Crônica e Afins: O que você gosta de ouvir

O que você gosta de ouvir

(Manuel Sanchez)

 

Estávamos todos no bar. O bar que junta. Que liberta das palavras do politicamente correto que enojam e castram o espírito. O bar que é muro de proteção dos que insistem em nos salvar para um mundo melhor, mais verde, mais clean e mais puro. O bar que proporciona encontros e conversas. O bar que é templo. Que junta os fiéis dispostos a se conhecerem melhor fora do trabalho. O bar onde casais arriscam. O bar onde amizades são forjadas como espadas samurais. Confessionário. Onde depois da terceira se falam coisas que oprimem a alma. Bar de rua: onde se fuma.

Acendi meu cigarro na bituca do anterior. Ela se aproximou sempre correta, pura e verde,  franzindo o nariz para o meu tabaco e me perguntou com seus olhos de gata charmosa:

– O que você gosta de ouvir?

– Tanta coisa! – eu respondi – Gosto de ouvir minha esposa falando que nesse final de semana não irá trabalhar e que vai ficar em casa comigo.  Gosto de ouvir o barulho das pedras de gelo batendo no meu copo de whiskey. Quando dizem que nosso salário entrou na conta! Gosto de ouvir minha cachorra latindo feliz quando entro em casa. Gosto de ouvir quando dizem que conhecem alguma história saudosa da minha mãe. Gosto de ouvir minha mulher me chamando para namorar. Gosto do som das folhas de um livro. De ouvir risadas. Adoro que me contem piadas. Gosto do silêncio. De ouvir uma oração. Gosto de ouvir uma roda de capoeira. Do som das batidas de um coração. Gosto de ouvir o espaço vazio entre duas batidas de um tambor. Gosto quando dizem que a próxima rodada é por conta. Gosto de ouvir um sim quando na madrugada eu quero.

Ela me olhou com uma cara estranha. Como quem escuta uma língua estrangeira de um povo afastado de uma era antiga de um canto perdido em um continente não mapeado. Não me pareceu mais tão bela.

– O que você gosta de ouvir de música? – ela insistiu, sem charme.

– Ah… sambas antigos.

Ela pediu licença e saiu para conversar com algum amigo.

Tão bela. Mas talvez não tivéssemos nada para ouvir um do outro.

Um dos dois errou de bar naquela noite.

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Crônica “O que você gosta de ouvir”, de Manuel Sanchez

Crônica: “O caminho da felicidade”

“O caminho da felicidade”

( Manuel Sanchez )

 

Quem lê o que escrevo, encontra textos mais densos, outros mais cínicos. Alguns são particularmente tristes ou nostálgicos. Mas isso ocorre porque no terreno da felicidade, eu optei por vivê-la; não descrevê-la em palavras.

Eu tenho uma esfera de felicidade própria. E sou muito agradecido por isso, apesar de não fazê-lo tanto quanto deveria. Seria uma falha?

Chega a ser uma limitação, algo que preciso alterar em abordagens futuras. Crio uma imagem de que estou constantemente triste ou me afogando em mágoas. Elas existem, sim. Veja bem, não tenho nada contra a tristeza. Ao contrário, coloco-me contra essa necessidade de demonstrar constantemente uma felicidade forçada, seja em redes sociais, por ingestão de remédios ou na negativa de ficar um pouco sozinho. No meu caso, os momentos de solitude acabaram sendo um gatilho para uma análise feita em textos, uma terapia vasculhando memórias.

Mas isso não esgota os inúmeros interesses e momentos alegres de vida. E eu gosto de viver. Busco potência nessa vida.

Por exemplo, prefiro as manhãs. Gosto do sol e de me perder andando pela cidade.

Viajar me motiva: abre portas, escancara percepções. Novas comidas, novas bebidas, pessoas desconhecidas que puxam conversa quando percebem que sou turista. Entre optar por consumir coisas e consumir experiências, mergulho de cabeça nas últimas.

Gosto do toque. Não consigo conceber o amor sem o sexo. E eu vivo um amor real. Meu desejo é uma fonte constante de satisfação e de renovação dos laços. Não sou platônico: não creio que a falta alicerce o desejo. A falta leva ao fim. Preciso da concretude dos beijos e do orgasmo. Amores de carne. O sexo nos aproxima. O sexo nos expõe.  Gosto de dominar.

