essa tal de paixão devia ser coisa que se abatia sobre poucas pessoas.

Quando achou o poema certo, copiou tudo.

Por fim: flores. Enviou as mais belas flores que encontrou. Juntou as moedas da mesada e pensou quantas revistas em quadrinhos valiam uma rosa.  

Se era para ser ridículo, seria por inteiro.

De fato, foi como sentiu depois:  ridículo.

Nunca houve resposta. A menina que tanto o atraía mudou de lugar na sala. Ficou mais longe dele. Até o simples “oi, bom dia” que finalmente havia arrancado dela e que lhe dava esperança, cessou. Quando tentou lhe dirigir a palavra para perguntar se ao menos havia gostado das flores, recebeu as costas. O que era frio, tornou-se gélido.

O menino sentou sozinho no pátio e refez seus passos. Não sabia o que tinha feito de errado. Uma grande decepção invadiu seu peito. Ficou surpreso ao constatar que havia espaço no coração tanto para a decepção como para o carinho que sentia. Não entendia porque as pessoas queriam sentir isso e falavam tanto no assunto. Essa tal de paixão… isso não era coisa boa.

Ele jurou que nunca mais repetiria isso. Nada de poemas. Nada de flores.

Ficou olhando de longe para aquela menina por mais alguns dias sem saber o que falar. Mas também não seria necessário, afinal ela nunca havia retribuído o olhar.   

Logo em seguida, sua hipnose trocou de escola.

E o garoto ficou triste. Pelo menos já estava acostumado em tê-la por ali, mesmo que longe.

Nunca mais sentiria isso. Melhor ser um eremita.

E estava decidido a manter sua promessa quando andando na rua seus olhos cruzaram com olhos belos e  faiscantes. Ele e a menina ruiva pareciam ter a mesma idade. Ela sorriu e esperou. Mas seus gestos esboçavam um convite mesmo que silencioso. O garoto se aproximou e sem saber direito o que falar, decidiu se apresentar.

A primeira conversa dos dois foi desastrada e atropelada. Mas foi a primeira de muitas que teriam a partir dali.

E quando deram o primeiro beijo, bem no alto daquele terraço, ele pensou que nunca mais teria espaço para as revistas em quadrinhos; porque tudo agora se resumia aos poemas e às flores.

Infinitas  flores.    

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de Manuel Sanchez, “Amor de Menino” 

 

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Crônicas e Afins: Por toda a vida

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Acordo de madrugada novamente e escuto a respiração dela ao meu lado. Calma. Consigo distinguir as curvas do seu corpo no escuro e me aproximo. Devagar. Tento abraçá-la sem que ela acorde. O cheiro do seu cabelo me dá uma sensação de carinho. Território.

Não que eu tenha sido um fiel protetor das minhas promessas ao longo dos anos. Não fui. Mas sempre soube  que ela seria a melhor parte da minha vida. Quando tudo parecia ruir à nossa volta, no momento em que seria fácil me culpar, ela esteve ali. E quando fustigada por perguntas que devassavam nossa privacidade, me protegeu. Lealdade.

Toco seu corpo e ela se vira aninhando-se no meu peito. Abraço com delicadeza e ela continua ronronando alguma coisa em seus sonhos. A pele dela tocando a minha me traz paz. Carinho.

Tantas pessoas falam sobre o amor – normalmente sobre um dos lados do amor – que criamos uma imagem que nem sempre corresponde ao todo. Cantam a festa do sexo, as alegrias dos presentes, os momentos de prazer das descobertas. Mas nosso amor só foi testado de verdade nas dificuldades do dia a dia, na rotina do cotidiano, no filho que não vingou, nas frustrações de planos, nos silêncios de apoio e – sobretudo – no perdão. Compromisso.

