Crônicas Pessoais e Afins: impaciências 

Impaciências

(Manuel Sanchez)

 

Frequentemente somos impacientes.

Queremos velocidade para atingir o sucesso profissional ou a fortuna. Muitos decidem-se por atalhos que, às claras,  sentem vergonha de nomear. Outros se gabam das facilidades torpes que usaram como caminho mais rápido. Relativismos morais empesteiam nossa época.

Algumas pessoas acreditam que relacionamentos afetivos são construídos na batida mais acelerada do coração e pronto, tudo resolvido. A idéia de liberdade tornou-se descolada de qualquer responsabilidade.

Queremos um fast-food de sentimentos, o resumo do livro, a notícia pelo meme de Internet. 

E o modo como desejamos cria o mundo em que vivemos. Estranho é que quando os pilares frágeis se esfacelam, reclamamos da brevidade das obras.

Poderíamos ter antevisto o fim do roteiro se tivéssemos tido um pouco mais de atenção ao contemplar o caminho.

Mas somos todos impacientes. Sem perceber que muitas vezes chamamos de destino apenas o resultado de nossas precipitações.

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Crônicas e Afins: cavaleiros do Apocalipse 

Manifestações para que se  fechem exposições, manifestações para cancelar  debates em universidades, volta do ensino religioso confessional na base curricular , proposta de emenda constitucional  para proibir a realização de abortos até em casos de estupro, flexibilização do trabalho escravo, discussão recorrente para diminuir a grade de história na base curricular, manifestações pela volta da ditadura e do regime militar , criminosos manifestos liderando as pesquisas eleitorais, quadrilhas organizadas nos governando, restrição crescente de direitos,  vaquinhas para defender “meu político bandido do coração” , slogans raivosos na tv bradando que “é tudo culpa dos direitos humanos ” , ministros aristocráticos zombando da nossa cara comparando-se aos escravos,  garotos passando de fuzil ao meu lado em rodovias centrais de minha cidade , roleta russa de assaltos enquanto estamos  parados no trânsito, consumo alienado, diversões alienadas, vulgaridades como símbolos incontestáveis de sucesso. 

Só mesmo uma força que venha do alto pode nos salvar. 

Ando torcendo para que caia logo um novo meteoro.

– Manuel Sanchez 

Crônicas e Afins: Ataque de Bola Branca

Ataque de Bola Branca

(Manuel Sanchez)

 

Eu gosto da companhia da minha mulher. Às vezes, não precisamos nem conversar. Só de saber que ela está ali me deixa mais sereno. Se antes isso me incomodava no fígado, hoje há um quê de paz no casamento que  me faz bem. Amadurece.

Será o tempo que me vez racionalizar a paixão ou me apaixonei perdidamente pelas razões do casamento?

Mas quando ela viaja e estou só, gosto da companhia dos clássicos: Jameson, Cohiba & Livros. Escuto as vozes dos mortos quando estou sozinho.

Enquanto bebo o primeiro, acendo o segundo e leio os aforismos dos terceiros.

Passei do ponto de me deixar enganar pelos elogios que os clássicos fazem à razão. Nos colocam como seres acima dos demais, dotados de características especiais que nos fazem superar as frustrações e as dificuldades. Página após página, exortam a acreditar que somos melhores. Homens perfectíveis que podem (e devem) controlar as paixões, os sentimentos livres. Nem toda paixão é boa. Algumas liberdades devem ser podadas.

Queimo meu charuto lendo nas entrelinhas: os clássicos apostam muito em nossa capacidade. Exageram. Quase um ato de fé elaborados por homens que defendem o controle da razão.

Na boca o gosto suave do whiskey. Avanço as páginas até as cinzas soltarem a anilha. Meu amigo descansa no cinzeiro até morrer. Charutos não devem ser apagados.

Sozinho, vou para a rua.

A sirene da polícia avança em alto som iluminando a noite. Uma patrulha que se arvora em ordem sobre sentimentos soltos. Vagabundos pelas esquinas. Amantes que se beijam. Prostitutas que sobrevivem. Jovens que se divertem em bares. Afetos de amor e de medo impulsionando os corpos. Propulsionados para frente: para atos e omissões. Ao sabor de paixões. O raciocínio vem depois. Depois justificamos os atos de moral ou de arroubo, controle ou tesão. Dinâmica dos afetos.

Entro no bar de minha preferência. Desses com mesas de sinuca. Sem leis antifumo. Pelo menos nunca vi reclamarem. Pago por uma jogada e fico ali quieto. Sempre treinando a tacada mais firme. Preparo o jogo. Bola branca em ataque. Cinzeiro postado ao lado e acendo outro charuto.

Pessoas circulam nas mesas ao lado. Afetos de alegria.

Grupos animados com seus cigarros. Que são fracos. Que não tem gosto. Veneno por veneno prefiro o poço mais fundo. Continuo pedindo whiskey. Não tem gelo. Cowboy.