A arte me seduz. A arte é um farol em uma terra estrangeira. Uma terapia. Meu templo. Busco uma descoberta constante da arte em si e também dos sentimentos e pensamentos que são despertados conhecendo os Mestres. Sou um amante de todas as suas manifestações: pintura, escultura, música, teatro, literatura, dança, canto, quadrinhos, cinema… se algo me frustra na vida é não ter esse dom. Rabisco algumas palavras na tentativa de criar a magia mas…. apenas para bater de frente com o sentimento de Salieri olhando para Mozart.

Valorizo amizades e a lealdade. Mantenho as minhas por décadas. É muito difícil gente nova entrar nesse circulo. Não que seja um amigo próximo. Sou parecido com um cometa que aproxima-se durante um tempo, esfuzia-se com o encontro e depois precisa afastar-se. Mas também me teletransporto rápido quando um amigo pede socorro. Dói na alma quando constato que uma amizade acabou. Mas também respeito o fim: tudo tem seu ciclo.

Abro espaço nos meus dias para me cuidar.

Mas também me estrago com prazer. Cerveja é bom para os dias quentes, mas eu gosto é de whiskey todas as noites. Acho cigarro uma coisa de frescos: quando fumo, tem que ser charuto. Adoro os clubes com meninas dançando para mim. Gosto de jogar. A falta de opções legais não constitui problema.

Preciso de café.

Normalmente eu me comporto. Não gosto de atrair a atenção e nem de mostrar quem eu sou para as pessoas. Dificilmente falo o que penso de alguém e sei analisar um local e o que pode ser dito ou feito em seu seio. Guardo para mim os meus prazeres e aventuras.
Acredito que a idéia de que se deve revelar tudo, o tempo inteiro, e que isso é sinceridade e transparência, apenas torna-o inconveniente.

Respeito o caminho de cada um, apenas não aceito que venham tentar mapear o meu. E hoje sou cruel quando tentam fazê-lo. Aprendi que devemos ser cruéis com os glutões que arrotam verdades tentando vomitar em nossas asas. Ando no mundo politicamente correto sem me misturar com seus defensores. São todos eles tiranos do espírito. Evito os ambientes de mediocridade que me incomodam. São repletos de burrice e vulgaridade. Tenho desprezo por pessoas que constantemente se vitimizam e não assumem a responsabilidade pela mudança em suas vidas.

Sou o reflexo de uma coleção de bons momentos e de boas lembranças. Muita alegria e risos. Vou costurando uma tapeçaria que me sustenta com prazer na vida, apesar de saber que – para muitos – visto as armas do cinismo e da indiferença. Não me importo. Os que pensam assim apenas demonstram que estão fora do meu círculo íntimo. E se assim estão, motivos existem.

De todas as lições que tirei, essa é a mais importante: não existem fórmulas de felicidade nesse mundo. Nada de tábuas com mandamentos a serem seguidos por todos. Receitas prontas de bolo para atingir a alegria. Não.

Não existe um sentido prévio aos nossos dias. Uma essência alquímica que nos revele as verdades para preencher com luz o caminho. Não.

O sentido não é pretérito. Ele não desce da transcendência como um guia ou seta flamejante. Não.

Sem gurus. Sem guias. Sem caminhos únicos. Sem verdades absolutas. Afasto-me dos patrulheiros do politicamente correto com seus grilhões.

Construímos o sentido da vida, vivendo.

Dia após dia. Tarefa individual e intransferível. Árdua mas imensamente libertadora. Experimentamos e descobrimos os prazeres que nos são próprios e nos cercamos deles. Aproximamo-nos das pessoas que nos são caras e as mantemos. Aceitamos sacrifícios e deveres afins com os valores que almejamos em nossas vidas porque desejamos vê-los realizados.

Quando descobri isso, percebi que a felicidade não é nem um estado constante do pensamento e nem um destino. É um caminho, com picos e vales. Sem mapas. E que o assombro não me paralisa, mas é o fogo e o combustível que me impulsiona.

Sempre para frente. Sempre adiante. Rédea na mão, assumindo o controle das minhas decisões e vivendo com seus acertos e equívocos.

Eu gosto das manhãs. Tomo um café bem quente e deixo a sensação se espalhar pelo meu corpo. Hoje está um dia particularmente belo de outono na minha cidade. Uma leve brisa, não faz muito calor.