Beijo de leve e abraço mais forte. Ela enfia o nariz no meu pescoço e resmunga algo entre o instante de acordar e o ainda estar dormindo. Avanço sobre suas roupas e ela tenta me afastar. Insisto e ela cede, me entregando um novo beijo. O seu corpo se abre para o meu. Sem trocar qualquer palavra. Intimidade.

tumblr_niybzfEm9m1qhzejeo1_1280Dentro do seu corpo eu só consigo pensar que estaria ali para sempre ao seu lado.  Nos seus sonhos e dificuldades. Deixando que ela fosse livre e inteira. Preparado para fornecer a energia que ela precisasse. Entrega. 

Tantos anos se passaram. E navegamos por tantos mares. Alguns calmos, outros revoltosos. Tivemos brigas. Algumas épicas. Nos separamos. Conhecemos lados um do outro que normalmente escondemos nos jogos de conquista. Nos perdoamos. E no terreno ferido dos nossos sentimentos recriamos uma vida em comum. Planos.

Depois do gozo ela me beija, me empurra de cima de seu corpo e me manda dormir. Caio para o lado e olho para seu corpo na escuridão do quarto querendo mais. Ela diz não. Em silêncio, agradeço à fortuna por ela estar ao meu lado. Desejo.

Acredito no nosso amor. Não um amor de fantasias e sonhos. Mas aquele real, entre pessoas que se gostam, que falham, que se machucaram em um determinado momento mas que acreditam que se pertencem, que possuem muitas alegrias para descobrir juntas e decidem dar uma nova oportunidade para uma relação de afeto e de carinho. Cumplicidade.

Qualquer um pode iniciar uma relação a dois. Mas mantê-la ao longo do tempo exige decisão. Um real desejo de permanecer juntos, de ultrapassar as tentações, de encontrar momentos de intimidade na loucura e nas chatices do cotidiano, zelar pelo cuidado com o outro, respeitar os espaços individuais, criar boas memórias, desenvolver o perdão, dividir experiências, fermentar o tesão. Depois do sim é que a realidade começa. Paciência.      

Não sei onde estaria na vida sem você, minha morena. Provavelmente entregue aos vícios que hoje apenas me divertem. Porque foi no nosso dia a dia que lapidei um homem melhor. Faço isso por mim também, com certeza, porque antes de sermos dois em vida temos que ser um inteiro. Mas sobretudo me esforço por você. Para que eu mereça esse olhar. Admiração.

Quem venham os dias. Que se juntem os anos. Que venha a vida.

Juntos encaramos qualquer coisa.

Com você ao meu lado eu sei que dará certo.

A madrugada se afasta enquanto penso em nós dois. O sol surge invasor na janela do nosso quarto. Olho para o lado e ela já está acordada. Sorri devagar e se coloca em convite. Território.  

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Crônica Por toda a Vida,  de Manuel Sanchez

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Crônicas e Afins: De pai para filho.

Filho,

Você que ainda não chegou, existem tantas coisas que eu gostaria de te passar. Será que teremos esse tempo? Você vai me escutar? E se me escutar, garoto, terei condições de expressar o que de fato sinto que é importante?

Espero que consiga te dar o meu exemplo. Nem sempre acertei. Mas Deus sabe que  tentei.  Correndo de um lado para o outro, sobrecarregado de trabalho, quebrando a cara…  por vezes  imaturo em meus sentimentos , fugindo da reflexão, centrado na busca do próprio ego, passando por cima de sentimentos alheios, reticente em assumir deveres e responsabilidades,  estupidificado pela preguiça ou por diversões vazias…  fui um homem normal, meu filho. Caí em muitas armadilhas ao longo da vida e muitas vezes repeti os mesmos erros.

Mas chega um ponto na vida de todo homem – e chegará para você também – em que temos de parar com o auto-engano, entender nossos deveres, apreciar nossas inclinações e compreender que o mundo segue em frente independentemente de nossas vontades, crises ou receios. Rever decisões e agir para encerrar uma série de situações inúteis. Corrigir rotas.

Montando uma lista – essa invenção inútil por natureza – de algumas lições que seu velho pai extraiu até a presente curva do rio, ela seria mais ou menos como abaixo.

