Crônicas e Afins: o que existe em um nome?

O que existe em um nome?

(Manuel Sanchez)


Antes do palácio havia uma Alameda com grama no local. Um dia construíram um prédio alto na avenida. Muitos andares, muitas lâminas. O prédio era uma fortaleza com muros impenetráveis, patrulha militar, requintes de luxo e mármore, servos, aristocracia com salas especiais e tinha até seu próprio calabouço, como convém a todos os palácios.

Colocaram um nome bonito no portão de entrada. Portão com um fosso e vistoria, como convém a todos os palácios.

Colocaram um nome bonito no portão de entrada. Um nome. Um nome pode ser a antinomia do que você faz. Muitos tolos lêem a mensagem no portão e entram acreditando nas suas próprias esperanças. É uma forma de impedir que a realidade exploda. Também é uma ironia e uma maldade.

Existem algumas frestas e rachaduras no palácio de mármore. E enquanto não fecham as rachaduras vou passando pelo portão, pela vistoria do fosso e pelas salas especiais da aristocracia. E já que o nome bonito está estampado no portão eu o uso para tentar alargar as frestas. Às vezes, os donos do palácio se espantam. O que é isso? É um nome, eu respondo. O uso do nome. A aplicação do nome. A materialidade do nome. A encarnação do nome. Existem momentos em que eles riem. Outros em que constrangidos acenam para a imanência de um conceito. E como um feiticeiro conseguimos conjurar o nome.

Mas eu não sou tolo. Eu ando dentro de um Palácio. Seus donos fazem concessões para que a realidade da qual usufruem  não exploda. Seus donos acham que um nome é apenas um nome.

Ou talvez eu seja de fato um tolo. Tentando todo dia conjurar magias. Alargando rachaduras. Na esperança de materializar um nome: Justiça.

Crônica: “O caminho da felicidade”

“O caminho da felicidade”

( Manuel Sanchez )

 

Quem lê o que escrevo, encontra textos mais densos, outros mais cínicos. Alguns são particularmente tristes ou nostálgicos. Mas isso ocorre porque no terreno da felicidade, eu optei por vivê-la; não descrevê-la em palavras.

Eu tenho uma esfera de felicidade própria. E sou muito agradecido por isso, apesar de não fazê-lo tanto quanto deveria. Seria uma falha?

Chega a ser uma limitação, algo que preciso alterar em abordagens futuras. Crio uma imagem de que estou constantemente triste ou me afogando em mágoas. Elas existem, sim. Veja bem, não tenho nada contra a tristeza. Ao contrário, coloco-me contra essa necessidade de demonstrar constantemente uma felicidade forçada, seja em redes sociais, por ingestão de remédios ou na negativa de ficar um pouco sozinho. No meu caso, os momentos de solitude acabaram sendo um gatilho para uma análise feita em textos, uma terapia vasculhando memórias.

Mas isso não esgota os inúmeros interesses e momentos alegres de vida. E eu gosto de viver. Busco potência nessa vida.

Por exemplo, prefiro as manhãs. Gosto do sol e de me perder andando pela cidade.

Viajar me motiva: abre portas, escancara percepções. Novas comidas, novas bebidas, pessoas desconhecidas que puxam conversa quando percebem que sou turista. Entre optar por consumir coisas e consumir experiências, mergulho de cabeça nas últimas.

Gosto do toque. Não consigo conceber o amor sem o sexo. E eu vivo um amor real. Meu desejo é uma fonte constante de satisfação e de renovação dos laços. Não sou platônico: não creio que a falta alicerce o desejo. A falta leva ao fim. Preciso da concretude dos beijos e do orgasmo. Amores de carne. O sexo nos aproxima. O sexo nos expõe.  Gosto de dominar.

A arte me seduz. A arte é um farol em uma terra estrangeira. Uma terapia. Meu templo. Busco uma descoberta constante da arte em si e também dos sentimentos e pensamentos que são despertados conhecendo os Mestres. Sou um amante de todas as suas manifestações: pintura, escultura, música, teatro, literatura, dança, canto, quadrinhos, cinema… se algo me frustra na vida é não ter esse dom. Rabisco algumas palavras na tentativa de criar a magia mas…. apenas para bater de frente com o sentimento de Salieri olhando para Mozart.