Hora de me perder por ai. Picos e vales.

Sem mapas.

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“O caminho da felicidade”, de Manuel Sanchez

Crônica: O mundo espiritual bateu à minha porta

O mundo espiritual bateu à minha porta.

(Manuel Sanchez)

 

Convidaram-me para ser o padrinho no batismo. E isso sempre é uma grande honra. Daquelas que devem ser levadas a sério, mas que hoje em dia parece que não dão mais importância. Típico destino das coisas que devem ser levadas a sério.

No dia marcado estava eu a postos no centro espírita. Entrei no local como quem age com a polidez exagerada de quem não sabe o que fazer mas não quer ofender ninguém. Estava em um lugar onde todas as mentes estavam mergulhadas em transcendências espirituais. Logo eu,  mente e corpo que nadam na imanência da matéria.

Como havia chegado cedo demais, sentei em um dos muitos bancos do templo e fui decifrando onde estava.

A primeira coisa que me falaram é que deveria desligar o telefone celular porque o sinal atrapalha os serviços espirituais. Foi em tom de ordem mesmo. Desligue o celular.

Pensei na quantidade de ondas eletromagnéticas que cercavam o planeta inteiro naquele minuto: ondas de rádio, ondas de tv, todo o espectro luminoso, as micro-ondas, os raios-x, os raios ultravioleta etc… mas se o meu celular tinha o poder de impedir a comunicação com o Reino Espiritual quem era eu para querer interferir logo no batizado da minha sobrinha. Vai que eu recebo uma mensagem na minha rede social bem na hora que o Espírito Santo está querendo agir. Desliguei o celular.

No altar central uma imagem maior de Jesus Cristo parecia abençoar uma outra dezena de imagens que mostravam um pajé seminu ao lado de um preto velho fumando um cachimbo. Tinha Iemanjá de braços abertos, Nossa Senhora olhando a multidão e São Francisco de braços estendidos brincando com os pássaros. Nas laterais uma série de quadros com mensagens Kardecistas, frases de Gandhi, orações católicas e fotos do Papa Francisco. Na parte mais alta, sobre o pórtico por onde entravam os fiéis, havia um quadro gigante do Sol. Pelo contexto, certamente era do Deus-Sol. Rá.

Se a idéia de girar minha vida ao redor de forças da transcendência espiritual me incomodava, a tolerância do local me agradou muito. Em outros tempos e mesmo hoje em certos meios, juntar duas daquelas figuras sob o mesmo teto daria um derramamento de sangue sem fim. Acusações e rompimentos, no mínimo.

Mas ali estavam todos os mestres reunidos. Ou quase todos. Senti falta de Buda. Mas os outros estavam todos em paz. Cada um dos fiéis certamente conseguiria entrar em comunhão com sua entidade de preferência. Quase que uma religião à la carte. Desde que você desligasse o celular.  O celular parece que tem características profanas atentatórias à boa evolução do sinal de wifi médium/reino espiritual.

As pessoas chegavam em pequenos grupos para a cerimônia de passe espiritual. Por todo o templo, servidores vestidos de branco davam orientações, cumprimentavam os recém-chegados com alegria e faziam as últimas arrumações. De frente ao altar central, dezenas de médiuns com roupas alvas sentavam-se em cadeiras e entravam em transe. Alguns rezavam e faziam o sinal da cruz. Outros usavam colares de miçangas coloridas. Outro tinha um ramo de alguma erva nas mãos. Aquela fazia gestos no ar e batia as mãos de tempos em tempos.

Quando vi o salão estava cheio, os familiares já estavam presentes e a cerimônia começou. Havia algumas crianças no local, mas todas calmas e serenas. Vozes começaram a cantar. A oração falava de São Cipriano.

O cântico que ecoava ficou bonito em meio a tanta gente vestida de branco. E a oração de São Cipriano invadiu o templo.