Não é um roteiro, garoto. Seu pai não acredita em tabelas. E nem em mandamentos. Nada que venha tiranizar suas escolhas.

Mas é o que gostaria que você entendesse.

 

1. Conheça a si mesmo:

Talvez o início da filosofia. Talvez o início do pensamento crítico. Com certeza, o primeiro passo para tomar as rédeas de sua vida: conheça a si mesmo. Contemple o que te apraz. Perceba o que te dá prazer de fazer na vida. Veja o tipo de pensamento que te motiva a prosseguir.

Pode ser que ao se analisar e descobrir seus pendores, você se descubra em um grupo isolado e minoritário. Tudo bem. É uma tolice essa busca de pertencimento a grupos. Junte-se a eles se você concordar. Mas não se imponha uma idéia ou um comportamento apenas para não se sentir sozinho no meio da multidão. Entenda quem você é e Seja. Torne-se essa pessoa que vive no seu desejo e na sua mente. Eventualmente encontrará pessoas com os mesmos interesses, gostos etc… mas também não se importe se não encontrar. Talvez seja VOCÊ a criar esse ponto onde outros no futuro irão encontrar repouso e ânimo.

Invariavelmente a sociedade nos força a pertencer a grupos, nos colocando em caixas, facilitando a extração de nossa potência com rótulos. Rebele-se contra isso. Descubra quem você é. E viva a sua vida.

 

2.  Pensamento sem ação não te levará a lugar algum

Depois de chegar às conclusões dos seus gostos, inclinações e ferramentas de potência, aja no sentido de sua realização. Saia da zona de conforto. Saia da inércia. 

É possível  que a busca dessa realização seja lenta. Seja paciente. Com toda certeza, seja qual for o plano que você deseja seguir na vida, ouvirá vozes de reprovação e desânimo disfarçadas de preocupação. Seja perseverante.

Mas o fato é que você tem que agir para desenvolver as potências descobertas após analisar e conhecer suas inclinações. 

Às vezes, a ação envolve estudo, outras vezes envolve empreender e abrir o próprio negócio, por vezes desenvolver novas capacidades físicas ou linguisticas.. sei lá, garoto, vai ser contigo. Não existem tabelas pré-ordenadas porque cada um, conhecendo a si próprio, navegará em águas específicas na busca pela realização pessoal.

A questão é começar a agir.  A contemplação sem ação é inútil.

 

3. Não se acomode

Aprenda algo novo sempre. Mesmo que você esteja bem situado na vida, economicamente estável e com suas questões pessoais bem resolvidas. Aprenda algo novo. Pode ser um idioma, um esporte, uma atividade artística, uma nova faculdade, conhecer um país diferente… seja o que for, cobre-se para aprender algo novo.

Somos criaturas que precisam ser constantemente desafiadas sob pena de nos tornarmos chatos, redundantes e monótonos.

 

4. Seja perseverante e resiliente

Apesar de ter falado isso acima, vou colocar aqui em separado para marcar sua importância: não recue e aguente firme.

O mundo não está interessado nos seus belos planos de realização pessoal. O mundo segue seu rumo com ou sem você e não estranhe quando ele chegar com tudo atropelando seus planos tão bem arrumadinhos. Dores, doenças, mágoas, golpes baixos, traições, desemprego, morte de entes queridos e demais notícias que arrebentam nossa potência interna… elas virão em algum momento. Às vezes os cavaleiros do desespero chegam juntos. Aguente firme: resiliência. Pele grossa. Couro firme. As pancadas virão e isso nada tem a ver com você ser ou não uma boa pessoa e de índole honesta. O mundo é assim: belo, caótico e sem noção de justiça. E às vezes as chicotadas do caos arrebentam nas nossas costas sem aviso. Seja resiliente.

