Crônicas e Afins: memórias tecidas na varanda 

É curioso como certas mensagens grudam na cabeça da gente.  Ficam ali, esquecidas. Mas nunca apagadas. Moldes que vão disparar tantas reações no futuro. Disposições que nos levam em caminhos de alegrias ou de repetições nem sempre felizes. Seríamos nós programados pelos sons, mensagens e imagens que nos cercam?

Eu fui criado no subúrbio. Apartamento de frente para a rua, muito barulho e muita poeira. Cresci ouvindo minha mãe falando que um dia queria se mudar. Um local alto, longe do barulho e no qual pudesse ver o mar. Não precisava nem entrar na água. Mas era importante para ela que pudesse  ver o mar. Era uma imagem de liberdade.  Era um sonho de paz. Uma visão de um cantinho sossegado.

Os anos passaram. Milhões de coisas aconteceram. Ela se foi. Antes do tempo. Antes que fosse certo. E antes que eu tivesse me tornado quem sou hoje.

No dia em que comprei minha casa foi em um andar alto. Longe do barulho. Posso ver o mar todos os dias. É raro eu ir na praia.  Mas o importante para mim é que sempre posso ver o mar. Sempre me traz sossego.  Me conecta com alguma coisa imaterial.  

Memórias que nunca são apagadas. 

– Manuel Sanchez, ” posso ver o mar (memórias tecidas na varanda) ” 

Reflexões ao volante: trechos de entrevista, parte 2

– e você é feliz?

– sou. Mais do que parece. Falo de tristezas para desviar o foco e enganar a inveja.

– e por que você não conta sobre isso? Por que não dá a receita para os outros?

– não acredito em receita, não.  E nem acho que é coisa que se deve apregoar por aí.

– mas você não acha que as outras pessoas podem se aproveitar de descobrir um atalho ?

– então… Não tem atalho.  Não tem tabela.  É contigo. Decisão intransferível. Caminho único.  Rota virgem. A minha seara é do meu jeito e não se mistura com a de ninguém.  Cabe a cada um descobrir seus passos.

– Parece auto ajuda.

– talvez seja a única ajuda que valha a pena.

– não é meio brega?

– se você quiser ser chique, seja. Se quiser ser brega, tudo bem. Não existe tabela. Não tem receita para ser copiada por todos.  Não tem qualidade de vida título de matéria de revista .  Tem vida de qualidade. E só você pode descobrir o que acrescenta qualidade na SUA vida.

– você acredita em Deus?

– assim, na lata?

– você acredita em Deus?

– não acredito em determinismos. Não acredito em postergar a felicidade para depois da vida. Não acredito em transcendências que violem a vida. Acredito em Ogum. Acredito em energia de batalha. Acredito em Nietzsche. Conjugo Dionísio e Apolo na mesma mesa. Acredito na eudaimonia de Aristóteles e Sou confesso do amor fati.

– não entendi.

– os da minha tribo entenderam.
(Manuel Sanchez, trecho de entrevista)

 

Reflexões ao volante: trechos de entrevista, parte 1 

– para que você escreve essa página?

– nenhum motivo especial.

– você acha que alguém lê?

– não sei.  Não me importo com isso.  Não muito…. é para mim. É minha terapia.

– então para que se preocupar?

– eu não me preocupo.  Só quero dividir algo que achei interessante.

– mas não tem nada original. Nem suas crônicas. Você está sempre ou falando da sua vida ou resumindo muito mal gente muito mais complexa.

– não tenho pretensão de ser original. Só coloco à vista o que acho interessante. É só um farol. Cada um segue seu caminho.

-Mas nem tudo o que você coloca aqui é bonito ou dá esperança.

– eu nunca disse  que era para dar esperança.

– as pessoas podem achar que nada vale a pena lendo isso aqui.

– e talvez estejam certas.

– Isto é  um desserviço.

– não vim ao mundo para servir ninguém.
(trecho de entrevista, Manuel Sanchez)

 

Crônicas e Afins: Os dias e os namorados

image

Os amores e os afetos movimentam o pensamento e a arte desde o dia em que a faísca cruzou nossos olhos. 

É na busca dos encontros que criamos sentido. Encontros com o corpo, consigo mesmo e com o outro. A energia, o amor e o tesão descobertos NESTE mundo. O mundo real. O mundo dos movimentos e das energias. Encontros com os sentidos do corpo. Desejo que está no corpo. Mente produto do corpo. Mundo que é. Nada de mundos idealizados romanticamente. Mundo de atrito. Amor na posição vertical.

O que desejar para alguém? Amor. Mas que tipo de amor? Que o mundo te mostre menos amores Platônicos e mais amores Espinozanos. Menos amores articulados no desejo da  falta. Menos amores sustentados em idealizações. E que te ofereça mais amores de encontros reais. Que você busque mais amores de afetos. Tangíveis. Com tudo o que eles proporcionam de alegria e tristeza. Sem negar nada. Sem se afastar de coisa alguma que os amores deste mundo podem oferecer.

Amor aqui. Amor fati.
Potência de viver.
—————–
Crônica, “Os dias e os namorados” , de Manuel Sanchez .

Crônicas e Afins: o que existe em um nome?

O que existe em um nome?

(Manuel Sanchez)


Antes do palácio havia uma Alameda com grama no local. Um dia construíram um prédio alto na avenida. Muitos andares, muitas lâminas. O prédio era uma fortaleza com muros impenetráveis, patrulha militar, requintes de luxo e mármore, servos, aristocracia com salas especiais e tinha até seu próprio calabouço, como convém a todos os palácios.

Colocaram um nome bonito no portão de entrada. Portão com um fosso e vistoria, como convém a todos os palácios.

Colocaram um nome bonito no portão de entrada. Um nome. Um nome pode ser a antinomia do que você faz. Muitos tolos lêem a mensagem no portão e entram acreditando nas suas próprias esperanças. É uma forma de impedir que a realidade exploda. Também é uma ironia e uma maldade.

Existem algumas frestas e rachaduras no palácio de mármore. E enquanto não fecham as rachaduras vou passando pelo portão, pela vistoria do fosso e pelas salas especiais da aristocracia. E já que o nome bonito está estampado no portão eu o uso para tentar alargar as frestas. Às vezes, os donos do palácio se espantam. O que é isso? É um nome, eu respondo. O uso do nome. A aplicação do nome. A materialidade do nome. A encarnação do nome. Existem momentos em que eles riem. Outros em que constrangidos acenam para a imanência de um conceito. E como um feiticeiro conseguimos conjurar o nome.

Mas eu não sou tolo. Eu ando dentro de um Palácio. Seus donos fazem concessões para que a realidade da qual usufruem  não exploda. Seus donos acham que um nome é apenas um nome.

Ou talvez eu seja de fato um tolo. Tentando todo dia conjurar magias. Alargando rachaduras. Na esperança de materializar um nome: Justiça.