Os médiuns no centro permaneciam sentados e em concentração. Na lateral um homem vestido de branco – todos eles – usava ervas ao redor do pescoço e dançava para frente e para trás como um índio Xavante.  O médium que conduzia a cerimônia era um senhor de idade e quando o cântico aumentou de volume ele entrou em contato com a entidade de São Cipriano e falava e falava e falava… confesso que não entendia quase nada das palavras balbuciadas mas ele aspergia um ramo de ervas molhado sobre as outras dezenas de médiuns sentados a sua frente que realmente estavam em outra dimensão: todos concentrados e de olhos cerrados, alguns inclinando seus corpos para frente e para trás, sinais feitos no ar, batiam as mãos, rezavam alguma coisa ininteligível.

Todo o público estava em silêncio assistindo a cerimônia quando nos convidam para o altar central com minha sobrinha no colo. Era hora do batizado e só no momento em que o médium jogou a água sobre sua fronte é que a criança parece ter despertado e se assustado um pouco.  Não faço idéia da entidade que realizou o ato, mas logo em seguida fomos informados que o espírito  havia saído e que podíamos ir para nossos lugares.

Fez-se o silêncio.

E todos fomos convidados para a sessão de passe espírita. Um a um todos se colocaram em fila indiana para irmos nos posicionando em frente a um dos médiuns. Minha cunhada com sua filha e minha esposa iam na minha frente. No meio da fila pensei se me submetia ao passe ou se respeitosamente me colocava de lado esperando a cerimônia encerrar.

Fiquei na fila.

As pessoas iam passando por um grupo de servidores do templo acompanhados pelo mestre da cerimônia e um deles jogava uma água, falava um número (cada pessoa tinha cantado para si um número) e encaminhava a pessoa para um dos médiuns sentados em transe.

– Esse aqui é onze! – falaram de mim quando passei.

E nesse momento o mundo espiritual voltou a chegar bem perto de mim. Estávamos longe e separados por tanto tempo. Fiz questão disso.  Não quero abrir mão da minha liberdade. Não quero ouvir lições de moral. Não quero saber de caminhos traçados. Não quero missões assumidas antes do nascimento. Não quero ouvir como a vida depois da morte é boa e que me peçam para abrir mão da vida enquanto vivo.

– Esse aqui é onze! – repetiram e me deram um cartão branco do templo com dados e horários da secretaria – Bem vindo, meu amigo! A gente espera poder contar com você. Fica nessa posição aqui que vai dar mais força na nossa corrente –  e me encaminharam para um das médiuns sentadas em transe.

A senhorinha lembrou-me de minha falecida avó. Negra, parecia baixa, rosto marcado, toda vestida de branco e usando uma guia de  miçangas ao redor do pescoço. Ela rezava em voz baixa e colocava as mãos – sem me tocar – sobre o meu peito.

Depois fomos encaminhados para um outro grupo de médiuns. Mesmo procedimento. Mas dessa vez foi uma senhorinha branca que  não usava colares e abriu os olhos umas duas vezes para sorrir para mim.

Terminado, fui convidado para sair. Havia uma fila grande de pessoas esperando pelos passes.

Antes de sairmos mostrei para minha esposa o cartão branco do templo com as anotações e disse que tinha que passar na secretaria para devolvê-lo.

– Mas vem comigo. Não quero entrar lá sozinho – eu disse para ela.

E como testemunha de todos os meus percalços e caminhos, ela me acompanhou. Nunca tive dúvidas quanto a isso.

A secretaria era clara e iluminada. Parecia uma secretaria de colégio e ali fui recebido por um senhor de idade e – claro –  vestido de branco.

Teria sido mais sábio não entrar. Mas uma vez ali e entregando o cartão recebido na fila do passe, ouvi educadamente.

São Cipriano me fazia um convite.

O mundo dos espíritos batia na minha porta e me chamava para entrar. De novo.

Por motivos que não compreendo, era a segunda vez na vida que me chamavam em um templo para fazer desenvolvimento mediúnico. Eu, que na pré-adolescência pensei em ser padre. Mas foi em terrenos de umbanda ou congêneres que os convites de participação espiritual vieram sem aviso algum. Na primeira vez eu achei que aquilo havia sido alguma peça de mau gosto ou um erro da entidade. Mas já era a segunda vez. Dessa vez eu entendia o que era o número onze.  E realmente tinha que ser um erro da entidade.

O senhor me explicou sobre o chamado espiritual que me era feito. Ele disse sobre a missão de caridade ao qual eu estava sendo convidado. Que isso não era prêmio ou virtude: era débito. Do quanto eu tinha para resgatar e que o chamamento  ocorria justamente pela carga de erros deixados em vidas passadas; mas que eu tinha o caminho do auxilio ao próximo aberto para mim. Caridade ao próximo me ajudando a resgatar débitos próprios.