Existirão aqueles que irão tentar te dissuadir dos seus planos. Vão jogar na sua cara as dificuldades, os pontos de inconsistência, mostrando por “A + B”  porque você não deveria dedicar-se a este ou aquele caminho. E nem sempre farão isso por maldade ou malícia. As vozes do desânimo podem vir disfarçadas de sincera preocupação. Entenda isso, não leve para o lado pessoal e continue atuando nos seus planos se eles fazem sentido para você e para quem você quer se tornar. Seja Perseverante.

 

5. Caia fora quando não fizer mais sentido

Você não é uma árvore: se não gosta de onde está, retire-se. Mova-se. Dá medo, sim. Mas viver com o medo é melhor que morrer sem sentir nada.

Quando aquele “algo” perdeu o sentido, é hora de seguir adiante. E por “algo” estou falando do emprego ao relacionamento, passando pela identidade que você havia construído para si até algum tempo atrás, mas que por alguma razão perderam a importância e a tangência com sua realidade.

Ser perseverante não quer dizer ignorar a nova realidade  quando antigos planos se desfizeram e viraram pó. Entender que algumas coisas se encerram, mudam e seguir adiante não é sinal de imaturidade e nem de falta de resiliência. Existem momentos, planos e sentimentos que de fato terminam. 

Tenha sabedoria para identificar a diferença.

 

6. Assuma suas responsabilidades.

Ser quem você deseja ser, lutar pelos seus sonhos e cair fora de uma situação quando ela perdeu o sentido, não significa ter uma carta branca para ser inconsequente, imaturo, atropelar os sentimentos alheios ou detonar expectativas sinceras que você criou nas outras pessoas.

Existem responsabilidades que assumimos que devem ser honradas. Cumpra com suas obrigações. O mundo não é uma egotrip onde só importam os seus desejos e ambições. Termine bem as situações que você mesmo criou no plano pessoal ou profissional. E entenda que certos atos criarão responsabilidades pelo resto da sua vida.

7. Não banque a vítima

Muitas coisas na vida nos arrebentam e doem. Algumas são resultados de atos que nós mesmos tomamos enebriados pela cobiça, luxúria, afetos mal canalizados, empolgação inconsequente ou falta de planejamento. Outras são resultados de atos sórdidos realizados contra nós ou que acabam nos atingindo, mesmo que essa não fosse a intenção original.

Não quero minimizar a dor e o sofrimento de ninguém. De fato, alguns eventos são violentos e traumáticos. Mas saiba que é você (e só você) que pode se reerguer. Se para isso é necessário auxílio médico ou psiquiátrico, procure.

Não temos como alterar inúmeras coisas que aconteceram conosco ou fazer desaparecer doenças com as quais nascemos ou desenvolvemos. Existem afetos que as pessoas a nossa volta ou de nossa família negam-se a dar. Não podemos mudar o local onde nascemos ou as pessoas que nos cercam neste meio. Receberemos bofetadas da vida e de várias pessoas. Algumas serão especificamente cruéis. Respire e levante-se.

Mas se não podemos evitar inúmeras  coisas que a vida nos impinge, podemos escolher como vamos lidar com elas. Chorar e reclamar pode servir como um desabafo momentâneo para aliviar o peito, mas não irá resolver nada. As outras pessoas podem ouvir com compaixão e solidariedade, mas elas não resolverão sua vida. E ninguém gosta de alguém eternamente se vitimizando ao seu lado.

Somos todos vítimas involuntárias de algumas situações ao longo da vida, mas não vivencie eternamente isso. 

Assuma sua vida em suas mãos e reconstrua-se.

 

8) Enlouqueça (…às vezes)

Um pouco de maluquice faz bem, garoto.

Experimentar faz bem. Passar ridículo, não mata ninguém.

Ter uma opinião fora do comum , não te rebaixa. Aliás, normalmente as opiniões mais comuns e massificadas são traiçoeiras e, não raro, limitadoras do espírito.

O preço a pagar pelo excesso de controle e medo do ridículo é a entrega da felicidade. E ademais, acredite, as pessoas não reparam tanto em você como você acredita que elas façam.

Ria de você e do ridículo que fazemos nessa vida.