Gosto de lugares onde posso ser quem eu sou. Sem ter que fingir que acredito em um mundo melhor, orgânico, verde, envolvido em causas sãs. Corretas. Pulsões de morte e violência são da realidade humana. Temos dentro de nós uma dinâmica única. Amores que clamam. Violências que só a cultura e o chicote controlam. Linhas Freudianas me vem a cabeça a cada gole. Dinâmicas espinozanas encaçapando racionalidades estóicas.

Pego o taco com força e faço a jogada mais forte.

Então escuto a gritaria.

Garrafas estalam na parede. Copos caindo no chão.

Alguém voa com violência sobre um  casal.

Gritos e um rasgo de sangue voando pelas mesas de sinuca.

O amante corre para a porta de saída. A menina grita de dor no chão. Os amigos dela avançam em grupo e derrubam o agressor. Chutes. Chutes na cabeça. Dentes quebrados. Nariz em pedaços.

Enquanto os seguranças tentam segurá-los sem muita vontade, outros gritam e  também chutam o corpo do namorado enganado.

Muitos gritos. Gritos de medo. Gritos de farra pela violência. Risadas de hienas que se divertem com as dores e as inconstâncias dos outros como espetáculos sujos.

Pulsões de sexo e de morte. Afetos de ódio em resposta ao desejo alheio. Sangue esguichado quando o chicote não controla, quando a razão não foi mais forte.

Todos dirão que tinham boas razões naquela noite. Racionalidade explicativa para afetos que transbordaram da única maneira que poderiam ser. O agressor que atacou por ciúmes e pelas promessas passadas traídas. O amante que fugiu por não acreditar em respostas violentas. A moça que beijou em busca de um carinho que já não recebia. Os amigos que atacaram em grupo na proteção de um dos seus. O segurança que pouco fez porque estava cansado de bêbados. E mesmo os policiais que todos levaram sob o chicote para organizar os afetos em tumulto em nome da razão.

O agressor estava surrado e inconsciente quando da chegada da polícia militar que levou o grupo inteiro para a delegacia. O policial e a sirene. Organizando um mundo em constante pulsões de desejo, amor, criação e morte. Devaneios de ordem. Ilusões da razão.

Quando o caos diminui, os demais fregueses continuam com suas vidas. Fim de espetáculo. Bolas de sinuca estalam umas contra as outras.  Paixões se chocam a cada minuto. Razões serão dadas para sentimentos, ações e silêncios.

Entre os goles do meu whiskey, um pouco bêbado pelas doses, vejo um grupo de senhores na mesa ao lado. Sêneca está a polir de giz a ponta de seu taco. Espinoza faz a ponte com uma das mãos preparando sua tacada mais firme. Enquanto isso, escuto Freud rir anotando os pontos no quadro negro.

Vejo o vulto de mortos quando estou sozinho. Vai chegando o fim da noite.

Continuo treinando minha tacada mais forte.

Crônicas e Afins: Perdido em suas Curvas

Perdido em suas curvas, eu ainda não sei

Se é o seu corpo que me tira o tino e destrói toda razão e todo juízo

Ou seu charme que me hipnotiza os sentidos e altera meu norte 

Perdido em suas curvas, eu ainda não sei

Se é a sua boca que acalma a minha mente

ou suas idéias que me agitam em perdições

Perdido em suas curvas, eu ainda não sei

Se este caminho nos levará ao gozo ou à mágoa

Mas também

 Já desisti de perguntar

— Sanchez

 

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Crônica: Hipócrita

HIPOCRITA

“Ela me olhou no fundo dos olhos e disparou:

– Andei lendo o que você escreve.

– E então, o que achou?

– Acho que você é um puta de um hipócrita. Não faz nada do que diz. Sua vida é uma bagunça! Você não fala sério.

Tomei outro gole do chopp e prendi o cigarro entre os lábios antes de responder.

– Olha, nós não abraçamos certos preceitos porque já os entendemos completamente ou os vivemos plenamente. Mas sim porque sentimos que eles são corretos. É como um religioso que duvida de Deus mas quer acreditar… Na essência, entendeu? Mesmo com todos os defeitos e com todas as nossas falhas. Eu acredito no que eu escrevo. Eu acredito! Mesmo que não consiga praticar tudo. Eu tento. E acho mais! Tentando atingir esse ideal, o dia a dia vale mais a pena de ser vivido. Não morri ainda! Estamos só na metade da batalha. A cada dia, estou mais perto.

Ela pegou o copo da minha mão e tomou um gole do meu chopp. Ela era difícil de ler. Tinha uns olhos puxados meio orientais e uma pele queimada de praia que mexia na reação mais sexual que eu tinha. 

– Continuo te achando um puta de um hipócrita.

– Talvez eu seja…. – respondi já me rendendo aqueles olhos –  Mas mesmo assim você vai passar a noite comigo hoje.

Ela sorriu.

O chopp acabou.

Arremessei o cigarro longe antes de darmos um beijo.

Os cabelos dela tinham um cheiro doce. “

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Crônica “Hipócrita” , Manuel Sanchez