Ouvi educadamente.

E enquanto o senhor pacientemente me explicava o convite de São Cipriano, eu pensei.

Pensei que não tenho dúvidas sobre os débitos que tenho com o mundo espiritual (seja lá o significado que você queira dar a isso).  Sou um poço repleto da falta de virtudes. Pela quantidade de apetites sexuais que despertam em mim. Pela bebida que ingiro todos os dias. Pelo desejo de dar fim mais célere a essa existência que volta e meia vem à mente. O rancor que guardo no peito. A dificuldade em perdoar. A visão cínica do ser humano que aumenta com o passar dos anos. A total falta de paciência que tenho com gente burra, além dos vários planos que invadem o meu pensamento para acelerar o desencarne de alguns – planos abortados, acalme-se!

Pensei na matéria. No corpo. Na vida que persigo na imanência e de como não estou disposto a seguir transcendências de antigas eras. Nem a ouvir lições que não sejam racionalmente atingíveis.

Quando meu interlocutor encerrou sua explicação, com todo o tato e educação eu agradeci e declinei o convite.

Não era para mim.

Nem padre e nem médium.

Não era para mim.

Minha esposa deu-me as mãos e saímos do templo.

Mas voltando para casa, pensei no convite de auxílio ao próximo para resgatar meus próprios débitos.

Um convite que a vida me fez há muito tempo.

E que eu já havia aceitado mesmo com todos os fios soltos, as inseguranças e os erros que me acompanham.

Pensei nas milhares de pessoas que já atendi profissionalmente ao longo dos anos. Na imanência. Na terra. Sem fazer julgamento moral, mas servindo-me justamente de meio, de mídia para tentar auxiliar o individuo na minha frente.

Presídios em que entrei,  júris que fiz, uma quantidade de gente sem caráter que tirei da cadeia esperando que o sujeito acertasse dessa vez; muita gente desesperada que eu auxiliei  em vias de perder a guarda de seus filhos, serem despejadas, ou que queriam justamente retornar ao convívio de seus filhos, reconquistar o patrimônio esbulhado por terceiros, fazer uma cirurgia de urgência no meio desse sistema de saúde carcomido ou achar uma saída em uma vida repleta de humilhações.

Gente impaciente. Muitos agressivos. Uma maioria que nunca vai saber a quantidade de horas e de madrugadas que perdi estudando seus processos e preparando suas defesas.

O mundo espiritual bateu à minha porta, sim. Querendo que eu me colocasse à serviço. Que independentemente dos meus débitos e das minhas próprias fraquezas, eu trabalhasse em prol do próximo.

Mas eu optei por fazer isso do meu jeito.

Nessa terra. Na imanência.

E deixando o telefone celular ligado.

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Crônica “O mundo espiritual bateu à minha porta” de  Manuel Sanchez

Crônicas e Afins: O cume da Montanha

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Alguns caras fizeram e fazem minha cabeça. Espero que exista de fato uma  reencarnação apenas para poder continuar lendo, viajando o mundo para pagar minhas promessas nos museus que me encantam. Mergulhando nessa dimensão.

De um recebi o clique inicial, de outro uma visão diferente dos chapas-branca de sempre e ainda existem aqueles que leio pelo prazer de discordar. Por outros eu faço uma religiosa peregrinação mundo afora para me embasbacar com suas obras e sua arte. Gigantes andaram no meio de nós. Existe beleza nesse mundo. E idéias que fazem a alma se movimentar. São como um tiro à queima roupa na letargia da mente.

Os livros possuem essa magia intrínseca cravados em si. Viajantes do tempo contando lendas de eras passadas. Iluminando com fogo antigo a nossa alma no presente. Projetando o nascimento de algo melhor em nós para o futuro. Conversamos com mentes que se foram há séculos. Mas que não se apagaram. Todos eles, com seus preconceitos, maluquices, obsessões, vícios, profundidades, percepções…todos eles me ajudam a ver o mundo de forma mais clara. Nem sempre mais bondosa. Talvez um pouco mais cínica. Sem dúvida, mais interessante.

Aqui vai a lista dos meus guias para o cume da montanha.