Valorizo amizades e a lealdade. Mantenho as minhas por décadas. É muito difícil gente nova entrar nesse circulo. Não que seja um amigo próximo. Sou parecido com um cometa que aproxima-se durante um tempo, esfuzia-se com o encontro e depois precisa afastar-se. Mas também me teletransporto rápido quando um amigo pede socorro. Dói na alma quando constato que uma amizade acabou. Mas também respeito o fim: tudo tem seu ciclo.

Abro espaço nos meus dias para me cuidar.

Mas também me estrago com prazer. Cerveja é bom para os dias quentes, mas eu gosto é de whiskey todas as noites. Acho cigarro uma coisa de frescos: quando fumo, tem que ser charuto. Adoro os clubes com meninas dançando para mim. Gosto de jogar. A falta de opções legais não constitui problema.

Preciso de café.

Normalmente eu me comporto. Não gosto de atrair a atenção e nem de mostrar quem eu sou para as pessoas. Dificilmente falo o que penso de alguém e sei analisar um local e o que pode ser dito ou feito em seu seio. Guardo para mim os meus prazeres e aventuras.
Acredito que a idéia de que se deve revelar tudo, o tempo inteiro, e que isso é sinceridade e transparência, apenas torna-o inconveniente.

Respeito o caminho de cada um, apenas não aceito que venham tentar mapear o meu. E hoje sou cruel quando tentam fazê-lo. Aprendi que devemos ser cruéis com os glutões que arrotam verdades tentando vomitar em nossas asas. Ando no mundo politicamente correto sem me misturar com seus defensores. São todos eles tiranos do espírito. Evito os ambientes de mediocridade que me incomodam. São repletos de burrice e vulgaridade. Tenho desprezo por pessoas que constantemente se vitimizam e não assumem a responsabilidade pela mudança em suas vidas.

Sou o reflexo de uma coleção de bons momentos e de boas lembranças. Muita alegria e risos. Vou costurando uma tapeçaria que me sustenta com prazer na vida, apesar de saber que – para muitos – visto as armas do cinismo e da indiferença. Não me importo. Os que pensam assim apenas demonstram que estão fora do meu círculo íntimo. E se assim estão, motivos existem.

De todas as lições que tirei, essa é a mais importante: não existem fórmulas de felicidade nesse mundo. Nada de tábuas com mandamentos a serem seguidos por todos. Receitas prontas de bolo para atingir a alegria. Não.

Não existe um sentido prévio aos nossos dias. Uma essência alquímica que nos revele as verdades para preencher com luz o caminho. Não.

O sentido não é pretérito. Ele não desce da transcendência como um guia ou seta flamejante. Não.

Sem gurus. Sem guias. Sem caminhos únicos. Sem verdades absolutas. Afasto-me dos patrulheiros do politicamente correto com seus grilhões.

Construímos o sentido da vida, vivendo.

Dia após dia. Tarefa individual e intransferível. Árdua mas imensamente libertadora. Experimentamos e descobrimos os prazeres que nos são próprios e nos cercamos deles. Aproximamo-nos das pessoas que nos são caras e as mantemos. Aceitamos sacrifícios e deveres afins com os valores que almejamos em nossas vidas porque desejamos vê-los realizados.

Quando descobri isso, percebi que a felicidade não é nem um estado constante do pensamento e nem um destino. É um caminho, com picos e vales. Sem mapas. E que o assombro não me paralisa, mas é o fogo e o combustível que me impulsiona.

Sempre para frente. Sempre adiante. Rédea na mão, assumindo o controle das minhas decisões e vivendo com seus acertos e equívocos.

Eu gosto das manhãs. Tomo um café bem quente e deixo a sensação se espalhar pelo meu corpo. Hoje está um dia particularmente belo de outono na minha cidade. Uma leve brisa, não faz muito calor.

Hora de me perder por ai. Picos e vales.

Sem mapas.

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“O caminho da felicidade”, de Manuel Sanchez

Crônicas e Afins: Os dias e os namorados

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Os amores e os afetos movimentam o pensamento e a arte desde o dia em que a faísca cruzou nossos olhos. 