Somos um grão de poeira consciente desse Universo, tentando entender a si próprio. Estamos aqui em meio a uma completa ignorância sobre nossas origens espirituais e nosso destino após a morte. Ninguém sabe coisa alguma por mais que finja ou se iluda. Temos todos as mesmas dúvidas, os mesmos medos e o mesmo desejo de ser feliz. Ninguém está nem aí se você fizer algumas doideiras de vez em quando.

 

9) Seja Honrado

Força e Honra, já dizia o lema das falanges romanas.

Tenha respeito próprio e dignifique sua vida. Mantenha sua palavra. Cuide bem daqueles que fazem parte do seu círculo de afetos. Trate com respeito todos que o cercam, sejam ou não merecedores. Zele por suas obrigações. Ainda que o mundo a sua volta esteja inundado de imundice, roubalheiras e traições, mantenha-se íntegro. Proteja seus amigos. Honre seu nome.

Não existe recompensa externa por isso. Não existe nenhuma divindade que virá lhe dar tapinhas nas costas por suas decisões. Trata-se de uma norma de conduta. Trata-se de rigor íntimo. É melhor ser reto do que ser retificado.

 

10) Cuide dos seus afetos.

Afetos sinceros nesse mundo mecanizado e veloz são presentes reais. Cuide deles.

Zele pela sua família, pelas suas amizades e pelo convívio em geral. Entenda que cada qual tem um limite e o que chamam de sinceridade e espontaneidade, às vezes, é apenas falta de tato e menosprezo com o bem estar alheio. 

Um carinho faz bem a qualquer hora. Uma gentileza também. E não precisa de motivo. Entenda que silêncio e respeito também são formas de carinho.

 

11) Aprenda a lidar com seu dinheiro.

Seja consciente que vivemos em um mundo alicerçado em trocas monetárias. E qualquer frase de efeito de diretório acadêmico que você queira gritar não mudará isso.

Saber lidar com seu dinheiro, poupar e investir são realidades do mundo prático que irão lhe trazer maior conforto, realização de conquistas materiais e tranquilidade em situações de aperto, desemprego e urgências mil que ocorrem ao longo da vida. Tenha uma reserva de emergência. Acredite: sempre existirá algo que atravessará todo o seu planejamento, então esteja preparado.

Cuide do seu dinheiro. Tire de sua cabeça a idéia de que crédito fácil é sinal de bem estar. Não finja um padrão de vida que não cabe no seu bolso.  Quando o dinheiro minguar, as dívidas permanecerão. E com juros.

12) O fim faz parte e a morte também

Aceite o fim. Fim de projetos. Fim de relacionamentos. Fim de relações longas com seu trabalho. Fim da própria vida.

Nada é eterno. A dor vem em boa parte de nos acharmos permanentes, de acreditarmos que as situações não se modificam ou que por algum motivo somos especiais e nossos padrões de conforto ou relações afetivas jamais serão terminadas.

Mas a impermanência é a única verdade. 

Quando o seu relacionamento terminar, os afetos seguirão novos caminhos. Quando seu ente querido falecer, você continuará respirando. Quando você morrer, as pessoas irão chorar por alguns dias e seguirão com suas vidas e reconstruirão seus afetos.

A vida vem e também seguirá seu trajeto rumo ao silêncio.

O que fazemos no intervalo entre esses dois grandes marcos – nascimento e morte – isso é o que interessa.

Você ainda não chegou, meu filho. Talvez tenhamos essa conversa em breve. Talvez, nunca.

Mas se um dia nos cruzarmos nessa vida, seu pai terá um imenso prazer em ter duas ou três palavras com você. 


Crônica e afins: “De pai para Filho” , de Manuel Sanchez

Atividades caseiras 

Nesse mundo cada vez mais chato onde o politicamente correto fica vigiando e censurando até os nossos pensamentos, eu gosto cada vez mais de ficar na minha casa com minhas loucuras, textos  e vícios.  E progressivamente me sinto mais feliz assim.

– Manuel Sanchez