Shakespeare. Bukowski. Nelson Rodrigues. Machado de Assis. Nietzsche. Freud. Sêneca. Sartre. Carl Sagan. Bertrand Russell. Camus. Bauman.

E nas Artes Visuais: Salvador Dali. Caravaggio. Michelangelo. Klimt. Picasso. Goya. Van Gogh. Rafael. Leonardo. 

O mundo fica mais rico com esse faróis iluminando a madrugada. Faróis de gigantes que andaram armados sobre a terra. Atirando à queima roupa contra a inércia do pensamento.

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– Manuel Sanchez, ‘O Cume da Montanha”

Crônicas e Afins: “Um corpo que cai”

“Um corpo que cai”

– Manuel Sanchez

 

Quando eu recebi a notícia de sua morte por uma mensagem seca através da internet, não foi exatamente uma surpresa. O estado mórbido em que ele se encontrava nos últimos anos, afastado de todos e deprimido, prenunciava uma fatalidade antecipada. Mas me banhei em uma tristeza imensa: porque agora estávamos definitivamente separados, sem chance de uma reconciliação. Não nos falávamos há muitos anos.

Antes de sair, peguei meu álbum e escolhi uma foto antiga. Meio amarelada. Sempre gostei daquela foto.

Andando pela ruazinha de paralelepípedos, eu via os túmulos cinzas e suas estátuas de cobre e pensava se pelo menos naquele segundo meu antigo amigo tinha encontrado um pouco de paz.

Se é verdade que a hora da morte é sempre solitária e um evento individual, também é certo que o suicídio é a conclusão de um relato social que envolve múltiplas relações, ligações e rupturas em encontros desafortunados.

Na capela austera, me sentei ao lado de um homem baixo, feições duras e olhar fixo em um caixão fechado apoiado em cavaletes. Pai e filho que não se viam há mais de década, resultado de uma sucessão de desencontros, acusações e falta de cuidado. Afetos partidos entre dois homens difíceis que se culpavam pela morte da única mulher que havia unido ambos. Uma história familiar de separação.

A ausência naquele momento de ex-esposa e filha era uma marca forte. Ela havia me avisado do ocorrido – por mensagem. Relações amorosas entre marido e esposa, pai e filha, íntimas e frágeis destruídas por brigas, traições e mágoas do qual participaram amigos e familiares. Se a ex havia decidido não reencontrá-lo,  a filha havia sido arrastada pela decisão da mãe. E teria em sua mente a certeza de uma versão.

Não havia colegas de trabalho. Nem outros amigos de infância. Exceto o pai, nenhum outro familiar.

Meu amigo havia se arremessado do sexto andar de um prédio. Estava sozinho em casa. Um ato final e solitário. Uma decisão individual como muitos insistem fantasiosamente.

Fantasia. Foi tecido e costurado por anos e décadas de convívio social, relações afetivas variadas, frustrações comunitárias, diálogos interrompidos.

Todo suicídio é social.

Não estamos sozinhos nem mesmo quando fecham as cortinas.

O caixão foi levado por mim, pelo pai de meu amigo e dois funcionários anônimos do cemitério. Ninguém falou nada. Mas achei que deveria cumprimentá-lo. Brinquei por tantos anos em sua casa quando era criança. Mas acho que ele não me reconheceu. E também não fez perguntas.

Depositamos o corpo de meu amigo de forma rápida. E o seu pai saiu sem se despedir. Os funcionários foram cuidar de seus afazeres.

Fiquei um pouco mais de tempo. Olhei as árvores que se levantavam para o céu azul nesses dias quentes de verão. Escutei os pássaros que insistiam em cantar competindo com o barulho dos ônibus que atravessavam a rua abaixo, levando pessoas cheias de planos, afetos, raivas, fracassos, sonhos e realizações. Feixe social.

Sobre a lápide coloquei uma foto antiga que tirei do meu álbum. Dois moleques. Olhávamos para a câmera e sorríamos abraçados cercados de brinquedos e revistas em quadrinhos. Sempre gostei daquela foto.

Sai do cemitério reencontrado com a vida e com meus desejos. Disposto a costurar, aproximar, acalentar e a cuidar. Somos um mar de afetos que explodem na praia. Deixemo-nos banhar.

Havia um céu azul em um dia quente de verão.

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