É na busca dos encontros que criamos sentido. Encontros com o corpo, consigo mesmo e com o outro. A energia, o amor e o tesão descobertos NESTE mundo. O mundo real. O mundo dos movimentos e das energias. Encontros com os sentidos do corpo. Desejo que está no corpo. Mente produto do corpo. Mundo que é. Nada de mundos idealizados romanticamente. Mundo de atrito. Amor na posição vertical.

O que desejar para alguém? Amor. Mas que tipo de amor? Que o mundo te mostre menos amores Platônicos e mais amores Espinozanos. Menos amores articulados no desejo da  falta. Menos amores sustentados em idealizações. E que te ofereça mais amores de encontros reais. Que você busque mais amores de afetos. Tangíveis. Com tudo o que eles proporcionam de alegria e tristeza. Sem negar nada. Sem se afastar de coisa alguma que os amores deste mundo podem oferecer.

Amor aqui. Amor fati.
Potência de viver.
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Crônica, “Os dias e os namorados” , de Manuel Sanchez .

Crônica: coração de viajante 

Férias! Bem-aventurados aqueles que viajam, se arriscam e se dedicam ao ócio porque deles é o Reino do autoconhecimento e das experiências da mente e dos sentidos.

Volto aos Estados Unidos depois de sete anos. 

Nova York foi a primeira cidade internacional que eu conheci de verdade. E volto à cidade depois de sete anos. Quando estive aqui pela primeira vez era um sujeito que tinha lido muito e visto ou feito nada. Fiquei deslumbrado com a cidade e com suas possibilidades.

Sete anos atrás. No meio desse intervalo passei por outros 12 países, viajei em um deserto, subi em um vulcão e fui na Amazônia. Visitei pirâmides, andei ao redor de Stonehange e entrei em catacumbas. Foi um belo periodo para um moleque criado no subúrbio e que não conhecia nada de nada e só via o mundo pela TV e páginas impressas. 

A primeira vez que estive nos Estados Unidos, achei que Nova York era o melhor lugar do planeta. Nada poderia ser tão impressionante! 

E de fato, estamos falando de um dos principais locais cosmopolitas do planeta. Gente de todo canto,  uma multiplicidade de idiomas nas ruas, museus arrebatadores e teatros encantadores. Bom… e continua tudo ali. Mas um pouco de experiência e perspectiva também colocaram a cidade sob outras luzes e agora ando por essas ruas de um jeito mais cínico e menos deslumbrado. Saio dos turistas, escolho outros ângulos, seleciono os horários. Busco ir para longe do óbvio. Adoro o lugar mas descubro que hoje NY está longe de ser meu canto preferido.

Dessa vez dei um pulo em Boston também. Bonita, limpinha, deve ser gostoso de viver,  mas tudo é arrumadinho demais e acho que ia enlouquecer. Gostei de dar uma caminhada por Harvard e no MIT e depois  tomar uma cerveja Samuel Adams no Macy Market.

E flanei por Whashigton. A capital do império é fria e cinza. A parte central é bem imponente! Típica arquitetura para gerar o sentimento de diminuição no ser humano. Os monumentos são todos dedicados à guerra, soldados e mortes. Ornamentos impávidos de conquista. Obviamente diz alguma coisa sobre uma sociedade amparada nas empresas bélicas e na criação de conflitos.  A área dos museus me deixou muito interessado, mas só tive tempo para visitar um. 

Acho que fecho esse ciclo pelos Estados Unidos. Um ciclo de 7 anos perfeitos. Mergulhei em culturas , idiomas , experiências, dezenas de museus, músicas, bebidas…. me virei, arrisquei e sai da rotina. Amadureci viajando. Descobri que viajando eu faço minha análise e aprendi muito sobre os meus gostos, apetites e interesses. 

Mudei muito nesses sete anos de pé na estrada. E quando eu olho a cidade ao meu redor me dou conta disso. Não sou mais deslumbrado. Sei do que gosto , onde gosto e seleciono. E hoje tenho um caminhão de experiências para comparação.

Creio, contudo, que já basta de Tio Sam. Só retorno quando  esgotar tudo o que quero na Europa e nos vizinhos da América do Sul. E olha que acho que vão ser décadas de exploração.

E assim começo meu novo ciclo de 7 anos. Vamos ver onde eles me levam.

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Por Manuel Sanchez